Faz uns meses que conheci o meu Surfista. Veio até mim, instrutor de nada senão da alma, até porque, desconfio, de surf pouco saberia. Batia-lhe o cabelo depois dos ombros, como suposto, e carregava nas bochechas de uma cara magra horas de sol. Os olhos claros sorriam por si, sem precisarem da ajuda da boca, tal como sempre imaginei. Nunca lhe tinha dado nacionalidade nem porte, sotaque ou motivação, mas, ao contrário do que poderia pensar, foi ele quem me viu primeiro.

Robin Sharma escreveu uma vez que para nos encontrarmos precisamos de um Santo, de um Surfista e de uma Executiva, porque cada uma das personagens traz vírgulas bonitas para a nossa história. E, por isso, faz uns meses que conheci o meu Surfista. Ele comia um gelado de chocolate em vez de fruta das árvores e quando me disse “olá” em inglês reparei na boca suja de criança. Não trazia sapatos, como eu. Sentíamos os dois o quente dos paralelos e a rigidez da pedra, quando as raízes que os corpos criavam no chão o trouxeram até mim.

Confesso, não estava atenta. Aconteceu tudo muito ao acaso. Perguntou-me tanto sobre mim que me vi obrigada a responder e a dizer em voz alta as minhas decisões mais recentes, os meus medos em relação ao futuro próximo, o ontem que me trouxe ali e o amanhã que me levará a outro lugar qualquer. Estava receosa e desconfiada, mas, não minto, curiosa. Aquele homem sem sapatos e agora com restos de gelado de chocolate nas mãos segurou um espelho ao peito e ficou à minha frente, à minha altura, enquanto eu me confessava e revia.

Ensinei-lhe algum português enquanto bebíamos cerveja e, no fim, dividimos a conta. A palavra de quemais gostou foi “mar” porque me confessou, quase de uma forma poética, que a última letra não se diz, mas sussurra-se, como o eco da fúria da água e o cheiro da areia batida em sal que fica quando a onda recua. Disse-me que a língua que se falava por aqui era cantada, mas com seriedade; declamada, mas com verdade. Que o português deveria ser falado alto e a gargalhadas, menos quando se dizia a sua palavra preferida, que era coisa séria que apenas permitia um sorriso meigo.

Despedi-me dele na minha loucura de horas feitas, quando me pediu queolhasse por um breve minuto para o sol a esconder-se.

“Não é bonito?” – disse.

E era. Era imensamente bonito e delicado, vestidonum tom laranja tempestade.

Provocou entre nós um silêncio, mas jamais desconfortável.Provocou, aliás, todos os silêncios bonitos do mundo num só, como quando se ouve a madeira do lume a crepitar debaixo da manta de inverno ou se espera pelo grito do bebé que acabou de nascer.

Quando o sol se deitava no mar, disse, chamando-me pelo nome:

“É agora, pequena. O sol concede-te a bênção de lhe pedires o que mais queres para se levantar amanhã com a energia certa para que se torne realidade. É por isso que é tão importante o nascer e o pôr do sol. Eles trazem-te novas oportunidades, com elas novos alentos e, entre elas, todas as vidas que tenhas a coragem de viver.”

Bebi de cada palavra. Sustive a respiração em cada virgula. Engoli em seco por cada brilho nos seus estreitos olhos. Voltei a contemplar o sol enquanto partia, também ao som da despedida do meu Surfista, dizendo-lhe adeus com um abraço e uma lágrima feliz.

Faz uns meses que conheci o meu Surfista e que ele me deu o conforto que ainda hoje não sai da memória da pele. Ali, naquele momento, naquele espaço de tempo infinito, os meus olhos emocionados ardiam no vermelho da água e na paz do céu, enquanto o sol beijava o mar devagarinho e o mar o aninhava, mole, na canção da maré.

Hoje, o mundo não está igual, nem sei bem onde andará o meu Surfista. Os tempos, mais frios e mais cinzentos, não o deixam andar descalço ou à minha procura. Ainda assim, o pôr do sol ainda existe nas janelas dos quartos, nas varandas das casas. O céu fica rosa todas as tardes para ficar escuro todas as noites. Os dias não têm mais horas, mas o segundo em que a luz beija finalmente a Terra resiste. Existe. E será para sempre meu. E será para sempre Nosso.

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