“Venho à Terrugem com muita regularidade. Acompanho os problemas de Elvas, da minha terra, com muita atenção e com muito interesse”. A afirmação do número 1 da lista da CDU candidata ao município elvense parece revelar um certo cuidado em garantir que mesmo que se tire a pessoa Elvas, não se tira Elvas da pessoa. E que o distanciamento físico não dilui a paixão, o interesse e a capacidade de estar ligado à terra natal. Nem a aptidão de ser uma opção credível para a gestão autárquica dos próximos quatro anos. Ouvi-lo falar das motivações que o levam a querer eleger-se presidente da Câmara e do leque de ideias e soluções que tem pensadas, faz acreditar que José Brinquete se preparou bem para a mensagem que quer transmitir, com vista à ocupação do cargo que pretende alcançar. Sempre apoiado na ideologia que representa, afirma que “o projecto da CDU é um projecto ímpar e distinto das outras forças políticas” e que é necessário porque “Elvas tem um problema de ordem política, que inclui duas candidaturas desavindas: a briga entre Rondão e Mocinha. Esta situação faz lembrar o Velho Testamento, nos Génesis, que refere uma briga muito séria entre Abel e Caim. A diferença é que Abel e Caim eram irmãos de sangue. A briga entre Mocinha e Rondão é de dois irmãos políticos. Sabemos como acabou a briga bíblica, mas desconhecemos como irá terminar a política. Claro que o que pretendemos é que o concelho se liberte deste problema que é muito prejudicial para o futuro do município”. Sublinha também que a CDU “tem posições muito distintas de outras forças políticas concorrentes em áreas tão importantes, como o desenvolvimento económico. Não aceitamos que uma cidade tão importante do ponto de vista histórico e estratégico esteja a definhar, a perder população. Elvas tem potencialidades para dar saltos muito grandes, tomando medidas adequadas”.

A análise aos últimos 30 anos de gestão autárquica

José Brinquete assegura que apresenta uma candidatura que reflecte um acompanhamento “ao que tem sido feito” nas últimas três décadas. Destaca que há um reconhecimento de que “há trabalho realizado que é importante. Existem infraestruturas muito importantes para uma população que pode ascender a 40, 50, 60 mil habitantes. A cidade tem equipamentos públicos colectivos e culturais, mas as infraestruturas não servem de nada se não tivermos pessoas”. Aponta o retrocesso populacional como uma causa e uma consequência do que considera ser “o marasmo” em que se encontra o concelho. “Quem emprega aqui no concelho são sobretudo os micro empresários. 90 por cento das empresas são micro, o que quer dizer que têm menos de 10 trabalhadores e menos de 2 milhões de euros de facturação de volume anual de negócios, e vivem com muitas dificuldades porque o sector empresarial precisa que a população tenha poder de compra para consumir. Depois não temos propriamente empresas na área de produção de mercadorias, aquilo que se chama em economia “mercadoria com valor acrescentado”, ou seja, meios transacionáveis. Temos uma grande potencialidade no turismo, e nessa área estamos no bom caminho, mas sabemos que os países ou as regiões que vivem só do turismo são normalmente regiões muito pobres”. Acrescenta que a par do turismo é urgente a implementação de empresas a operar em várias áreas: “transformação dos produtos agrícolas, empresas de inovação e de ciência… salvaguardando que não queremos aqui uma siderurgia nacional ou outras empresas altamente poluentes. É necessário dinamizar a área empresarial. E há uma questão que devemos colocar aos dois irmãos desavindos: como é que estando há 30 anos à frente da Câmara com maioria absoluta, a população diminuiu e não saímos da cepa torta?”E é através de vários pontos de interrogação que coloca ao eleitorado, que José Brinquete põe em evidência a análise crítica que faz à gestão dos dois presidentes antecessores . “Como é que o elvense vota numa destas duas candidaturas quando elas são contra a maternidade e o serviço permanente de pediatria em Elvas? Como é possível pensarmos que Elvas tenha mais população, que fixe aqui mais jovens, que crie mais empregos, e com direitos, se não existe uma maternidade para esses jovens terem apoio ao nascimento das crianças que pretendem ter? Como é que os habitantes da Terrugem, ou Vila Boim, de Barbacena, Vila Fernando podem votar nestas candidaturas quando elas são contra a reposição destas freguesias? Como é que os trabalhadores da Câmara, que muitas vezes tão mal tratados são, votam nas candidaturas do PS de Mocinha e Rondão Almeida que não resolvem os problemas da precariedade laboral? Vão votar contra os seus interesses?”
Prossegue numa severa análise crítica, ao mesmo tempo que dá pistas da actuação que pretende desenvolver ao longo do próximo mandato camarário. “Consideramos que Elvas e o seu concelho têm futuro mas é necessário que se tomem medidas muito sérias, até aproveitando fundos comunitários, que não são pequenos e que estão para vir, mas tem que se libertar de propaganda falsa e de muitas outras coisas”. Aponta a gestão do projecto da Eurocidade como mais um exemplo que lhe merece nota negativa: “pelo que se vai vendo, parece que só serve para se gastarem dinheiros comunitários. É uma ideia que podia ser muito interessante, juntar três núcleos próximos uns dos outros, mas não se conhece nenhuma medida que evidencie que está propriamente no caminho do desenvolvimento. O que se conhece são muitas daquelas medidas, que eu não lhe chamaria folclóricas (algumas até têm interesse), mas que não representam valor acrescentado para aquilo que queremos. Existe uma lacuna muito grave que pode ser suprimida com uma Câmara forte e actuante, em diálogo com o Governo, que é a modernização da linha do leste. É fundamental o corredor Elvas – Lisboa. A ferrovia que se está a construir de Sines, que entronca aqui em Elvas, é sobretudo para transporte de mercadorias, mas mesmo que seja no futuro para transporte de passageiros, não se está a ver que a população de Lisboa que vem para Elvas vá a Sines apanhar o comboio. Esta é uma exigência da CDU que não é de hoje. É fundamental a modernização da linha, do material circulante, a existência de comboios modernos, seguros, com condições para as pessoas poderem ser transportadas, a renovação das estações e o ajustamento de horários”.

O projecto eleitoral

Com uma permanente análise crítica na base do discurso, José Brinquete revela algumas ideias do programa que pretende apresentar e cumprir, alicerçado “no que tem sido o património da CDU”. Sublinha que as medidas que pretende vir a implementar resultam de ideias e sugestões de toda a equipa envolvida na candidatura, “constituída também por amigos e amigas que não sendo candidatos, pelas suas competências profissionais estão dispostos a ajudar-nos na construção de um programa realista e ambicioso para o concelho de Elvas”. Contas feitas, ideias reunidas à luz de uma ideologia que o construiu politicamente, a que soma a vontade de voltar para o Alentejo, faz acreditar que não migrou para Lisboa com a única vontade de melhorar a sua condição de vida pessoal, mas que o que viveu e aprendeu serve agora para colocar ao dispor da terra que o viu nascer. Apresenta-se com soluções que ultrapassam em muito a moda do turismo presente, porque, adverte várias vezes ao longo do discurso, “as regiões que vivem essencialmente do turismo são regiões muito pobres. O que são necessárias são “medidas estruturantes”, aquilo que em Economia se chama “premissas para o desenvolvimento”. Identifica como uma das principais “premissas” a localização geográfica de Elvas “que está a uma distância razoável das duas capitais de distrito mais próximas, que são Portalegre e Évora. Está junto à fronteira. Temos as quatro componentes dos meios de comunicação”. Insiste que “só por incompetência dos autarcas e por políticas centralistas de quem nos tem governado, que também são os partidos dos autarcas, é que Elvas está a perder população e se tem vindo a transformar numa terra tão pequena. Com uns olhos que observam o Alentejo inserido num país mais vasto, concorda que a questão demográfica não afecta só Elvas, mas que é transversal ao interior “porque nos últimos 40 anos temos tido políticas de centralização de tudo. Sendo uma situação geral do interior do país, é resultado das políticas do PS, do PSD e por arrastamento do CDS, que têm tomado medidas em que os principais fundos comunitários são para os grandes centros, onde também há grandes problemas. Acredito que até dava jeito a Lisboa e ao Porto poder transferir muita população para o interior do país, mas isso só é possível criando empregos”.
Posto isto, o que quer e o que se propõe José Brinquete fazer pelo concelho? “Para que Elvas, que todos conhecemos e divulgamos como uma pérola monumental não se torne numa aldeia, é urgente e necessária uma actuação permanente em áreas chave. Podemos começar pelo regresso da maternidade, como já referi. Também é necessário que se crie um serviço de pediatria permanente junto da maternidade. Depois, a melhoria dos serviços hospitalares. O esforço que os médicos, os enfermeiros e os auxiliares estão a fazer no hospital de Elvas é imenso, mas precisamos de outras valências”. Na área da saúde destaca também a necessidade “de reforço dos postos médicos das freguesias, onde se justifica que, na maior parte delas, haja médico todos os dias. Não me canso de repetir que ninguém se convença que Elvas consegue captar jovens e novos casais se não houver maternidade e condições de trabalho”.
Anuncia a intensão de criar “um gabinete multidisciplinar na Câmara” que permita implementar uma estratégia de desenvolvimento que procure novos investimentos para o concelho, oferecendo às empresas espaço para se instalarem. “Há uma zona industrial em perspectiva de alargamento. Elvas pode ter muitos empregos e a população tanto pode viver na cidade como em Barbacena, na Terrugem, em Vila Boim, Santa Eulália. Deve-se povoar todo o concelho. Este gabinete multidisciplinar tem que ter economistas e investidores. É necessário que este trabalho se faça em diálogo com a Associação Comercial, com as confederações empresariais”.
Refere que o cargo de Secretário Geral da Federação Portuguesa das Pequenas e Micro Empresas,que ocupou nos últimos anos, lhe deu conhecimento privilegiado dos problemas e das soluções que permitem “romper com as políticas centralistas que são lesivas da atribuição dos fundos comunitários aos pequenos investidores” e que é necessário que se levantem vozes combativas que mostrem discordância das opções de atribuição dos apoios. “Pertencer à mesma cor política é concordar com as escolhas centralistas. Temos que estar atentos e não perder de vista que os fundos dos cinco quadros comunitários anteriores foram para apenas seis por cento das empresas em Portugal, não foram canalizados para as micro, que representam 96 por cento do tecido empresarial. Agora que está aí à vista o PRR, a que dão o nome de bazuca, e o próximo quadro comunitário, tudo se encaminha para o mesmo lado e é necessário agir com firmeza e autoridade política. Bem podem aqui, na campanha eleitoral, dizer o contrário, mas se são cúmplices da força política que está no Governo, como podem ter capacidade combativa e de reivindicação e ir a Lisboa exigir as medidas necessárias para que Elvas se desenvolva?”
José Brinquete liga-se ao realismo das possibilidades e aponta como solução de criação de emprego a aposta na captação de empresas de média dimensão. “As grandes empresas, que empregam mais de 250 trabalhadores não se fixam em qualquer lado sem decisão política. É o Governo que decide onde se estabelecem. Não são decisões dos autarcas nem do empreendedor. Sabemos disso e é claro que a haver grandes empresas que queiram vir para Elvas, são bem vindas, mas é perfeitamente possível desenvolver uma estratégia de captação de médias empresas, oferecendo os benefícios que elas necessitam”. Disponibilização de espaços para se instalarem, a custos favoráveis, e atribuição de algumas isenções de taxas municipais, são alguns dos incentivos que José Brinquete se propõe aplicar, enquanto salienta que “o factor localização já é de persi um elemento atractivo, porque qualquer mercadoria que se produz tem que ser colocada no mercado e a posição geográfica de Elvas é uma grande mais valia”.
José Brinquete faz questão de pôr em evidência que pretende reverter a privatização do abastecimento de água. “Essa é uma garantia que damos. Queremos dizer aos elvenses, olhos nos olhos, que assim que tomarmos posse, e dentro dos prazos que seremos obrigados a cumprir, de acordo com os contratos que foram celebrados, iremos anular a privatização da água. É uma área chave. A água, tal como a recolha do lixo, são serviços elementares que o Estado deve garantir para que haja segurança”.

A atenção ao centro histórico e a gestão do turismo

A revitalização do centro histórico da cidade de Elvas faz parte do projecto do candidato comunista, que pretende implementar “um plano estratégico de mobilidade e transportes. Especifica que a ideia se enquadra na importância que deve ser dada “ao valor histórico e arquitectónico do centro da cidade. O esquema que está delineado obedece a decisões políticas da CDU e deverá ser efectivado por técnicos qualificados”. José Brinquete sublinha que é vital que o centro da cidade seja habitado para ser preservado e promovido, tornando-se atractivo para ser visitado. “Para isso é fundamental apostar na reabilitação, e até, muitas vezes, na junção de algumas casas, para as tornar mais apetecíveis e confortáveis. Foi este modelo que a Espanha adoptou há mais de 50 anos, quando desenvolveu uma acção estratégica com vista à reabilitação dos seus centros históricos, que tinham também casas pequenas e antigas, sem as condições de conforto dos dias de hoje. Depois disso é necessário que as pessoas que o habitam, tenham fácil acesso ao centro. Precisam de transportes, de estacionamento para as suas viaturas, de espaços de lazer, de limpeza, higiene, recolha de lixo adequada”.
Apesar de defender que o Turismo não deve absorver o protagonismo e tornar- -se numa opção sem retaguarda, José Brinquete defende que é uma área que está na primeira linha das suas preocupações. Por isso aposta “numa divulgação constante. Antes da pandemia já tínhamos índices de turismo muito significativos, mas ainda muito aquém do que precisamos. É muito importante que quem queira viajar de qualquer parte do país tenha conhecimento que Elvas te um Museu Militar, um Museu de Arte Contemporânea, um Museu de Fotografia, que é uma relíquia, que Elvas tem agora um Museu de Arqueologia e Etnografia. Isto tem que ser divulgado constantemente. Depois também é necessário que se saiba o que significa Elvas ter sido classificada, há nove anos, como Património da Humanidade da UNESCO. Não foi uma obra de Rondão ou de Mocinha. Claro que a proposta partiu da equipa técnica que eles criaram. Tiveram mérito em criar equipas técnicas capazes de sustentar a tese de que Elvas era património, mas o verdadeiro mérito é dos nossos antepassados e de Portugal, pela necessidade de defesa da fronteira e de independência nacional. Foi isso que levou a que se construísse esta imponente fortificação que é incomparável. Em Portugal arriscaria dizer que apenas Almeida tem alguma semelhança, mas a muitos quilómetros de distância. Os fortes são verdadeiras joias. O Forte da Graça é um elemento de arquitetura militar único em Portugal e arriscaria dizer, no mundo. É importante que tanto nacionais como estrangeiros saibam da existência desta monumentalidade, e essa informação deve ser transmitida permanentemente”.

O objectivo eleitoral que a CDU se propõe alcançar

Finalizada a cerimónia e o cerimonial, este ano com a lisura do contacto directo, sem os comes e bebes e presumivelmente sem os habituais comboios de carros a apitar, chegará o dia 26 de Setembro, com todos os candidatos ansiosos por conhecer a dimensão do efeito persuasivo que exerceram no eleitorado. Quando questionado sobre os resultados expectáveis, José Brinquete assume-se “realista. Partimos de uma realidade objectiva que existe, mas somos também lutadores que vimos de há muito tempo e que nunca tivemos problemas com as dificuldades que enfrentamos”. Volta a citar a passagem bíblica de Abel e Caim, para reforçar “que sabemos que essa luta fratricida nos prejudica, porque estão há 30 anos no poder e têm uma rede clientelar que muitas vezes faz estragos, manipula ou pode vir a manipular pessoas. Mas quando vamos para novas eleições, o contador parte do zero. O eleitor não deve sentir que tem uma dívida para com aqueles que estiveram no poder. Eventualmente fizeram algumas coisas em seu benefício, mas não foi com o dinheiro deles, foi com dinheiro público. Ora, se foi dinheiro público, até as placas onde colocaram os nomes não foram pagas com o dinheiro deles, portanto os eleitores não lhes devem nada”. Socorre-se de argumentos que apelam à confiança do eleitorado “numa candidatura que tem candidatos capazes, com uma vida profissional e currículo político que dão garantias de capacidade para assumir a presidência da Câmara e fazer melhor, o que não é difícil. Tendo em conta algumas circunstâncias que também não desconhecemos, jogos de influência, manipulação do eleitorado, e por aí fora, não sendo possível a presidência, consideramos fundamental que a CDU tenha uma voz na Câmara Municipal”. Nesta circunstância, elegendo-se como vereador, o candidato comunista garante que virá na mesma para Elvas para honrar a confiança que depositarem nele. Também deixa em aberto possíveis entendimentos. “Primeiro cada candidatura vai a votos . E depois a correlação de forças é que dita possíveis entendimentos. A CDU considera que a nível do poder local desenvolvem-se linhas de força que não são propriamente de política pura e dura. Um fontanário, uma estrada, uma rua, um jardim, não têm cor partidária. É para bem da população”.
Quando se prepara para ver o seu nome inscrito no próximo elenco camarário, José Brinquete recusa veementemente o que considera uma improbabilidade. À pergunta: se não fosse candidato à Câmara de Elvas em qual dos outros candidatos votaria? o concorrente a autarca responde prontamente que só depositaria o seu voto numa candidatura do Partido Comunista. “Votaria no candidato da CDU, sem nenhuma hesitação. Seria inverosímil que não houvesse um candidato comunista, pelo que não se colocaria o cenário de outra opção”.
De caras ao dia 26 de Setembro, o trabalho é convencer os votantes a depositar confiança no projecto da CDU. Em jeito de apelo, José Brinquete estabelece uma analogia, colocando mais uma vez em evidência a diminuição da população do concelho. Se pensarmos bem, 15 mil habitantes de Elvas são hoje três ruas de Almada ou de Vila Nova de Gaia. Precisamos dar a volta a isto. E as duas candidaturas do PS já demonstraram que não têm capacidade”.

Entrevista conduzida por Arlete Calais

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