O abraço resulta de uma força conjunta em direções opostas, ainda que o seu poder não resida nela. Sempre foi a minha forma preferida de encontrar e de despedir, porque as almas ficam mais perto e os corações encostam-se um ao outro. As costelas ficam curvadas para proteger e o peito fica hirto em respeito. Por muito curto que seja, ele demora, porque reflete uma data de coisas que são vividas e que atingem um propósito ali. Num espaço seguro e amplamente bonito, onde todas as intenções de duas pessoas descansam, a intenção torna-se uma só, nunca sozinha.
Aprender a leveza de abraçar é fascinante e não o poder fazer deixa-nos a meio nas palavras, nas ideias e tira o ponto final das frases bonitas que queremos dizer. Não poder abraçar a quem queremos tanto, cala violentamente a voz que nunca se ouve, mas que grita em harmonia com o outro. Essa voz anda agora mais magra e frágil, deixada ao destino por um bicho que nos permite amar com os olhos, mas nunca com o corpo.
O toque reside em mim e eu resido nele porque bebemos um do outro. Gosto de estar perto, até de desconhecidos. Não tenho medo, nem repulsa. O abraço e gesto de cada um conta outras histórias também que só os mais audazes têm direito a conquistar.
As vezes que me falharam abraços durante estas semanas arrastadas não regressam mais. Muitos ficam na gaveta das coisas que o bicho tirou e às quais não vou conseguir voltar. Queria bater-lhe e dizer-lhe que é muito egoísta da parte dele, mas a responsabilidade por quem está à minha frente e espera pelo abraço grita mais forte.
É sempre o que me segura. A responsabilidade. Saber que separar a briga entre o bicho e o abraço na cabeça para dar asas à segurança é o que tenho de fazer. Dói e eu não estou habituada. Sempre tive uma grande tendência em abraçar mesmo quando não estava no lugar de o fazer. Mas desta vez é diferente. Porque quem está à minha frente precisa mais de estar segura agora, para depois então ser abraçada. Num não-abraço, eu abraço. E cuido. Por mim. Por todos.
Vamos saindo de casa a pouco e pouco. As ruas vão tendo gente, como as estradas vão tendo carros. Vemos os pais, vemos os filhos, vemos os netos. Há mais dias com sol e quando ele aparece saímos à rua para nos vingarmos. Mas nunca nos podemos esquecer que a vida continua a ser levada no seu avesso, numa espécie de universo paralelo em que abraçar é proibido e o toque é fatal. É importante lembrar que podemos andar por aí, mas enquanto não puder ter perto tudo o que é meu, ensaiamos só para um regresso em grande ao que é realmente viver: ter nos braços quem amamos.
Catarina Cambóias
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