O erro trágico da narrativa oficial é tratar a instalação do Campo de Tiro como um diferendo privado entre o Estado e alguns proprietários rurais. Na realidade do Alto Alentejo, o drama de quem perde a terra hoje será, inevitavelmente, o drama de todos os residentes amanhã, através de um efeito dominó que ameaça sufocar a economia regional.
Uma herdade pecuária não opera no vácuo. Ela é o ponto de partida de uma extensa engrenagem económica local que sustenta dezenas de famílias que não são proprietárias de um único hectare. O fim anunciado destas explorações agrícolas e pecuárias arrastará consigo, de forma imediata, as empresas de rações e sementes, os distribuidores de alfaias e a indústria de venda e manutenção de maquinaria agrícola.
O impacto, contudo, não se esgota aí. O encerramento destas herdades dita a severa redução de atividade nas oficinas mecânicas locais, nos serviços clínicos veterinários e nos fornecedores de medicamentos para o gado, pondo em risco os postos de trabalho dos seus funcionários.
Quando o motor produtivo da terra é desligado, o empobrecimento da região é geral. Sem os salários e os postos de trabalho gerados por toda esta rede de fornecedores e prestadores de serviços, o comércio local, os cafés e a restauração das vilas perdem os seus clientes diários.
Asfixiar a pecuária não penaliza apenas quem herda ou gere o solo; condena quem ali reside ao desemprego e à migração forçada. Isolar o território para fins militares é amputar o sustento de uma comunidade inteira, provando que a vedação que hoje afasta o produtor é a mesma que amanhã expulsará o residente.
Rosa Mabilda Torres
