A Concelhia Distrital de Portalegre do Bloco de Esquerda manifestou publicamente a sua forte oposição ao projeto do Governo de transferir o Campo de Tiro da Força Aérea de Alcochete para o concelho de Alter do Chão. Em comunicado enviado às redações, o partido critica a “visão instrumental” do Executivo central sobre a região alentejana e alerta para os impactos ecológicos e económicos que uma infraestrutura militar desta escala provocará num território classificado e de elevada sensibilidade ambiental, onde habitam várias espécies de aves estepárias ameaçadas de extinção.
Publicamos na íntegra o comunicado emitido pelo Bloco de Esquerda do Distrito de Portalegre:
“O Governo decidiu resolver um problema da Área Metropolitana de Lisboa fabricando outro no Alentejo. Para libertar os terrenos de Alcochete e ali erguer o Aeroporto Luís de Camões, o ministro da Defesa anunciou a transferência do Campo de Tiro da Força Aérea para Alter do Chão. A operação tem a elegância de um decreto e a delicadeza de um bombardeamento: 7500 hectares de infraestrutura militar num concelho de três mil habitantes, sem data anunciada, sem valor revelado e sem os estudos que deviam preceder, e não suceder, a decisão política.
O problema não é apenas o procedimento. É o lugar. O território visado não é uma folha em branco disponível para uma unidade militar de grande escala, mas um ecossistema de elevada sensibilidade ecológica, integrado na Rede Natura 2000 e classificado como Área Importante para as Aves. Esta planície é um dos últimos refúgios das aves estepárias em Portugal, albergando espécies ameaçadas como a abetarda, o sisão, o alcaravão e a águia-caçadeira. A população de sisão sofreu um declínio catastrófico nos últimos anos e está em risco real de extinção no país. Pedir a estas aves que coabitem com detonações, ruído de aeronaves e movimentação de tropas é pedir-lhes que desapareçam com boas maneiras.
Há aqui um padrão que o Bloco recusa. Depois de já ter sido equacionada a hipótese de Mértola, abandonada pela presença do lince ibérico, o Governo revela uma visão puramente instrumental do Alentejo, tratando-o como depósito de infraestruturas indesejadas na metrópole. O ambiente não se protege por zonas de conveniência. Quando o lince incomoda, muda-se de concelho; quando a abetarda incomoda, finge-se que não está lá. A conservação da natureza não pode ser o parente pobre das decisões de defesa, sobretudo quando estão em causa espécies no limiar da extinção e as metas da Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030.
E não é só o Bloco a dizê-lo. Uma petição de agricultores contra a transferência já reunia perto de mil e quinhentas assinaturas, e as preocupações estendem-se ao impacto ambiental, à compatibilização com a Barragem do Pisão, à proteção de espécies da Diretiva Aves e à coexistência com a atividade equestre, pecuária e agrícola da região. Quem vive da terra percebe melhor do que o ministério o que significa entregar um quarto de um município à artilharia.
A posição do Bloco é simples. Antes de qualquer decisão irreversível, exigem-se os estudos de impacto ambiental, o parecer do ICNF e a verdade sobre os custos. Desmilitarizar Alcochete não pode significar militarizar um santuário de biodiversidade. Resolver um erro de localização criando outro não é planeamento. É geografia da indiferença.

