O campo de tiro nacional ainda nem está construído e já ofereceu a Alter do Chão uma daquelas coincidências tão extraordinárias que só mesmo a política portuguesa consegue produzir. Entre todas as possibilidades do mapa nacional, entre todos os territórios disponíveis, entre todas as análises técnicas, estratégicas e operacionais, eis que o projeto acaba precisamente onde António José Baptista, actual diretor-geral de Armamento e Património da Defesa Nacional, tem fortes ligações políticas e profissionais, tendo sido funcionário do município.
Pelo nosso distrito ouvem-se suspiros:
“Em Portugal há carreiras que demoram décadas a construir, outras são fruto de aterragens oportunas.”
Esperemos que os pilotos em treino no novo campo de tiro se inspirem na pontaria deste tiro certeiro.
António José Baptista, eleito nas últimas autárquicas deputado municipal em Alter do Chão, parece ter sido peça fundamental a encaminhar um dos maiores projetos militares do país, que viaja a reboque da construção do novo aeroporto em Alcochete, para o Alto Alentejo.
Durante anos, o CDS apresentou-se como o partido da propriedade privada, dos agricultores, dos lavradores, dos homens e mulheres que vivem da terra. No Alentejo, onde António José Baptista iniciou a sua caminhada política e profissional, essa imagem foi quase uma marca registada. O CDS foi o partido que afirmava a defesa dos proprietários (palavras entoadas por Tozé em várias campanhas por este Alto Alentejo), foi o partido que relembrava os tempos negros das ocupações, foi o partido que falava de respeito pelo mundo rural.
Foi, mas o tempo voa.
Agora, vários agricultores no Alto Alentejo lutam contra as expropriações de um plano que começou em terras do estado, mas que rapidamente se alterou. Uma nova versão do velho princípio democrata-cristão: a propriedade privada é muito importante… até aparecer um campo de tiro.
Primeiro disseram que a solução assentava em terrenos públicos. Parecia simples. Parecia lógico. Parecia razoável.
Depois começou a descobrir-se que afinal os terrenos públicos talvez não chegassem, começou a falar-se em propriedades privadas. Pelo meio há ainda o problema do gasoduto (literalmente pelo meio).
Uma petição pública circula agora para evitar este plano alvo de tanta dúvida e indignação.
A cada novo obstáculo, a grande oportunidade para o Alto Alentejo foi ficando cada vez mais parecida com um problema para o Alto Alentejo.
As dúvidas multiplicam-se. Qual o verdadeiro impacto económico para a região?
Quantos trabalhadores agrícolas vão perder o trabalho com as expropriações? Qual o impacto no turismo, sector que parece segurar grande parte da região?
Serão os militares residentes no campo de tiro suficientes para compensar estas perdas?
Talvez os habitantes do concelho não estejam a compreender a dimensão histórica do projeto. Afinal, quantas localidades podem dizer que trocaram a sua imagem de turismo de natureza, património e tradição equestre pela possibilidade de ouvir munições de grande calibre ao longe?
É a modernização.
Lembro-me bem de, no CDS-PP, se reivindicar várias vezes o papel fundamental da caça e dos caçadores, mas de todas essas vezes nunca pensámos na estratégia de abater javalis com um F-16.
Confesso um desconforto político causado por esta situação. Os mesmos que durante décadas advertiram contra os excessos do Estado surgem agora associados a um projeto que pode obrigar cidadãos a sacrificar património, tranquilidade e expectativas legítimas em nome de um interesse superior definido por Lisboa.
A regionalização no seu melhor. Tudo para o interior…desde que sirva os interesses da capital.
Subitamente, aquilo que era princípio tornou-se exceção.
Aquilo que era bandeira tornou-se detalhe.
Aquilo que era defesa dos proprietários tornou-se um estudo de impacto.
E aquilo que era o eleitorado tradicional do partido passou a ser um obstáculo administrativo.
Quiçá tudo isto seja até injusto para António José Baptista. Talvez o seu único pecado tenha sido assistir, da primeira fila, a uma sucessão de coincidências demasiado perfeitas para não despertarem curiosidade. Mas o mesmo não se pode dizer para o CDS-PP.
Admito a hipótese de estar redondamente enganado. Todos conhecemos as convicções de Nuno Melo sobre Olivença, quem sabe este seja o primeiro passo para uma reconquista através da força militar. É colocar uns militares ali ao lado, como quem não quer a coisa, e quando os espanhóis menos esperam dominamos a raia.
Enquanto o projeto acumula dúvidas, contestação e perguntas sem resposta, uma questão continua suspensa no ar:
Quem decidiu que Alter era o local certo?
Porque se a escolha foi exclusivamente técnica, os seus defensores não deveriam ter qualquer dificuldade em explicá-la de forma transparente e convincente.
Até lá, permanecerá a sensação de que o voo da TozAIR levantou sem plano de voo visível, sem destino consensual e com cada vez mais passageiros a pedir esclarecimentos à tripulação.
E quando isso acontece, normalmente não é a turbulência que preocupa, é a aterragem.
Mas em terras lusas já se sabe, é comum enterrar Portugueses para aterrar em alguns assentos.

