No início do Ano Novo de 2026, por ocasião da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, o Arcebispo de Évora dirige uma mensagem a toda a Diocese e a todas as pessoas de boa vontade. Enraizada no mistério do Natal e na celebração do Dia Mundial da Paz, esta reflexão convida à renovação da fé, ao compromisso com a dignidade humana e à construção de uma paz verdadeira, desarmada e desarmante, dom de Deus e tarefa de todos.

“Estimados Padres, Diáconos, Consagrados e Consagradas, Seminaristas, Famílias e Jovens. Caríssimos Diocesanos e Diocesanas, Pessoas de Boa Vontade, Boas Festas!

1- Celebramos neste primeiro dia do mês de Janeiro de 2026 a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a Oitava do Natal.

Na Antífona da Entrada da Missa desta Solenidade, canta a Liturgia da Igreja: “Nós vos saudamos, ó Mãe Santa: Vós destes à luz o Rei que governa o céu e a terra pelos séculos sem fim” (Sedúlio). De facto, a fé da Igreja designa, desde os seus primórdios, Maria como Mãe de Deus. Em 431, o Concílio Ecuménico de Éfeso, havia de confirmar em Jesus Cristo, a união das Suas duas naturezas, humana e divina, numa só pessoa, sendo assim Maria é “Theotokos”, ou seja, Mãe da única pessoa que é Jesus Cristo, Homem e Deus, por isso Mãe de Deus. Eis, o núcleo desta solenidade mariológica e cristocêntrica.

2- A Oitava do Natal que encerramos com esta Solenidade, fala-nos da humanização de Deus, “o verbo fez-se Homem ” (Jo 1, 14); na divinização do Homem, “e habitou entre nós” (Jo 1, 14); e da renovação da ordem criada, “Eu renovo todas as coisas” (Apoc 21, 5 ).

O Natal é, pois, um veemente apelo do Senhor à nossa entrega: perante um menino, o Filho de Deus, que estende os Seus braços para nós, só é possível a resposta de uma entrega incondicional.

Verifica-se que o mal, gerador de tanto sofrimento humano que encontramos espalhado sobre a face da terra, não se deve à distração, desinteresse, improvidência, ou falta de generosidade de Deus, mas à nossa mesquinhez, que tantas vezes na vida, imita o gesto desumano dos habitantes de Belém: “não havia lugar para Jesus, Maria e José na hospedaria” (Lc 2, 7). A negação de todo e qualquer Ser Humano é a recusa de Jesus, o Cristo.

3- A Igreja, desde o Papa S. Paulo VI (1963-1978) propõe para o primeiro dia do Ano, o importante tema da Paz. O Santo Padre Leão XIV propõe como tema para este ano 2026, “A Paz esteja com todos vós – Rumo a uma Paz desarmada e desarmante”.

Trata-se do 59º Dia Mundial da Paz.

As mensagens pontifícias para este dia constituem um importante contributo para a construção da paz entre os homens. É a Igreja no seu melhor, o seu contributo natalício para a edificação da cidade dos Homens, “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos Homens”.

É impressionante, como num contexto em que o planeta atinge expoentes científicos a todos os níveis, continue a debater-se com uma cruel incapacidade de construir a paz e evitar de vez, a guerra. Efectivamente, como têm lembrado os diversos Pontífices, desde a primeira Mensagem para o Dia Mundial da Paz, o negócio bélico não ajuda à edificação da paz. Mesmo que argumentemos com a necessidade de investirmos todos mais para defender a paz, permanecerá sempre a pergunta incontornável e pragmática: mas afinal para que servem as armas? Só para dissuadir? E como se desenvolve o comércio bélico sem guerras? Será que o primeiro objectivo das armas saber-se que existem e serem periodicamente patenteadas e mostradas em épicos desfiles militares e exposições mediáticas?

Sei que o tema é complexo e controverso, porém como Cristão e Pastor da Igreja, uno-me a Leão XIV, porque sei que a Paz é Dom de Deus, nasce no coração e que a confiança no desarmamento é “desarmante”, pois a cultura da Paz promove-se e educa-se sobretudo através de gestos de Paz.

Enfim, num tempo em que todos se desafiam à urgência de investirmos no armamento, imaginando que essa corrida não propõe a meta da guerra, corajosa e profeticamente, Leão XIV propõe uma paz desarmada e desarmante, a paz do diálogo, da diplomacia, da sabedoria e da aprendizagem com a História.

Obrigado, Santo Padre, pela coragem de remar pela paz desarmada e desarmante, ainda que num contexto internacional de “contra corrente”. Como a Bento XV, face à Primeira Guerra Mundial 1914-1918, “Straga inutile”, também no futuro a História lhe dará razão, face a esta guerra aos pedaços, como lhe chamou o saudoso Papa Francisco.

Queira Deus que os “grandes deste mundo”, aprendam com a História, que a guerra é sempre uma derrota.

A todos e todas, reitero votos de próspero, abençoado e fecundo Ano Novo de 2026. Recordo na minha oração, muito especialmente, as crianças, os jovens, as famílias, os idosos, os doentes e sós.

Bom Ano: com Saúde, Paz e Bem!

+ Francisco,

Arcebispo de Évora”

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