Mais de 30 pessoas de um movimento cívico concentraram-se hoje em Alter do Chão, em protesto contra a mudança do Campo de Tiro da Força Aérea Portuguesa de Alcochete para aquela região.
O movimento é principalmente constituído por agricultores, proprietários e trabalhadores agrícolas dos concelhos do Crato, Alter do Chão, Monforte e Fronteira, zonas que poderão ser afetadas, segundo um mapa sobre o projeto de que têm conhecimento.
Em 11 de março, o ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, anunciou a escolha de Alter do Chão para acolher o Campo de Tiro da Força Aérea Portuguesa (FAP), que terá de sair de Alcochete devido à construção do novo aeroporto Luís de Camões.
O também conhecido como Campo de Tiro de Alcochete (pela proximidade deste núcleo urbano) fica maioritariamente localizado na freguesia de Samora Correia, no concelho de Benavente (distrito de Santarém), tendo ainda uma pequena parte na freguesia de Canha, já no município do Montijo (distrito de Setúbal).
Em março, não foi detalhado o local exato do campo de tiro no concelho de Alter do Chão e a eventualidade de poder abranger concelhos vizinhos, mas, segundo o ministro da Defesa, a valência terá uma dimensão de cerca de 7.500 hectares.
Em declarações hoje à agência Lusa, um dos porta-vozes do movimento, João Maria Caldeira, explicou que o encontro serviu para “manifestar o seu protesto” e alertar que o campo de tiro “vai lesar Alter do Chão”, podendo a “médio prazo” notar-se “uma grande precariedade” naquela região.
João Maria Caldeira, que é também proprietário e agricultor, revelou que este movimento vai avançar com a criação de uma associação para “representar todos” os interessados, uma vez que a “união faz a força” e a criação dessa associação permitirá “representar os lesados até às mais altas instâncias”.
Além de uma reunião que já solicitaram à Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo, João Maria Caldeira alerta que, caso o projeto avance, há um universo pecuário e de empregos que vai ser eliminado.
“Já fizemos um levantamento, ao contrário das entidades que não fizeram levantamentos de nada, e os números que temos são bastante grandes. Serão 50 a 80 explorações agrícolas afetadas, cerca de 200 pessoas diretamente ligadas às explorações e seis mil bovinos e outros milhares de ovinos afetados”, disse.
“Esta luta vai até ao fim, até onde for preciso, porque temos de defender o que é nosso, o concelho e as gentes de Alter”, acrescentou.
Em declarações aos jornalistas na sequência do protesto, o presidente da Câmara de Alter do Chão, Francisco Miranda (eleito pela coligação PSD/CDS-PP), recordou que se reuniu há mais de um ano com responsáveis do Ministério da Defesa, quando a tutela começou a ponderar instalar o campo de tiro naquele concelho.
“Foi a Força Aérea fazendo estudos que levaram àquele anúncio que o senhor ministro fez em março e que apontava Alter do Chão como o local onde se iria instalar essa infraestrutura”, recordou.
Nos primeiros encontros efetuados, segundo o autarca, assinou um “memorando de sigilo” relativamente aos estudos a executar pela Força Aérea.
Questionado sobre se o campo de tiro vai ou não ser construído naquele concelho, remete a resposta para o ministro da Defesa, Nuno Melo.
“A obra é do Ministério da Defesa e da FAP, naturalmente que o município depois de lhe serem entregues todos os estudos que a FAP terá de fazer, esses estudos naturalmente virão para o município de Alter do Chão, terão, com certeza, período de inquérito público e a câmara depois se pronunciará sobre eles”, disse.
“Eu nunca assinei nenhum memorando de sigilo e concordando que o campo de tiro para aqui viesse”, acrescentou.
O autarca diz compreender a revolta dos agricultores e proprietários, mas alerta que o movimento cívico “não representa de todo” a população do concelho.
Daquilo que conhece do projeto, diz que o campo de tiro “poderá trazer outras valências” para o concelho, como mais população, recordando que podem residir no concelho “200 elementos [militares] acompanhados dos familiares”, traduzindo-se “num bairro novo em Alter do Chão.
Entretanto, no dia 08 de junho, o presidente da Câmara de Monforte, Miguel Rasquinho, também se manifestou preocupado com a possibilidade de o futuro Campo de Tiro da FAP ocupar “uma faixa significativa” daquele concelho, no distrito de Portalegre.
Além de antever perda de empregos e terrenos agrícolas, o autarca alertou que o local onde poderá ser instalado o projeto contempla uma faixa atravessada por um gasoduto, tendo já dado conhecimento disso ao ministro da Defesa.
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