Exposição ensaio sobre a Alegria – Elisabete Fiel

Num tempo em que estamos permanentemente expostos a crises, sanitárias, políticas, sociais ou climáticas – vejam-se as crises na economia e habitação, a guerra, ou as mais recentes catástrofes naturais –, que em muito têm vindo a afetar a nossa saúde mental, é urgente pensar (e ensaiar) sobre a Alegria.

É essa a proposta – quase provocadora – que Elisabete Fiel nos traz com a sua exposição Ensaio Sobre a Alegria. Através de uma série obras, cuja base é a pintura, a artista convoca-nos a essa reflexão e convida-nos a reconhecer a dimensão da alegria nos objetos, nas coisas, nos acontecimentos, mas, sobretudo, no ser e no estar.

Vincada por uma linguagem à qual o seu trabalho artístico já nos tem vindo a habituar, assente na sua geografia emocional, na transitoriedade, e carregada de códigos e símbolos que nos revelam significados – seja nas cores escolhidas ou nos códigos de biblioteca e nas coordenadas que muitas vezes utiliza –, Elisabete propõe-nos uma visão a dois ritmos contrapondo urgência-contemplação, através de uma noção de tempo ora imediato ora expandido no espaço.

Através de um trabalho multidisciplinar permanente – que convoca a música, o digital, as emoções e diferentes sentidos – somos inicialmente recebidos, na galeria que antecede o espaço expositivo, por um conjunto de cinco obras dispostas em vitrines que nos remetem para diferentes representações ou manifestações de Alegria que identificam a personalidade e o caráter da artista, contrapostas às listas intermináveis de tarefas que caracterizam o ritmo acelerado a que vivemos. Ao entrar no espaço expositivo somos por isso confrontados com dois conjuntos de três telas magenta – cor do ano 2023 pela Pantone que “impulsiona a celebração, alegria e otimismo” –, invocando um deles a alegria enquanto sentimento, questionando-a e afirmando-a como urgente, ao passo que o outro, através do ritmo frenético da escrita, nos remete à passagem do tempo – figurada pela representação de uma torre de relógio – e à forma como o sentimento de alegria é e deve ser uma constante. Um terceiro momento da exposição é nos dado por sete telas coloridas que nos imergem e convidam à observação e contemplação das paisagens e da geografia (feliz) de Elisabete – que vão desde um jardim de Bruxelas, ao mar de Cascais e à barrística de Estremoz (representada pela figura da Bailadeira), através da natureza, de pontes, cidades, monumentos e ruínas – numa permanente construção de sentido só possível pela partilha conjunta.

E foi com esse sentido de partilha conjunta e de criação de um acontecimento feliz que Elisabete imaginou O Dia do Meu Não-Aniversário – um happening (acontecimento) de celebração do seu aniversário –, inspirada pela fantasia e pelo sonho de Lewis Carrol em Alice no País das Maravilhas e pela forma como o Chapeleiro tenta enganar o tempo (será essa a única forma de vivermos a alegria em pleno nos tempos que correm?). Por entre brindes, doces e bolos, a verdadeira cereja chegaria com a notícia da entrada de Elisabete Fiel na Coleção António Cachola, que viria atestar não só a qualidade do percurso e do trabalho artístico de Elisabete ao longo dos últimos 20 anos, como o facto de que acontecimentos felizes geram acontecimentos felizes.

Assumindo, assim, que a alegria é um acontecimento com manifestação exterior e que os acontecimentos felizes são efémeros, Elisabete Fiel propõe a sua materialização no espaço: Ensaio Sobre a Alegria pode ser vista até dia 18 de fevereiro, na Casa da Cultura de Elvas, e em formato digital, através do catálogo online disponível em breve.

Tiago Tito Candeias

Mediador Cultural, Criativo e Bolseiro de Investigação no DINÂMIA’CET (ISCTE-IUL)

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