A bela cidade monumental de Elvas com sua vasta experiência de coragem e resistência, nomeadamente na Guerra das Laranjas, verá nas Invasões Francesas (a chamada Guerra Peninsular) mais um tempo de dificuldades e violência que leva a população alentejana a organizar-se.

Qual era o ambiente que se vivia em Portugal em 1808? O seguinte:

Quando, porém, [Loison (1771-1816), general de Napoleão Bonaparte que ficou conhecido como o Maneta por ter perdido o braço esquerdo] pretendeu continuar para Amarante e penetrou nas montanhas, foi para assistir ao fim do que tinha sido o passeio militar francês em Portugal. Uma considerável força de paisanos, religiosos e quatro dúzias de fidalgos e oficiais (de milícias e linha), comandada pelo futuro marechal miguelista Gaspar Teixeira e por monsenhor Miranda de Guimarães, força que juntava os voluntários vindos de uma circunferência de setenta quilómetros (houve quem, com evidente exagero, calculasse o seu número entre 60 e 70 000), investiu contra os flancos e a retaguarda da coluna de Loison. Não numa ofensiva geral e simultânea, mas em pequenos grupos contra unidades ou destacamentos que se afastavam do troço principal; contra soldados isolados ou em dificuldades com o terreno; contra as secções que se deslocavam mais devagar, como a artilharia e o aparelho logístico: e sempre aproveitando posições de vantagem e ocasiões propícias.
Loison sofreu baixas significativas. Aqui, conta uma testemunha presencial, «seis homens de Canelas armados somente com paus se arrostaram denodados com as guardas da bagagem, tiraram lha quase toda, mergulharam-lhe duas peças (de artilharia que presumivelmente atiraram de uma encosta abaixo) e ficaram com bastante dinheiro e cordões de ouro»; ali, outros patriotas «mataram muitos soldados» no meio das vinhas entre os quais o ajudante de Loison, a quem «dirigiram» preferencialmente o tiro, pensando, por causa da farda, que se tratava do general em pessoa; mais adiante, um terceiro bando apoderou-se de pólvora, várias malas e um mapa das estradas de Portugal; e um quarto bando, de Guimarães, de «cinco malotes, um baú, um caixote e três sacolas», contendo papéis, livros e muitas «camisas, coletes e pantalonas», «ricos e caseados».
O «povo miúdo», combatendo o invasor, não se desinteressou das respectivas bagagens, que, com razão, considerava roubadas e que o compensavam um pouco das ex acções da ocupação e da sua ancestral miséria. Com frequência, o que se apanhava era igualmente distribuído pelos participantes da acção ou, se em definitivo inútil, como sucedia com as fardas de gala, levado com orgulho para a aldeia dos respectivos captores, para ser exibido na igreja local, a título de relíquia. À gente de «representação», porém, importava apenas a fama das suas proezas militares e, quando fazia presas importantes, mandava-as para o Porto, a fim de ajudar a financiar a reconstrução do exército nacional.
Impedido de prosseguir, Loison recuou para a Régua, constantemente embaraçado pelas guerrilhas.
“(cf. Vasco Pulido Valente, Ir prò Maneta, 2007 p. 66).

Entretanto, o chefe de polícia francês Lagarde, enviado para Portugal com o exército napoleónico, escrevia o seguinte erro crasso a propósito do que esperava para o futuro a 4 de julho de 1808 e dirigido ao juiz de fora de Elvas: “O movimento de revolta, que se terá manifestado entre a gentalha do Algarve, nem deve causar inquietação, nem é preciso mais do que fazer marchar contra estes amotinados alguns batalhões … acaba de ser expedida uma coluna do exército bastante numerosa, para ir castigar os sediciosos nos lugares em que eles se têm manifestado: outras colunas vão seguir esta, para varrerem rapidamente o país por toda a parte que for necessário… Seria diante de Portugal que se ofuscaria a estrela do Grande Napoleão e que se amorteceria o braço de um dos mais valentes e mais hábeis capitães?” (cf. Ir prò Maneta, em nota de rodapé, p. 60). Na verdade foi o que se sabe. Uma feroz e corajosa resistência viva dos portugueses contra o invasor francês.

A estratégia de Junot responde com racionalidade a esta análise da situação [a sublevação espanhola contra os franceses], que só considera factores puramente militares. Logo que recebeu a notícia dos acontecimentos de Espanha, mandou Loison para Almeida com 4000 homens, Avril para Cádiz com 2500 e Kellerman para Elvas com 2000, para tentar garantir as linhas de comunicação, ou seja, as grandes rotas de Norte e do Sul, embora desguarnecesse Portugal no processo.” (cf. Ir prò Maneta, p. 62 e 63).

E qual foi, afinal, o panorama e a reacção dos Alentejanos (as) a esta política francesa de ferro e fogo?

A campanha de Loison no Alentejo foi sem dúvida a mais brutal da primeira invasão. O exército marchava em território absolutamente hostil. Os habitantes dos casais, das aldeias e das vilas fugiam à sua aproximação , levando consigo tudo o que podiam e, sobretudo, víveres. Em breve, os franceses ficaram sem vinho, carne, pão e água. Os soldados deliravam de sede. Quando os batedores caçavam algum trabalhador ou camponês desgarrado e pediam para lhes indicar poços ou lagos, eram dirigidos para águas estagnadas ou deliberadamente envenenadas. Muitos homens morreram assim, porque se «precipitavam» a bebê-las, antes de os oficiais terem oportunidade de os impedir. Com o cansaço, as privações e as doenças, principiaram a surgir retardatários, que as guerrilhas logo eliminavam, às vezes a centenas de metros da coluna.

A dureza das condições que havia sido obrigado a suportar não inclinou o exército ocupante à moderação. A 28, perto de Montemor, e destroçou uma força mista de paisanos, milícia e regulares espanhóis. A 29, surgiram em frente de Évora 10 000 franceses, dispostos não simplesmente à guerra, mas a uma vingança exemplar. No interior da cidade os rebeldes sabiam também que não lhes seria concedido quartel e mesmo os puros «civis», instruídos no destino de Beja e Vila Viçosa, não alimentavam ilusões sobre a sua probabilidade de salvação. Isto provocou uma luta tenaz e desesperada. Apesar da enorme superioridade técnica e numérica de Loison, os defensores da cidade aguentaram duas ofensivas gerais e só abandonaram os baluartes à ponta da baioneta. O próprio avanço dos franceses no interior de Évora foi duramente ganho, rua a rua, casa a casa, contra o «fogo terrível» que paisanos e milícias faziam das janelas, telhados e torres das igrejas. Segundo fontes oficiais do exército invasor, só da parte dos vencidos o custo das operações militares – i.e., excluindo a «carnagem» que lhes sucedeu – chegou a 5000 mortos e 2000 feridos e prisioneiros. Outras estimativas mais modestas põem o número em de mortos nas linhas em 800 e na «chacina» posterior em 230. […]À noite, acompanhado de quarenta oficiais, Loison apresentou-se no Paço Episcopal. Ao que parece, queria jantar. Mas não jantou. Porque não havia de quê e as suas tropas tinham assassinado o cozinheiro.” (Ir prò Maneta, p. 73 a 75).

Os franceses haviam tomado os fortes de Lippe e de Santa Luzia de Elvas em 1807 e só em outubro de 1808 os abandonariam, tendo entretanto pilhado galinhas, munições, gado e todo o tipo de bens aos Elvenses (consultar O Alentejo na Guerra Peninsular de Teresa Fonseca e A prata elvense nas contribuições de 1807-1808 e 1834 de Nuno Grancho).

A população da histórica cidade de Elvas e seu concelho foi corajosa, resistente e aguerrida, como tem sido uma constante ao longo da História. E os portugueses resistiram às três tentativas francesas de tomar o país, conseguindo finalmente expulsá-los com apoio do exército britânico entre 1810 e 1811 nas linhas de Torres Vedras, na direccção de Lisboa. 

Tiago Matias, diplomado em Estudos Europeus pela Faculdade de Letras de Lisboa

Carregar mais artigos relacionados
Carregar mais artigos por Redacção
Carregar mais artigos em Destaque Principal

Veja também

Elvas: Presépios de playmobil para ver na Casa da Cultura

A Casa da Cultura, em Elvas, vai acolher, a partir de 8 de Dezembro, a exposição “Presépio…