Como já fiz há algum tempo e noutro contexto, volto a evocar uma velha expressão – vinda sabe-se lá de onde e em que circunstâncias -, segundo a qual Vila Boim é “terra boa de gente ruim”. A esta “provocação” respondem os vilaboinenses que “se boa é a terra, melhor é a gente”.
À boleia do parágrafo anterior, aproveito para informar que a última expressão serve de título ao novo livro do historiador e colaborador do Linhas, Rui Jesuíno, com lançamento agendado para amanhã, sexta-feira 28, ao final da tarde na Praça da República de Vila Boim. Parabéns, amigo Rui, por mais este testemunho de paixão pela História do concelho e das suas gentes.
E é também sobre uma história de paixão e com Vila Boim por cenário que vos quero falar. É que há exactamente 15 anos, entre 19 e 21 de Julho de 2002, realizava-se naquela freguesia elvense a primeira (e única) edição do festival Moçarave.
Exemplo evidente de utopia tornada realidade, o evento teve na música o principal destaque, trazendo até estas paragens os Moonspell, Da Weasel e Blasted Mechanism, algo impensável para um evento que dava os primeiros passos, sem produção profissional e numa época em que o boom dos festivais de música ainda estava por acontecer. Mas o Moçarave foi muito mais que um festival de música, pois proporcionou ao longo de três dias um diversificado conjunto de actividades, onde couberam, por exemplo, ateliers de ilustração e desenho, concurso de danças de salão e torneio de futsal.
Na génese do festival vilaboinense esteve um grupo de meia dúzia de jovens idealistas, que decidiu ir em frente por paixão e convicção. Três Nunos (Ezequiel, Gama e Veiga), o Mário Carriço, o Miguel Judas e o Zé Rego – peço desculpa se porventura me esqueço de alguém – foram a alma mater do Moçarave. Hoje, década e meia depois, permanece a recordação de uma enorme aventura, temperada com o sabor a saudável loucura.
Para a posteridade fica um incontável número de episódios que, se passados para a escrita, dariam para um livro com muitas páginas. Não resisto à tentação de contar alguns deles, em jeito de homenagem ao festival e a quem o organizou.
O palco, zona nevrálgica em qualquer festival de música, constituiu enorme dor de cabeça para os promotores do Moçarave 2002. O episódio, no mínimo rocambolesco, envolveu o palco cedido pela Câmara de Vila Viçosa que, à última hora, obrigou a uma “ginástica” suplementar. Isto porque, para garantir a disponibilidade do cenário escolhido, a rapaziada da organização teve que montar em contra-relógio este e outro palco de menores dimensões numa freguesia do concelho de Estremoz.
Não menos complicada foi a vertente financeira. Mas também nesse particular os promotores do Moçarave deram exemplo de honradez, pagando até ao último cêntimo os compromissos assumidos.
A propósito de dinheiro, sei que o Nuno Ezequiel fez “piscinas” a caminho de Portalegre para receber o patrocínio da então Região de Turismo de S. Mamede. Um desiderato só conseguido depois de ter “ameaçado” inscrever-se para uma conferência de imprensa do presidente António Ceia da Silva, com o intuito de perguntar publicamente porque tardava tanto a ser desbloqueada aquela verba.
Deixo aqui público tributo a quem, em plena juventude e quase sem “rede”, pôs de pé um evento que ainda hoje é lembrado com grata saudade. E que constitui, afinal, uma de muitas provas cabais de que em Vila Boim, se boa é a terra, melhor é a gente!

Carregar mais artigos relacionados
Carregar mais artigos por Redacção
Carregar mais artigos em Opinião

Veja também

Calor alivia… mas pouco

Céu pouco nublado ou limpo. Pequena descida de temperatura no interior Norte e Centro. …