Há três semanas impressionou-me muito a notícia (pouco divulgada, é certo) de a cidadã britânica Isabel Vaughan-Spruce ter sido presa por estar a rezar silenciosamente em frente a uma clínica de abortos no Reino Unido. Sem que tivesse praticado qualquer acto ou adoptado qualquer comportamento violento, sem que se manifestasse ruidosamente ou com cartazes ou com o típico megafone em punho dos activistas sociais (e que cá se vê em dias de casa cheia no Campo Pequeno). Apenas por estar de pé, do outro lado da estrada, diante da clínica a rezar. Foi denunciada, a polícia apareceu e fez-lhe um questionário tão perverso que não envergonharia um inspector da Gestapo, como se pode ver pelas filmagens amadoras realizadas in loco.

Os ataques às liberdades religiosa e de consciência são infelizmente cada vez mais comuns nos países ocidentais. Este tipo de ataques, cujo paradigma antes pensávamos ser o da perseguição religiosa em contexto de conflitos armados (Síria, por exemplo), inclui hoje também um tipo muito mais subtil, mas não menos violento ou eficaz, que é o da perseguição pelo movimento “woke”. Pela via da censura, a liberdade religiosa é violada. Hoje em dia qualquer culto, ou prática devocional, ou escrito espiritual que não sigam o pensamento politicamente correcto da sociedade revolucionária contemporânea no que toca a políticas identitárias é imediatamente cancelado. Este fenómeno, começado com movimentos cívicos que, em determinadas épocas da história, lutaram por direitos para minorias muito diversas, transformou-se agora numa mordaça ao livre pensamento. Não nos iludamos: existe uma autêntica guerra cultural que utiliza como armas a censura, o cancelamento e o ostracismo – e também meios clássicos como a criminalização dos comportamentos – para calar, apagar, expulsar e penalizar todos os que pensem ou ajam contra as convenções dominantes.

Este episódio chamou-me a atenção por dois aspectos. O primeiro é o motivo de Isabel Vaughan-Spruce para estar em frente àquele abortadouro. Em 2021 (últimos dados de que dispomos) o aborto foi a maior causa de morte mundial, com 42,6 milhões de bebés mortos antes de nascerem. Em comparação, 13 milhões de pessoas morreram por doenças contagiosas e 8,2 milhões por cancro. No Reino Unido (tal como em Portugal) o aborto é legalmente permitido, mas como a história bem nos ensina, a circunstância de determinado acto injusto ter suporte legal não o torna necessariamente justo – apenas faz com que essa lei seja injusta. E perante uma lei injusta, que vai contra a moral e a boa consciência dos homens, permite-se a desobediência.

Mas o aspecto mais interessante é o acto praticado por Isabel. Perguntada pela polícia se estava a rezar, ela respondeu que “posso estar a rezar na minha mente”. Isabel foi depois presa, interrogada e acusada de violar uma ordem de protecção de espaço público que existia em torno da clínica, por estar a rezar dentro de uma zona protegida. Ou seja, apenas por ter admitido que estava a rezar em silêncio, elevando a Deus os pensamentos na sua mente sobre os abortos feitos naquele local. Será que esta preocupação do legislador britânico em proibir a oração em determinados espaços públicos se explica pelo facto de ele reconhecer a existência de Deus e a eficácias das preces dos fiéis? Será que estamos perante um caso parecido ao dos solados republicanos que na Guerra Civil espanhola gritavam que Deus não existia, mas ainda assim fuzilavam crucifixos e profanavam sacrários, numa declaração de ódio tão ardente que só provava que o alvo de todos esses ataques não poderia ser algo fictício?

O emérito Papa Bento XVI acaba de morrer. Como disse o seu sucessor, só Deus conhece o valor e a força da sua intercessão e dos seus sacrifícios oferecidos para o bem da Igreja. Bento XVI escolheu como lema do seu pontificado “Cooperatores Veritatis”, Cooperadores da Verdade, papel que toda a vida assumiu e propagou. Num discurso que a cultura do cancelamento o impediu de proferir em 2008, na Universidade de Roma “La Sapienza”, afirmou profeticamente que “O perigo do mundo ocidental para falar somente dele é que o homem hoje, precisamente à vista da grandeza do seu saber e do seu poder, desista diante da questão da verdade; significando isto ao mesmo tempo que, no fim de contas, a razão cede face à pressão dos interesses e à atracção da utilidade, obrigada a reconhecê-la como critério derradeiro”. Que Nosso Senhor receba o Papa Bento XVI na Sua eterna morada e que o seu testemunho possa inspirar tantos outros como Isabel a darem a sua liberdade e até a vida em defesa da verdade.

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