Era fim de tarde porque o sol já se tinha escondido no prédio das janelas azuis e o céu alegrava-se em tons de rosa pastel. Empurrei a janela que dá para a varanda, que por sua vez dá para o mar. Respirei como se fosse em breve voltar para baixo de água. Puxei o mar ao meu nariz e impedi que saísse pelo que me pareceram longos segundos. Senti-lhe o cheiro, vislumbrei-lhe os bichos presos às rochas. Senti o musgo nos pés descalços e até me encolhi quando uma alga me tocou nas costelas. Abri os braços, como se flutuasse. Cheirei-o outra vez, como o se não deixasse para mais ninguém. E a dança começou, comigo descalça na varanda, ao som das ondas que embalavam a partida do sol.
Alonguei o pescoço e respirei com a barriga para fora. Puxava a mão em direção ao teto branco e o olhar segui-a, instintivamente, como que a inspeccionar o meu empenho no baile e a concordar quando os dedos livres se metiam em pose.
Moro no quinto andar e tenho sol todo o dia. Estrelas e lua também. Cá dentro, pouca coisa. Vinho tinto certamente e um livro que me faz companhia. Sou muito livre dentro da minha casa, mas é cá fora que o corpo adquire um compasso dele e eu deixo-o ir. Às vezes, até parece que fico eu à porta da varanda para me ver dançar com as ondas. E que do alto da minha varanda com cheiro a mar sou só eu e um maestro desconcertado louco e brilhante a puxar-me os nervos e tendões.
Foi quando a vi. Em linha reta com o nível dos meus olhos e uns 30 metros acima do nível da água do mar. Tinha uma saia curta da cor que o sol deixava no céu enquanto se punha e a pele da cor do café mais cremoso. Imitava-me a pose, em bicos de pés, e o cabelo agarrado num elástico amarelo, lá para o 7º andar do prédio das janelas azuis.
Dançou comigo o resto, até o maestro da minha cabeça fazer parar a orquestra. Respirou comigo. Olhou o sol também, curiosa. Acenei-lhe. Acenou-me. Fiz-lhe um rodopio com o indicador e um seis pateta com as mãos. Percebeu. Sorriu como que a dizer que sim. Fugiu para dentro, para contar à mãe.
Do alto das nossas varandas, o sonho pode-nos embalar a todos se o escutarmos no silêncio com atenção. Talvez na urge do dia que acaba, seja altura para perceber que na dança não estamos sozinhos: há sempre quem nos veja, quem nos aplauda, quem nos guie. Quem dance. E que essa dança, feita de cheiros a mar e de pés frios nos azulejos, só pára quando o maestro na nossa cabeça achar que a música pode acabar com a nota certa ao instante de um rodopio digno de bailarina profissional.
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