Já se sabe que “o exemplo deve vir de cima” mas o actual problema no país é de tal forma generalizado que não pode ser essencialmente de ministros. Uma falta de educação e de preparação generalizadas que já há anos se notava e que agora com a pandemia covid se tornou evidente no SNS. Tivemos 721 mortes no dia crítico de 20 de janeiro de 2021, 221 das quais explicadas pela covid-19 segundo o boletim epidemiológico da DGS sendo o registo mais alto de mortalidade desde 1980 e acima da média para a época; na mesma semana Portugal passa a ter o mais alto registo no mundo em casos diários por milhão de habitantes, acima dos 10.000 casos diários a 17 de janeiro. Passa-se de cantar aos enfermeiros e médicos a partir da janela durante o primeiro confinamento em abril de 2020 a desconsiderar os seus conselhos em dezembro. Onde cada um só estava bem a cascar na opinião dos outros sem se preparar e sem critérios de rigor. Vinha-se cultivando certa postura desresponsabilizadora de animar levianamente a desgraça alheia disfarçada de amiguismo online – e também válida para os controladores à caça de covid tipo polícias-covid tirando fotografias num controlo sem precedentes aos vizinhos que caminhavam ao ar-livre sem saber as necessidades de quem se desloca.

Só podia dar nisto, mais cedo ou mais tarde nesta decadência nacional generalizada e de terceiro mundo – que parecia estar constantemente a imitar o que importava de fora como, por exemplo, resmas de ideias de legislação sem necessidade quando estavam a destruir o pouco que havia por ideologias ou interesses pessoais. Felizmente não há leis que possam controlar o livre-arbítrio. Que ninguém se admire, portanto. Bastava uma catástrofe natural aliada à irreflexão do tempo pós-moderno (característica quanto a mim determinante das acções deste início de século) para a fraca simbiose humana resultante do individualismo exacerbado se tornar óbvia.

Quando cada qual se entretinha a chamar atrasado ao outro estava na verdade a permitir o caos social que hoje se manifesta na crise de saúde pública, que é também humana e será de miséria em breve. Portanto quem se admira? Os atentos certamente não!

Democratas para lá das palavras e interessados no bem-comum houve sempre poucos. E respeitadores do Outro (em maiúscula como já não se usa mas deve usar, pois significa todos os seres). E normalmente mal pagos (não apenas em sentido material). Aproveitadores e aproveitadoras sim, há bastantes!

Como já percebemos, hoje não se consegue atender e tratar nas melhores condições todos os doentes que chegam aos hospitais portugueses nem há já correntes de opinião para todos os gostos mas há sintomas, exmos. bastonários da área da saúde, ministros, portuguesas, de a questão vir muito de trás e é abrangente, não se mede em anos. Vem talvez de quando se mandava cada um para a escola e a exigência era nula mas divertida porque o tempo passava mais depressa. Teria exigido visão. E mede-se em décadas.

Que a ciência continue o seu esforço metódico de resposta e que a vacina, facultativa, chegue aos grupos de risco e não seja usada como novo cavalo de Tróia que a ninguém aproveitaria, é o que poderá salvar esta ainda comunidade do século XXI ao Deus-dará quase medieval – ó paradoxos da História! Agora com as Igrejas fechadas e reza-se nos hospitais. Porventura sem exemplos públicos à altura, conjugados com o medo e com comunicação política nem sempre clara. Mas admiramo-nos de quê? “Bem parece a guerra a quem está longe dela.”

Tiago Matias é licenciado em Estudos Europeus (Faculdade de Letras de Lisboa)

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