Quando deram as 12 badaladas para a entrada em 2025, no recato do lar, com a família reduzida a três elementos, de flute na mão, depois de uma corrida às pressas à garrafeira, para encontrar um espumante para ritualizar o momento, o primeiro desejo para 2025 não saiu a tempo da entrada no Novo Ano. O cérebro optou por dar prioridade à área vocal, em concreto à ponta da língua, para expelir a bebida celebrativa com um sabor indiscritível, entre o azedo e uma adulteração alcoólica com potência para acender lareiras.
Enquanto corria para a casa de banho para me livrar do espumante, com os lábios cerrados e as bochechas infladas, cruzo-me com a minha cadela, que vinha desabrida e em pânico na minha direção. Na rua estrugiam os foguetes de Ano Novo. A cadela, a tremer como varas verdes, lançou-se para cima de mim, levando-me a tragar a bebida horrível, que foi queimando as células do tubo digestivo que encontrou à passagem. Entre o medo de puxar fogo à casa, com a sensação de me ter convertido num lança chamas, o receio de envenenamento e tentativas vãs de acalmar a cadela, que oscilava entre saltar-me para o colo e enfiar-se em espaços minúsculos, senti um desalento apoderar-se de mim.
Vinha de uma tarde densa. De serviço aqui no site do Linhas de Elvas, tinha passado pela dureza de ter que dar uma notícia triste, que me impactou e me fez pensar no negrume do luto que se abateu sobre uma família. Quebrei. De olhos flamejantes, a resistir desabar, o meu pensamento voou por vários lugares , que me trouxeram de volta à consciência de estar no dia 31 de Dezembro, metida em casa, a beber um espumante estragado, a tentar serenar um bicho aterrorizado e sem capacidade de apaziguamento cognitivo. Nisto, olhei para baixo, e detive-me nos meus pés, revestidos por umas magníficas pantufas acabadas de estrear. Mão amiga, frequentadora do admirável mundo do design e conhecedora de grifes de luxo, endereçou-me uma oferta que lhe tinha sido dirigida para a aquisição de umas “Bordaleiras”, umas fabulosas socas/pantufas feitas em pura lã de ovelha, que vieram modernizar as tradicionais pantufas usadas na zona da Serra da Estrela. De supetão, os meus pensamentos reconverteram-se, para me trazerem à consciência de como sou privilegiada. A sorte que tenho em ter os pés envolvidos por uns sapatos quentes e elegantes. Por me encontrar num lugar onde os estrondos que soam na rua e que aterrorizam a minha cadela representarem a alegria e a fortuna de estarmos vivos e a celebrar a transição para mais um ano, e não serem bombas mortíferas que ceifam vidas e arrasam casas, deixando civis inocentes sem recursos e ao relento.
Depois, pensei no privilégio de ter trabalho, e desse trabalho me preencher, apaixonar e permitir exercitar o músculo da escrita. De ter nascido num país fantástico, seguro e sem guerras, com história, e tradição onde há bordaleiras, capotes, capuchinhas, bacalhau, vinhos magníficos, vinho do Porto, azeites fantásticos, pastéis de Belém, doces conventuais, o Galo de Barcelos, o Cante Alentejano, azulejos, festas e romarias, tapetes de Arraiolos, sol, mar, montanha, gente amável… e a palavra saudade!
A juntar a isto, veio a consciência da necessidade de sermos gratos, e de que a a felicidade não é perene. Não fomos feitos para sermos permanentemente felizes, mas sim para trabalharmos para sermos o mais constantemente felizes que o nosso empenho conseguir concretizar.
Que em 2025 saibamos trabalhar para ser arrojados e merecedores da máxima felicidade que formos capazes de construir.
Feliz Ano Novo!
