Quem vive afastado da realidade alentejana há já uns tempos não está preparado para as tardes insuportáveis de Julho, nem para o choque térmico entre o ar condicionado do carro urbano e o calor abrasador que se sente na rua. É demais, é inexplicável, são mais de dez graus de diferença entre um e outro ambientes. Pois foi com esse ar chocado que no sábado passado estacionámos no Rossio de Estremoz, mal conseguindo andar direitos – ansiando loucamente por um refresco ou uma cerveja mas não sabendo onde a encontrar –, que demos de caras com os nossos amigos Forcados Amadores Académicos de Elvas, em igual demanda por um aperitivo, mas naturalmente sem álcool. Porque o forcado, como atleta, é um cultor da saúde física em vésperas de corrida. Após as pegas, a abstinência tende a desaparecer.
Quando nos instalámos na esplanada desse quartel-general de campanha, o cabo Luís Machado já dava as instruções da praxe, tanto técnicas como estéticas. Não esqueçamos que a corrida de toiros é um espectáculo artístico em que a coragem e mestria andam de mãos dadas com a beleza. Por isso forcado não é só quem pega toiros, é quem os pega de forma elegante, citando com graça, fardado de jaqueta com rosas em botão, cinta encarnada a cingir-lhe os rins, calção e meia branca, sapatos de franja, camisa bem engomada e gravata de nó fino. E entre descrições da dor suportada pelos valentes Académicos quando fizeram os testes da COVID-19, dando-nos a sensação de que um cotonete enfiado no nariz metia mais medo do que um toiro embolado, e piadas ligeiras para fazer esquecer o nervosismo do aproximar da hora derradeira, lá se passou esse fim de tarde bem animado, com imperiais para uns, refrigerantes para outros e cigarros em cadeia para quase todos.
De uma coisa sinto pena ao ver a forcadagem tão ansiosa: de não poderem jantar em condições. Haverá maior prazer do que o jantar pré-corrida (e então pré-COVID, como eram esses jantares!), em que o espírito se vai imbuindo de afición e o corpo de álcool, numa simbiose de embriaguez mística e corporal? Que maravilha são esses ágapes, e que maravilha foi o nosso de sábado, inebriados com os melhores vinhos estremocenses e com vista privilegiada para a torre de menagem desse castelo que deu guarida pela última vez à nossa Rainha Santa, a Senhora Dona Isabel de Aragão. Que saudades tinha desse convívio, dos prognósticos, dos pareceres, das opiniões infundadas que se atiram para o ar, comentando o peso dos toiros, a forma física dos cavaleiros, o historial dos grupos de forcados, os feitos do empresário, as próximas corridas anunciadas, tudo dito sem complexos ou papas-na-língua por quem sabe e por quem não sabe mas finge saber, porque a tauromaquia não é um espectáculo de elites ou de nichos bem informados. Pelo contrário, é de tal forma uma realização dos princípio mais elementares da natureza – “El olvido de la muerte” – que pode ser apreciada por todos. Já poder escrever com sentido crítico uma crónica taurina não é para todos, e por isso nunca me aventurei nesse género literário nem vou agora fazê-lo. Quem quiser saber o que se passou nesta primeira corrida mundial pós-confinamento tem à sua disposição muitos textos bem escritos por especialistas na matéria. Eu fico-me pelo relato amador do ambiente.
Às dez da noite o calor teimava em não desaparecer (e imaginem com máscaras o bafo que se sentia), mas estoicamente lá entrámos na castiça praça de Estremoz, muito mais composta do que pensávamos. Que estranhas cortesias, cada cavaleiro entrava sozinho em praça, e o mesmo se diga dos forcados, primeiro Arronches e só depois Elvas. Esta liturgia solitária da apresentação das figuras da Festa Brava ao director de corrida e ao público foi a primeira de uma série de modificações obrigatórias para a realização da corrida “in tempore universalis contagii”, para puxar dos galões latinos. Outra foi a desertificação das trincheiras, caso em que se pode dizer que há males que vêm por bem, pois não raras vezes já nos tinha parecido ver, em praças pequenas e com cartéis modestos, mais gente encostado à arena do que nas próprias bancadas. O que nos causou muita impressão, não o vou negar, e mais do que ver o mar de aficionados que enchiam (parcialmente) a praça todos com máscara, foi ver também “mascarados” os artistas que actuavam. Diga-se o que se disser, uma máscara cirúrgica não combina com a dignidade da casaca de ouro do toureiro, nem com a jaqueta do forcado, nem com o colete do campino.
Mas porque os amantes dos toiros são responsáveis, e porque amam tanto a Festa Brava são os primeiros a querer o seu regresso o mais rapidamente possível, verdade seja dita, não se viu um único deslize no cumprimento das normas sanitárias impostas pelas autoridades públicas de saúde e agravadas pela própria organização do espectáculo. O que mostra que os melhores cumpridores são mesmo os “santos da casa”, que, se não fazem milagres, pelo menos não são fonte de contágio, como os inconscientes que andaram em comemorações e manifestações em plena quarentena por Lisboa sem distâncias de segurança.
A Festa está viva e o seu recomeço foi mais pujante que nunca. As saudades da praça, do galope do toiro vindo dos curros, dos ferros compridos e principalmente dos curtos, dos esquivos ágeis dos cavalos, do agitar do capote dos peões de brega, do saltar do forcado para a arena, do bater as palmas e citar de largo, da pega feita com valentia, mas louca e inconsciente… Que saudades tínhamos de tudo isso! E que bom foi voltar a uma corrida à portuguesa, em boa companhia familiar, e com o melhor desfecho da noite: ver o meu irmão Rodrigo, pelo Grupo de Arronches, receber o prémio da melhor pega. É uma combinação inusual, mas não inédita, ver um forcado “competir” noutro grupo contra o grupo da sua terra, mas aqui vale-nos a camaradagem, o desportivismo e os invitáveis laços familiares que tanto um como outro grupos têm entre si, pois apesar de poderem estar em lados opostos da trincheira (e aqui nem isso, pois só um grupo podia estar em praça), são ambos filhos da mesma tradição taurina e é da mesma cor verde o barrete que usam na cabeça.
Que esta seja a nova primeira de muitas corridas, num regresso da tauromaquia que já não mais terá ocaso até ao fim dos tempos, altura em que se passará a tourear no Céu. Até lá, lida-se a céu aberto, em praças sem tecto, para que Nosso Senhor desde o alto possa também ir aos toiros.

Tiago Picão Abreu

Advogado

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