Os dias têm acordado cinzentos, as ruas estão silenciosas, e as noites chegam introspectivas.
Os “achismos”, os “facilitismos” e os “desprendismos” têm ocupado as agendas. Liga-se a televisão ou a rádio e só se fala da greve: de quem não teve dinheiro para pagar um táxi e chegar ao trabalho, de quem não teve professor para ensinar o filho a ler, de quem não recebeu notícias da mãe no hospital.
Trago uma notícia igualmente impactante: o coração parou antes de tudo o resto parar. Não se fala, nas televisões, nas rádios, nem nos cafés, de outra greve — menos visível, mas igualmente grave. Uma greve que ameaça a economia da alma, a sobrevivência das relações e a evolução da sociedade. Refiro-me a uma greve grave – a do coração.
No café, o entra e sai perdeu o sorriso obrigatório de orelha a orelha; o “bom dia” ficou preso na garganta; no banco do jardim, os vizinhos já não se olham; os namorados esqueceram de se amar; as crianças deixaram de se abraçar nos recreios…
Nos transportes, ninguém cede lugar, mas todos reclamam quando alguém invoca “prioridade de idade”; nas reuniões de trabalho, cada um fala apenas para ter razão; no trânsito, as buzinas tornaram-se parte aceite pelo código da estrada, e ninguém pergunta “como estás?” com vontade e disponibilidade de ouvir a verdadeira resposta. Tudo o que antes tinha tempo para acontecer perdeu-se na pressa, deixando um vazio que se nota. O mundo continua a funcionar: carros circulam, lojas abrem, fábricas produzem — mas o que há de mais vital parou de bater.
As conversas superficiais substituem diálogos verdadeiros; opiniões fechadas e julgamentos rápidos ocupam o espaço onde antes havia escuta; o “desculpa”, que costumava ser ato de coragem, agora parece raro. E a ironia é cruel: todos reclamam da indiferença do outro, sem perceber que cada um de nós está de greve, em algum momento.
Vivemos numa sociedade que se orgulha da velocidade, da produtividade, da eficácia. Mas ninguém nos ensina a medir o tempo com a lentidão de um abraço, com a atenção de uma palavra amiga, com a paciência de escutar sem interromper. E, no fim, até as conquistas mais brilhantes parecem vazias se não houver coração para partilhá-las e aplaudi-las.
Esta greve não tem sindicato, não tem manifestação, não se negoceia com reuniões de decisores. Talvez o coração precise de convocação, de um apelo coletivo, de espaço, de liberdade e de razões para voltar a bater com coragem, com bondade, com amor.
Porque, sem coração, até as cidades mais movimentadas, até as aldeias mais vivas, ficam desertas de sentido.
E quando o coração se cala, nada mais importa: nem a pressa, nem a notícia, nem
qualquer outra greve… grave.

