Os efeitos do mau tempo prolongado não param de surpreender. E chocar. As sucessivas tempestades que se têm abatido sobre Portugal continental têm causado elevados danos patrimoniais e pessoais. A contabilização dos prejuízos já alcança números com muitos dígitos. As vidas humanas que se perderam, são a causa indireta e a mais trágica. Numa visão de conjunto, sobressai o poder da natureza que parece estar a medir forças (desproporcionais) com a mão humana. Ou a demonstrar, a duras penas, que os erros de ordenamento se pagam caros. O que parece evidente, ganha consistência quando observado por uma lente profissional. Carlos Correia Dias, arquiteto paisagista, em entrevista ao Linhas de Elvas, faz uma análise à desastrosa passagem das tempestades. Não tem dúvidas de que o desenvolvimento humano tem ignorado os limites da natureza, que acaba por "cobrar" esse custo através de fenómenos extremos. Embora não seja possível evitá-los, o especialista defende que "a prevenção, o ordenamento do território e o bom senso" são fundamentais, sublinhando que "prevenir é sempre menos dispendioso do que remediar". Aponta a ocupação indevida de leitos de cheia, fruto de "décadas de complacência" e a fraca "literacia territorial", como as principais causas dos impactos das cheias, salientando que o país mantém o hábito de correr atrás do prejuízo, agindo apenas quando ocorrem tragédias. Defende mais literacia do território, da paisagem e do ambiente, maior formação de técnicos e decisores e a criação de equipas multidisciplinares. Critica o excesso de impermeabilização urbana, a má gestão das linhas de água e a insuficiente manutenção do arvoredo. Sem assumir posições ideológicas, Carlos Correia Dias reconhece a intensificação dos fenómenos extremos, alertando para problemas estruturais como a sobre-exploração dos aquíferos, a desertificação, a fraca preparação das cidades e a ausência de planeamento estratégico a longo prazo.