Dez artistas que participam no 1º Simpósio Internacional de Escultura, no âmbito das comemorações do Ano Europeu do Património Cultural 2018, o qual arrancou na semana passada e termina no próximo dia 9 de Junho, em Elvas, queixam-se de terem sido burlados pela promotora do evento.
Os escultores explicam que os alegados contratos não estão a ser cumpridos, nomeadamente o pagamento de milhares de euros referentes ao trabalho dos artistas, questionando ainda se o mesmo está a acontecer com as despesas de alimentação, alojamento e outras quantias necessárias à execução e logística das obras artísticas.
Ryszard Litwinuk
O artista Ryszard Litwinuk recebeu um convite para esculpir uma obra sua em Elvas que, mais tarde, seria exposta no Museu dos Coches, em Lisboa. Ao convite ter-se-á seguido, segundo refere, um alegado contrato que previa o pagamento de cerca de 1300 euros. Tudo isto organizado, como diz, por Maria Cid Peixeiro, que sublinha “nunca respondeu a um único e-mail”.
O convite terá sido aceite e pouco tempo depois Ryzard embarcou no avião para Lisboa, localidade onde pediu boleia a um amigo que o trouxe, dia 31 de Maio, para Vila Viçosa, o local combinado.
Em Vila Viçosa começaram as complicações, primeiro a alteração do local de alojamento, que acabou por ser “no meio do nada”, confessa o artista, acrescentando depois que foi uma “enorme dificuldade descobrir a localização. Quando descobrimos deparámo-nos com um portão fechado, ligámos para o proprietário do estabelecimento que, por sua vez, nos facultou um código de acesso ao interior (…) porém, mais tarde, chegou o proprietário com uma mulher, que ninguém sabia quem era, que se apresentou como sendo a Maria do Carmo Cid Peixeiro”.
O artista polaco refere ainda que “é muito complicado dizer o que se passou, se foram dificuldades técnicas, se má organização ou um comportamento errado da pessoa que organizou tudo isto”. Pessoa essa que “abandonou o local [onde decorre o simpósio] sem que seja possível obter informações ou falar com ela”.
Javier Casado
Em declarações ao nosso jornal, Javier Casado, que se encontra a trabalhar na peça encomendada para o artista convidado Juan Zamora, explica que “desde o primeiro dia, quando chegámos, vimos que não havia nada preparado e que as condições de trabalho não eram as adequadas”.
Acrescenta também que os artistas estão “a trabalhar num local ao ar livre sem protecção para o sol, pode haver danos físicos pois não temos meios para transportar pesos, como as pedras de mármore que, em certos casos, tivemos de transportar, à mão e sem seguro, com a ajuda de várias pessoas. Encontramo-nos numa situação em que dia após dia nos é prometido algo para o dia seguinte, mas tudo se vai atrasando. Já estamos há uma semana nestas condições e, no final, tudo parece ser uma grande mentira, com muitas pessoas envolvidas e no final não vamos receber o que nos devem”.
Javier Casado diz desconhecer “se o alojamento vai ser cobrado aos artistas, perguntamos, mas ninguém responde. Nunca nos deram informações claras”.
Questionado se já havia vivido semelhante situação anteriormente, o assistente de Juan Zamora confessa “nunca ter passado por algo assim”, explicando em seguida que “num simpósio quando se chega está tudo em ordem, o material está no local, há boas infra-estruturas de trabalho e aqui não há absolutamente nada nem informação de nenhum tipo”.
Com a responsável, de acordo com a mesma fonte, tem havido “uma relação muito difícil porque desde o primeiro momento nunca nos deu informações de forma clara, houve dias em que não sabíamos se tínhamos dinheiro para comer, se poderíamos permanecer no alojamento. Penso que só a Câmara Municipal está a fazer o possível para que isso aconteça. Houve ameaças da promotora do simpósio, gestos e ela própria tem tentado causar conflitos dentro do grupo, pensamos nós para que tudo isto se cancelasse e para que ela tivesse uma razão para não nos pagar”.
Javier Casado promete “continuar a trabalhar”, embora não sabendo se as duas exposições, uma em Elvas e outra em Lisboa, “vão mesmo acontecer. Nós vamos terminar as peças porque é a única coisa que podemos fazer”.
O “Linhas” contactou Maria Cid Peixeiro, promotora do simpósio, que refuta as acusações dos artistas e garante que “eles têm tido tudo o querem”.
Ao nosso semanário, a promotora do evento garante que “não tem recebido qualquer contacto dos artistas” e que as suas responsabilidades se prendem com o alojamento, o pagamento aos artistas e disponibilizar a matéria-prima para as esculturas.
“Tenho dado tudo, o pagamento é no último dia [9 de Junho]”, salienta, confessando que “as discussões têm surgido porque eles queriam receber a meio, no entanto, sou capaz de lá estar um dia inteiro e eles não aparecem para trabalhar. Os problemas têm sido tantos que, apesar de ter ponderado pagar a meio, só o faço no fim, é o que está contratado, ou melhor, no regulamento está previsto o pagamento de 1300 euros”.
Relativamente ao alojamento, Maria Cid Peixeiro sublinha que “está a ser completamente cumprido” e que o primeiro local previsto para acomodar os artistas internacionais “foi alterado porque o proprietário estava doente, ficando eles com um alojamento superior que inclui pequeno-almoço, jantar e dormida”.
Quanto à logística para a realização do simpósio, a promotora esclarece que “as peças foram colocadas por uma empilhadora contratada”.
A responsável coloca em “dúvida” a realização da exposição prevista para o Museu dos Coches, em Lisboa. “Não estou disposta a trabalhar três meses, pagar e ser mal tratada, contudo, isso são actividades [as exposições em Elvas e Lisboa] suplementares”, conclui.
Maria Cid Peixeiro, que já teve um atelier de cerâmica em Lisboa, foi funcionária no Exército ao longo de duas décadas e leccionou na Casa Pia.
O evento, que decorre no Rossio de São Francisco junto ao Aqueduto da Amoreira, arrancou a 31 de Maio e está previsto finalizar no dia 9 de Junho. Nesta iniciativa estão presentes os escultores Juan Zamora (Espanha), Manuel Morales (Espanha), Iván Gómes (Espanha), Moreno&Greu (Espanha), Guille Ros (Espanha), Carlos de Gredos (Espanha), Marco Ranieri (Itália), Takashi Ikezawa (Japão), Ryszard Litwiniuk (Polónia) e Bettina Geisselmann (Alemanha).
A PSP esteve no local.
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