A Guerra das Laranjas assume centralidade na cidade de Elvas que, como se compreende ao longo da História, foi um centro decisivo para a defesa e mesmo para a independência de Portugal. Daí que na tradição seja tratada por “chave do reino”, uma vez que, ultrapassando as suas defesas, a marcha até Almada e daí para Lisboa seria rápida e dificilmente se deteria uma invasão militar. É também conhecida, pela mesma razão, como “rainha da fronteira”.
Se é certo que até à Idade Média os soldados eram na verdade camponeses em serviço temporário à Coroa, a partir do século XVII será uma profissão que marca decisivamente Elvas e a região pelo grande número que se concentrava na cidade e nos seus fortes, sendo considerando o da Graça o mais resistente do país por vários especialistas – e não foi por acaso que Elvas, o centro histórico, as muralhas abaluartadas, o forte de Santa Luzia, o da Graça, o aqueduto e os três fortins são Património da Humanidade classificado pela Unesco desde 2012 – fazendo da cidade militar um centro fortemente influenciado pela arquitectura e pela cultura militar. Desde 16 de junho de 1910 que o castelo de Elvas, o forte de Nossa Senhora da Graça, o aqueduto da Amoreira, o Padrão no arrabalde da cidade, a Sé, a Igreja de São Pedro, a Igreja dos Dominicos e a Igreja das Dominicas estão classificados como monumento nacional. São vários os episódios que atestam a atmosfera militar, mas observemos a Guerra das Laranjas logo no início do século XIX (1801).


No seguimento da campanha do Rossilhão para a qual o príncipe D. João regente de Portugal (futuro D. João VI, o único soberano que surpreendeu e que não foi aprisionado por Napoleão, deslocando a corte para o Brasil) envia militares em 1793 juntamente com Espanha que ocupam a região de Roussillon lutando contra o processo da revolução Francesa e a morte do Rei Luís XVI e de Maria Antonieta. Portugal permaneceria desde então formalmente em estado de guerra com França que entretanto reestabelecia a paz (Paz de Basileia) com a coroa espanhola. Portugal começa a sofrer pressão por via marítima sendo forçado a abandonar a tradicional aliança mantida com a Inglaterra. Não tendo Portugal renegado a aliança com a Inglaterra, entra em guerra com França e Espanha, que será especialmente difícil na zona de Elvas.
No Alentejo foram organizadas três divisões militares:

 1 – A divisão com o quartel-general em Monforte

2 – A divisão que tinha quartel-general em Portalegre comandada pelo Conde de São Lourenço

 3 – A divisão com quartel em Alter do Chão. Bem como uma divisão no Algarve sendo capitão-general D. Francisco Cunha Mendonça e Menezes.
Em Campo-Maior a população juntou-se aos militares na defesa da praça; em Juromenha que tinha por governador um Gama Lobo juntou-se um regimento de Castelo de Vide e milícias do Crato. Em  Castelo de Vide mantiveram-se oito companhias do regimento de Infantaria de Castelo de Vide. Em Marvão havia 150 homens na defesa da praça forte. Olivença tinha o batalhão de milícias de Vila Viçosa; Estremoz tinha um batalhão de um regimento de Ourique. E em Castelo de Vide, Serpa, Moura, Mourão e Arronches havia homens mas não havia artilharia, o que limitava fortemente as suas defesas muitas delas com pouca manutenção desde a Restauração da Independência (anos de 1640). A divisão espanhola dirige-se para Elvas aproximando-se no dia 20 de maio de 1801. Parte do regimento da Corte se havia dirigido para Abrantes e para Elvas e outra em menor número para Ouguela e Estremoz. O governador de Elvas mantém-se no interior das muralhas porém recusa render-se aos espanhóis. A praça de Elvas tinha 9.000 homens, artilharia, mantimentos e extraordinárias muralhas de grande resistência pelo que tinha capacidade de resistir ao cerco.

A divisão espanhola enviada para Arronches desbaratou as forças portuguesas. A 20 de maio em Olivença havia 200 milicianos e a população portuguesa na defesa. Perante 4.000 militares o governador de Olivença rende-se. O governador de Juromenha também se rendeu.
A guarnição de Campo Maior composta por habitantes e milícias de Portalegre recusam render-se, respondendo o seu tenente-coronel Matias Dias Azedo: “Tendo eu a honra de dirigir uma guarnição pronta a derramar o seu sangue pela glória do seu príncipe e pelos sagrados direitos da legítima defesa da sua pátria, não posso de modo algum abrir mão dos deveres da honra…”. Campo Maior, que já tinha resistido ao cerco de 1712, começa a ser bombardeada a 23 de maio respondendo com as 3 bocas de artilharia de que dispunha, que responderam. Resistem à invasão espanhola sem reforços e em junho foi assinada uma capitulação militar honrosa, saindo os seus membros com honras militares e com direito a levar os pertences – por feitos na defesa firme de Campo Maior e do reino, Dias Azedo é promovido a brigadeiro em julho de 1801. Marvão também resistiu ao avanço espanhol. O diplomata português Luís de Sousa foi enviado com poderes a Elvas em nome do senhor D. João VI onde chegou a 27 de maio e dali foi encontrar-se com o primeiro-ministro espanhol Manuel Godoy, nascido em Badajoz, que acompanhava pessoalmente a guerra em Badajoz, bem como se encontrou com Luciano Bonaparte.

A 8 de junho foram assinados o tratado de paz com Espanha, o Tratado de Badajoz, e outro com França. É este tratado de Badajoz que prevê a conquista para Espanha da praça e vassalos de Olivença. Espanha virá porém a ratificar o Acto do Congresso de Viena, que foi o encontro das nações europeias, de 1815, em 7 de maio de 1817 comprometendo-se a devolver a vila de Olivença a Portugal – o que nunca aconteceu abrindo-se desde então a célebre questão que chegou aos nossos dias. Tudo isto para resolver uma questão pré-invasões francesas e que se começou a revolver anos depois das invasões francesas e após a queda do império francês de Napoleão Bonaparte.

Diz-nos a tradição que a própria designação da guerra, das “laranjas”, teria sido pelas laranjas de Elvas que Godoy teria enviado à rainha de Espanha. Não pudemos constatar a veracidade ou falsidade da mesma afirmação, tendo o seu simbolismo. Será aliás depois desta guerra que o Exército será reorganizado, com a reorganização das Ordenanças em 1807 e dos uniformes em 1806 cuja barretina substitui o tricórnio (cf. Exército Português 1806 a 2003, Ordens do Exército, Lisboa).

Elvas, como aliás boa parte do Alentejo, tem uma história de resistência militar fronteiriça assinalável. Sendo que Elvas se destaca, ao que nos parece, por duas razões específicas: pela localização estratégica já abordada e pela capacidade de organização que forja o modus vivendi local. É uma cidade que além de bem localizada e dotada de meios consideráveis de resistência, nunca cedeu ao longo da sua História às diversas invasões estrangeiras permitindo assim que Portugal tenha conservado em épocas decisivas a independência e fronteiras estáveis.

Com votos de bom e corajoso ano de 2021,

Tiago Matias é licenciado em Estudos Europeus (Faculdade de Letras de Lisboa)

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