As interrogações e mitologias das grandes civilizações, da suméria, egípcia, grega ou romana, assim como das grandes religiões, foram em grande medida colocadas de parte pelo Homem moderno. Porém a sociedade, pese embora seja um lugar físico, é um lugar mental, isto é, do domínio das mentalidades e do pensamento. 

É a humanidade que domina o planeta ou é o planeta que domina a humanidade? Esta questão talvez ganhe novos contornos após a vivência de uma epidemia e a resposta certamente difere do que teríamos respondido em 2018 quando se vivia em pleno o resultado de revoluções industriais e tecnológicas. 

Os períodos de epidemias, de pestes ou pandemias historicamente suscitaram alguma divisão mas também suscitam reflexão. Foi o caso da gripe pneumónica em 1918 no tempo do presidente-rei Sidónio que acabou como sabemos. É evidente que se vivia de forma relativamente distinta, desde logo porque grassava o analfabetismo mas a sociedade de então não deixou de tratar das suas necessidades – e sem o conhecimento médico e laboratorial que hoje existe. Tal como durante a peste negra por volta de 1350 que ceifou 1/3 das vidas na Europa. E durante a cólera que não permitia matar a sede em Portugal. E os confinados nos lazaretos. Como sempre, pode haver aproveitamentos políticos de vários quadrantes. Até hoje sempre ultrapassados e vividos pelos nossos avós ou bisavós. 

Estamos em março de 2021 e o confinamento geral causado pela pandemia Covid-19 em Portugal e um pouco por toda a Europa, com algumas diferenças entre si, parece eterno – legalmente protegido contando o 12º Estado de Emergência até 16 de março e um ano após o início da escalada pandémica. Estado que vigorou até 16 de março e a ser renovado, veremos até quando, depois de um inverno em confinamento, com cafés fechados, bancos dos jardins enrolados em fitas da protecção civil ou das forças de segurança, empresas a meio gás, deslocações proibidas aos fins-de-semana entre concelhos, escolas em stand-by, cabeças enroladas em preocupações e despesas várias, livrarias encerradas porque o património cultural é certamente subversivo, etc etc etc.  

E as autoridades de governo e de saúde apontam cautelosas e titubeantes para uma reabertura parcial e cuidada da vida “ao postigo” que, lembrando as portas e janelas encerradas em todas as vilas e cidades deste país, ainda assim parece o novo Jardim do Éden. Abertura da sociedade e das actividades culturais e económicas com escolhas pouco compreensíveis (para não dizer destrambelhadas ou até mesmo banais por serem as mais fáceis e as menos lógicas) pelo meio: porquê fechar as livrarias normalmente pouco frequentadas e manter os transportes públicos quase sempre lotados? Naturalmente seria mais dispendioso refazer a oferta de meios de transporte do que mandar encerrar lojas e lojistas – claro! Não esquecer que cada loja tem por trás pelo menos um lojista e respectiva família a quem deve ser dado o direito a viver não apenas sobrevivendo. 

Provavelmente, dirão alguns e certamente cheios de razão, é fruto do receio do descalabro de contaminação que existiu na época do Natal (também por esta razão teremos uma Páscoa a 4 de abril com deslocações proibidas entre os velhos municípios portugueses. Parece assim a certa atura que alguém se esqueceu que a vida não pára em absoluto. Aliás, nem em absoluto nem em sentido relativo – ou está alguém neste momento com a mesma e precisa idade que tinha ontem? Depois há os descalabros estruturais que se sabe: as casas não estão preparadas (nem as pessoas) para este longo isolamento ainda que colmatado pela internet; que com os raios de sol de março começa a tornar-se exasperante. E como não? Numa comunidade marítima e atlântica como a portuguesa faz sentido não apanhar ares do mar a todos os títulos recomendado?  

O que fazer? Cabe as decisores políticos fazer escolhas em nome de quem governam e que podem atingir os cidadãos, como nos lembra a política clássica da pólis grega. Parece haver um certo exagero, compreensível no mês de janeiro mas agora menos, de ter as lojas e os cafés encerrados, espaços caros à cultura lusíada. Para a cultura portuguesa bem como para todo o sul da Europa, de temperaturas amenas e culturas de passeio e de convivência de rua, o encontro no café enquanto lugar e instituição mesmo que por 5 minutos não é um hábito menor. E trará certamente benefícios a todos os níveis, até relacionais, que devem ser lembrados neste tempo. 

Comerciantes e empresários não querem, ao que indicam as notícias, manter os negócios fechados. E os gestores públicos e políticos parecem ter receio de tomar decisões pelos votos que lhes podem vir a custar nas próximas eleições.  

Importará contudo lembrar o que diferencia os grandes estadistas dos políticos medíocres: escolher e estar preparado para optar em épocas decisivas. A humanidade adaptou-se ao longo da História de epidemias e outras limitações e guerras a todo o tipo de necessidades. Este ambiente fechado de tempo de guerra não pode ser prolongado eternamente ainda menos quando já não se sente necessidade desta desproporção de liberdades com limitações. Apontam vários especialistas de diversas áreas ser tempo de voltar ou continuar a produzir, a inovar e a pensar, com as lojas como cabeleireiros e barbeiros abertos que fazem tanta falta a todos. A receber os clientes que vão aparecendo e que são quem faz a diferença. Fechar os negócios por longos períodos significa normalmente a miséria social que se manifesta logo nos meses seguintes e que alguns sinais de falências já parecem indicar.  

Não esqueçamos que repentinamente toda a “sociedade aberta” (na teorização de sir Karl Popper) em que vivemos e que nos precede em décadas se transformou abruptamente. Podendo dar-se bom uso ao individualismo que a caracterizava e que se vinha cultivando nos relacionamentos. No sentido de cada um ser responsável pelo seu comportamento e nessa medida sendo responsável por si estará a contribuir para o bem-estar geral. 

Há que ter prudência com estes confinamentos quase totais pois por fácil que pareça fechar portas e receber subsídios nacionais ou da UE, são temporários e a organização produtiva pode perder-se paulatinamente e desmotivar os intervenientes.  

Mas tudo isto implica cuidados sanitários e de higiene que são básicos e decisivos: usar máscara em espaços comuns, deixar distância física das pessoas que passam por nós e lavar as mãos frequentemente, com o gel desinfectante que entretanto se tornou comum e é comparticipado. O bom-senso de seguir as indicações constitui sempre uma dificuldade. A quem se dirigia aquela expressão atribuída após as guerras púnicas a um romano “não se governam nem se deixam governar”? Pois. 

Para se conseguir animador resultado as normas devem ser justas e claras: coisa que muitas vezes tem falhado e quando demasiado apertadas ou burocráticas tendem a fazer o efeito contrário levando a que poucos as sigam. Há caminho. E estaremos a fazer serviço público contribuindo para devolver a vida à nossa sociedade que agora pode ser ou voltar a ser ou vir a ser mais estimada.  

São tantas ou tão poucas as diversas fases de desconfinamento até abril que já não sei a que horas posso ir ao supermercado este fim-de-semana. Mas a páscoa é esperança.

Tiago Matias licenciado em Estudos Europeus na Faculdade de Letras de Lisboa

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