O Património, do Latim pater ou o que o pai transmite ao filho, podendo ser material e imaterial, principalmente em vilas e cidades históricas como é o caso de Elvas, é bastante visível na paisagem urbana, é marcante e é decisivo ao longo dos séculos na vivência da população – simultaneamente por necessidade da fronteira e por gosto, quer dos habitantes quer da Coroa portuguesa.
Isto significa que se traduz concretamente e influencia a vida das pessoas e vai para além de expressões literárias mais ou menos eloquentes que embora ajudem a perceber o sentido podem esquecer que a sua tradução é, também, quotidiana e essencial nas terras e nos espaços. Assim se percebe, por exemplo, que quando a grande literatura usava a expressão latina locus amoenus ela pode corresponder a uma vivência concreta também vivida pelos habitantes de Elvas quando, por exemplo, tiveram acesso pela primeira vez à água trazida à cidade através do fabuloso Aqueduto da Amoreira para a Fonte da Misericórdia – a memória colectiva habitualmente preserva-a, seja graças à toponímia seja pela heráldica ou pela tradição/cultura oral. Esse dia terá sido certamente a visão literária dos poetas, de Virgílio a Camões, materializada no património construído que mudou a vida, pois não sendo apenas uma visão ideal ou filosófica passa a ser parte fundamental e identitária da vida local. Será que há registos históricos da alegria que deve ter havido entre os Elvenses? Assim é a visão de património que defendo, monumental e funcional que recebe marcas do tempo mantendo a integralidade. É passado e presente.
Não vou abordar especificamente o recente caso de destruição da Capela numa quinta em Elvas e o licenciamento camarário que correu a comunicação social nacional e os grupos de salvaguarda do património por não estar por dentro do que seria relevante para analisar o caso. Contudo, tem acontecido em várias regiões do país e talvez seja útil lembrar que as capelas, castelos, fortes, são bens culturais únicos.
O património cultural de Elvas é de tal forma monumental que não encontra semelhantes no país e disso devemos estar cientes, com as alegrias e preocupações que tal deve comportar.  Este património cultural a que nos referimos pode ser as belezas da Serra de São Mamede e do património natural das freguesias todavia é decididamente também o património histórico-artístico que os museus desta cidade, tanto nos edifícios como nas colecções, bem representam.
Importará referir que as cidades monumentais, mesmo quando Património da Humanidade classificado pela Unesco, podem perder as classificações caso o cuidado – que não se confunde com inutilização – e preservação inclusive de áreas envolventes não sejam uma preocupação constante que permita preservar o património das regiões. Torna-se evidente que exige uma atenção redobrada e prudente aos municípios; e devem saber preservar através das medidas que existem, desde logo nos respectivos concelhos os imóveis classificados com Interesse Municipal ou Monumentos Nacionais com apoio do Ministério da Cultura. Estar em rede e a par das melhores práticas de conservação é decisivo de forma a proporcionar às próximas gerações continuarem a conhecer e a poder usufruir do legado dos antepassados e que é herança cultural comum que impele para um futuro de valores que faz a diferença e reforça solidariedades em todas as épocas e que não começou hoje, uma vez que “o posicionamento de Elvas na rede urbana nacional é também reflexo dos desequilíbrios, das assimetrias e das polarizações que caracterizam desde há décadas o sistema de povoamento nacional” (cf. João Luís Fernandes e Paulo Carvalho Património Memória e Identidade: Repensar o Desenvolvimento, Centro de Estudos Geográficos de Coimbra, p. 207).
É por isto que as políticas que tocam estes domínios afectam a todos, não se coadunam com visões de curto prazo e devem ser pensadas. E, quando aliadas ao Turismo, podem ser uma oportunidade para a reabilitação das localidades.
Se alguma coisa a pandemia nos trouxe foi a capacidade de valorizar o espaço público patrimonial, nomeadamente nos lugares fora das metrópoles até aqui mais esquecidos e que guardam há séculos exemplares e tradições do Portugal de sempre e que oxalá se preserve no melhor sentido.

Tiago Matias, licenciado em Estudos Europeus (Faculdade de Letras de Lisboa)

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