A vizinha Espanha vive por estes dias sob um clima de tensão e incerteza, motivado pela declaração unilateral de independência da Catalunha. Na altura em que redijo estas linhas há a expectativa de perceber como tudo irá terminar mas, ao que parece, estamos perante uma novela que ainda terá muitos capítulos.
Não vou discutir se historicamente a Catalunha tem ou não razão para reivindicar a sua autonomia face a Espanha. Considero, isso sim, que a posição de Carles Puigdemont e do seu executivo na Generalitat catalã peca por inoportuna e oportunista.
Vamos por partes.
A declaração unilateral de independência é inoportuna porque, no actual contexto geopolítico internacional, o exacerbar de nacionalismos pode funcionar como rastilho para detonar conflitos que nunca se sabe como irão acabar. Ainda por cima numa Europa em que estão bem presentes as profundas feridas da guerra nos Balcãs ou os conflitos étnicos em territórios da antiga União Soviética.
Também não podemos perder de vista que a Espanha viveu uma guerra civil há menos de um século. E que na raiz desse conflito estiveram, entre outras, questões de âmbito nacionalista.
Ao mesmo tempo, esta declaração independentista da Catalunha é um sinal de oportunismo do Sr. Puigdemont. Ao sentir que iria passar à História como um líder fraco e sofrível, decidiu tentar um “golpe de asa”. Todavia, com o actual estado de coisas, arrisco-me a admitir que o homem do “penteado à Franjinhas” acabará por merecer apenas uma nota de rodapé e nunca uma página ou capítulo no percurso da região catalã.
O presente episódio faz-nos lembrar que, ao contrário do que acontece no nosso Portugal, a Espanha não é um Estado–nação na verdadeira acepção da palavra mas antes um Estado no qual convergem várias “nações” com diferentes realidades sociais, económicas e políticas. Nas últimas décadas, após o falecimento do ditador Francisco Franco e instaurada a democracia, foi a figura tutelar do rei Juan Carlos quem funcionou como cimento para unir as peças deste puzzle territorial. Mas “atrás dos tempos vêm tempos”, a monarquia perdeu parte substancial do seu élan e, além do mais, Felipe não é Juan Carlos.
Estou convicto que, tal como sucedeu em tentativas anteriores, a independência unilateral da Catalunha ficará em “águas de bacalhau”, ultrapassada (e bem) pelas leis vigentes no país vizinho. A célere aplicação pelo governo central do artigo 155 da Constituição da República Espanhola mereceu, aliás, a importante aprovação tácita por parte de diversas forças políticas, da esquerda à direita do espectro partidário castelhano.
Por paradoxal que possa parecer, a tomada de posição do presidente da Generalitat teve o condão de congregar muitos partidos e coligações espanholas numa rara unanimidade. Assim, no limite, é caso para dizer que a intervenção de Carles Puigdemont acabou por unir a(s) Espanha(s). E até se percebeu que na Catalunha, ao contrário do que se poderia supor, há mais cidadãos a favor da união que da autodeterminação.
Independentemente do que venha a acontecer daqui para a frente na Catalunha, fica a certeza de que nada voltará a ser como antes. E que neste autêntico braço-de-ferro entre Madrid e Barcelona só poderá haver um vencedor. Ou seja, tocará viola quem mais (Catal)unhas tiver. Ou de contrário terá que… meter a viola no saco.
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