Penso que o efeito do escândalo está directamente relacionado com a novidade. Porque o ser humano perante o desconhecido reage de forma quase sempre violenta: ou se retrai, ou adere entusiasticamente, ou repele com prontidão. Mas a tudo o que é novo e, por exemplo, não lhe agrada, rejeitará da primeira vez, mas da próxima já não irá protestar de igual maneira, mais que não seja pelo facto de a realidade apresentada já lhe ser previamente conhecida.
Quando a primeira obra realizada sob a égide de Rondão Almeida recebeu o seu nome (já não me lembro qual foi, dada a minha tenra idade e a longevidade do mandato), a repulsa dos elvenses ao feito narcisista terá sido muito maior do que na enésima vez que tal sucedeu. Quer isto dizer que passaram a aceitar a auto-gratificação toponomástica do autarca? Não necessariamente. Mas como tudo o tempo cura, e pessoanamente se estranham e depois entranham as coisas, o que é novidade passa a ser familiar e nada do que seja considerado familiar pode escandalizar muitas vezes: o efeito da estreia desaparece e é substituído pelo conformismo.
Só por isso se explica que às vozes inconformadas da nomeação (pelo próprio) do Coliseu de Elvas como “José António Rondão Almeida” tenham sido menores aquelas que se levantaram contra o extraordinário episódio – digno da mais caricata prosa humorística sobre o poder local e que só não seria tão deprimente se não fosse verdade – da redenominação posterior do espaço com o título “Comendador Rondão Almeida”. Só por isso se explica que não tenha sido maior a mobilização para alterar o nome do Coliseu para “Joaquim Bastinhas”.
Bastinhas é incontornável no toureio português contemporâneo. Cresci a ouvir que não era bom e pensei mesmo que não gostava de o ver – talvez (certamente!) por snobismo – até que passei a olhar para além do fogo de vista, do espectáculo fácil, dos truques com o cavalo. E ultrapassado o preconceito, o pedantismo que achava que à verdadeira arte não chegava quem queria com esforço, mas quem podia com elegância, consegui ver a nu a grandeza do nosso embaixador elvense. Quem, com o mesmo alcance, levou nos últimos anos o nome da pátria raiana ao mundo? Quem cravava, com a mesma precisão, aqueles pares de bandarilhas? Quem desceu ao público para o elevar à condição de co-participante na lide? Sempre Bastinhas, o “Toureiro do Povo”.
Esse que se tornou também mártire pela festa brava, porque pela sua imolação Elvas agora pode exultar ao ter duas corridas no São Mateus, que tanto já faziam falta. Nós somos um povo aficionado e só não o somos mais porque a escassez de eventos taurinos na nossa cidade não o permite (tanto assim é que constantemente encontramos caras elvenses conhecidas em todas as praças de Portugal e Espanha).
Que a Bastinhas só se erga uma estátua porque a praça de toiros da sua cidade já carrega a homenagem a uma figura maior da festa brava, entende-se. Mas que saibamos, a única lenda que aí o podia preceder seria Belmonte, que em Elvas vestiu pela primeira vez traje de luces. Ora, como a homenagem a Belmonte já se encontra feita numa placa comemorativa colocada no interior do Coliseu (menor em tamanho que qualquer das placas inaugurativas de rotundas que proliferam na cidade), o edil das placas quis ascender à fachada e aí está até hoje.
Não acredito que alguém nos anteriores mandatos do período rondoniano ousasse alterar o nome da praça, mas estando Nuno Mocinha no segundo mandato de ruptura formal com o despelourado Rondão Almeida, porque subsiste ainda assim o temor atávico à reverenda figura?
Coliseu tem origem semântica em colossal, gigantesco, e por isso chamar a uma casa de espectáculos “Coliseu qualquer coisa” não só engrandece o próprio espaço físico como a “qualquer coisa” homenageada. Queremos nós verdadeiramente entrar em Elvas à vista do “Colossal Comendador” que, como tantos antes dele, cairá no esquecimento daqui a nada, ou à vista do “Colossal Bastinhas”, que para sempre estará inscrito nos anais da tauromaquia lusitana?
“Vanitas vanitatum et omnia vanitas”, vaidade das vaidades: tudo é vaidade (Ecl. 1, 2).
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