O Partido Comunista Português forma-se com indivíduos vindos do movimento operário saídos da vitória da jornada de 8 horas de trabalho reivindicada pelo sindicalismo revolucionário e anarco-sindicalismo e comemora os 100 anos da sua fundação em março de 2021 – teve primeira sede na rua Arco do Marquês de Alegrete em Lisboa, reunindo assembleia a 6 de março de 1921 na Associação dos Empregados de Escritório em Lisboa onde é eleita a primeira direcção – e para tal colocou bandeiras do partido nas principais praças e avenidas do país marcando a efeméride.

Considerando:  

1 – O PCP tem uma história longa e assinalável sendo o partido mais antigo a funcionar em Portugal; os movimentos monárquico e anarquista não se consubstanciaram nesta dinâmica. 

2 – A ideologia do PCP é violenta e nefasta. Plasmada no tratado político «Manifesto do Partido Comunista» publicado em 1848 por Karl Marx e Friedrich Engels e que motivou a revolução de 1917 na Rússia, adaptada na praxis por Lenin.  

3 – Desde cedo foi analisada e contestada por diversas correntes de pensamento e fortemente pelos Papas e pela doutrina social da Igreja. Merece atenção a carta encíclica «Divinis Redemptoris» de Pio XI sobre o comunismo ateu: “Não se calou esta Sé Apostólica, que muito bem conhece que tem por missão peculiar defender a verdade, a justiça e todos os bens imortais, que o comunismo despreza e impugna.”. 

Dito isto, recordo que pelas aspirações de várias gerações até aos anos 2010 a associação de estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa e respectivos alunos e meus colegas estavam ainda maioritariamente ligados ou simpatizavam com o Partido Comunista Português, a que em boa verdade nunca me juntei. E que muitos dos meus amigos, e os mais leais e respeitadores (ao contrário de outros militantes de partidos de outras áreas e de outra extrema-esquerda) eram comunistas. Oriundos principalmente do departamento de História e do departamento de Filosofia – sem considerar aqui os investigadores, o que também acontecia. Que tiveram ampla e reputada escola científica em Letras e nas Ciências Sociais em geral em tantos institutos universitários.  

Tive sempre o melhor trato e convivência com esses amigos e amigas politizados do PC. E, desde cedo, comecei a separar, digamos assim, a categoria pessoal de cada um deles (geralmente preocupados com o bem-comum) da sua visão política, esta sim assente em princípios e exemplos terríveis de Estados totalitários e com desgraçadas consequências históricas e actuais de miséria para povos inteiros. Não posso deixar de referir, por exemplo, que há poucos dias, na loucura legislativa da assembleia comunista bolivariana da Venezuela, foi “expulsa” do país pela segunda vez (em julho o presidente ditador venezuelano tinha saudado um acordo entre Bruxelas e Caracas e suspendeu a anterior expulsão) a embaixadora representante da União Europeia, uma diplomata portuguesa, por “sanções que são contra a soberania da Venezuela, contra o nosso gentílico de seres humanos dignos, leais à pátria de Bolívar (Simón)”. A sua visão democrática é peculiar e curta e não defende o debate democrático que pauta há décadas o espírito e a vivência política das sociedades desenvolvidas ocidentais. Pois parte de premissa quanto a mim insanável: “A história de toda a sociedade até aqui é a história de luta de classes.” («Manifesto, I Burgueses e proletários», edições Avante, 1997).  

Por tudo isto, não comemoro a ideologia marxista nem o partido. Porém não é possível esquecer a história do PCP e das suas lutas, muitas delas justas e essenciais a favor das condições dos trabalhadores menos protegidos da sociedade no último século e para a qual foram um apoio. Vejo deste modo esta comemoração e não a reduzo aos diminutos resultados eleitorais que o partido representa em 2021. Mas compreendo ainda melhor que cada um tem direito à sua legítima propriedade. Há um lastro que tem de ser estudado e que por vezes por bem – mais nas ideias do que na prática – e muitas por mal deixou lastro na comunidade internacional.  

Lembrar o centenário do PCP. E saber que felizmente temos uma democracia representativa em Portugal.

Tiago Almeida Matias, licenciado em Estudos Europeus (Faculdade de Letras de Lisboa)

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