Quem me conhece sabe que tenho saudades do tempo que não é meu. Mas, habitualmente, é uma saudade do amanhã — do que ainda não vivi nem sei se vou viver. Essa projeção no futuro, no desconhecido com alguma aparência de controlo, torna-se quase paradoxal quando penso no que vem a seguir.
Já dei por mim a desejar ter vivido no Alentejo de antigamente, o da minha avó — mais lento, mais inteiro, mais verdadeiro. E, mais uma vez, dei por mim com saudades de um tempo que nunca foi meu. De um tempo em que tudo durava, em que as pessoas pareciam mais ligadas, em que cantavam enquanto trabalhavam, em que colhiam o que as fazia sobreviver, em que o sol dourava as vinhas enquanto as mãos se enchiam de uvas, em que os animais eram chamados pelo nome e respondia-se ao som da terra, em que se partia o pão com vizinhos e se contavam histórias ao final do dia. E intencionalmente não me apresso a corrigir esse pensamento.
Também tenho saudades de um espaço onde nunca pertenci… Gostava de acordar, não por obrigação de um relógio irritante, mas porque o dia começava com a luz. De sentir o fresco da manhã a cortar devagar, de ouvir o campo antes de o ver, de reconhecer as pessoas pelos passos, pela forma como tossiam, pelo tom com que diziam “bom dia”.
Imagino um tempo em que o trabalho cansava o corpo, mas deixava a cabeça mais inteira. Em que se fazia muito com pouco, não por virtude, mas por necessidade e ainda assim havia um certo orgulho nisso… silencioso, de quem sabe que cumpriu.
Vejo mesas simples, demoradas. O pão partido à mão, o vinho servido sem pressa, as conversas que não precisavam de assunto porque bastava a companhia. Um tempo onde as pessoas não estavam sempre a partir, nem a desejar estar noutro lugar. Era uma forma de estar mais enraizada, onde a vida era vivida como compromisso.
Hoje vivemos a ilusão de que podemos tudo — ser tudo, ir a todo o lado, escolher constantemente. Mas esta liberdade, que no tempo em que não fui gente era apenas sonho utópico, trouxe consigo uma inquietação permanente.
Nunca é suficiente. Há sempre outra coisa, outra vida possível, outra versão de nós à espera. E enquanto se tem saudades desses “outros à espera”, o presente escapa entre os dedos, como água que tentamos segurar com a mão. Naquele Alentejo antigo, a vida era mais estreita. Mas talvez, dentro dessa estreiteza, fosse mais profunda. As pessoas eram do sítio onde estavam. Não apenas porque lá viviam, mas porque pertenciam. O tempo media-se na repetição: as estações, as colheitas, os gestos passados de uns para os outros. Havia dureza, cansaço, silêncio, falta de escolha. Não ignoro isso (não posso). Mas também havia uma inteireza que hoje nos escapa.
Uma forma de viver em que o dia tinha começo, meio e fim, em que a pressa não entrava em nós a toda a hora, em que o pensamento não estava sempre dividido entre o que se vive e o que se poderia estar a viver.
Talvez esteja enganada… porque efetivamente não conheci esse tempo. Mas há um lado de mim que insiste que, apesar de tudo, havia ali qualquer coisa certa e alinhada entre o corpo, o tempo e o espaço.
E é isso que me faz dizer, sem ironia: tenho saudades de um tempo que nunca foi meu. Não porque fosse mais fácil. Mas porque, talvez, fosse mais inteiro. Hoje, o tempo corre… E vende-se aos pedaços, e caro.