O que pode despoletar em nós, de repente, a vontade de escrever os pensamentos escondidos, calados dentro de nós?

Aqui estou, não no computador, como uma mulher moderna faria, mas com caderno aberto e caneta na mão. Explico a opção: o que tenho a dizer não pode ser exprimido numa tela, nem os erros simplesmente apagados tocando uma tecla. Riscar palavras dá outro significado, dá a opção das palavras continuarem a existir, estão ali a lembrar que pode vir a ser utilizada, não descarta totalmente o pensamento, lembrando que em algum momento podem voltar a fazer parte do texto; como não podemos apagar pra sempre o que trazemos em nós. Em algum momento irá emergir no mundo real.

Mas como comecei esse texto? Um filme me levou a escrever. Não no momento em que o assistia, mas algo ficou lá, latente, cenas não saíam da cabeça. De repente, olhando pra fora da janela, tive um clique, podemos dizer assim. Começaram as ideias. Uma história despertou em mim a vontade de transformar ideia em palavras. Transferi as cenas do filme para o momento vivido no mundo: confinamento. Estamos trancados em casa, pensei, olhando pela janela, ouvindo o som do silêncio. Sim, o silêncio tem som: de vidas interrompidas, de negócios falidos, de abraços por dar, de distâncias. Não somos uma ilha, chavão? Mas lembrei dessa máxima. Precisamos uns dos outros e, no entanto, estamos separados uns dos outros, não podemos estar com familiares, amigos, ao sol numa praia, num parque, não podemos conviver, porque só podemos ver o mundo pelo quadrado dos vidros, os quais mostram ruas vazias, qual cena pós apocalíptica. Como pessoas solitárias mantém a sanidade depois de tanto tempo nesta situação? Qual será o futuro após tudo isto? Teremos homens e mulheres doentes mentalmente? Será uma sociedade doente a emergir deste período? Ou o ser humano conseguirá lidar com os seus esqueletos escondidos no fundo de sua alma?

O filme – não esqueci – HIS HOUSE (ou se preferirem, Hóspede indesejado, na tradução) é definido como terror, drama macabro.Pra mim, é uma grande metáfora da alma humana. Não apenas a história de refugiados, um drama psicológico afeta a todos, independentemente de onde viemos ou quem somos. Trata-se de almas refugiadas a vagar por esse mundo.

Todos temos que refletir sobre nossos esqueletos, tentar perceber quais são, reconhece-los, lidarmos com eles e perdoarmo-nos. Do contrário, em negação de que eles existem, seremos eternamente migrantes, em fuga de nós próprios, carregando pra sempre os pesadelos conosco, não importando em que terra cheguemos, eles não desaparecerão apenas por termos sido resgatados, supostamente salvos do mar revolto; o cobertor quente oferecido aquece o corpo, mas não aquece a alma, não resolve aquilo que carregas consigo. Precisamos de mais que isso, aportar em um lugar não nos fará realmente felizes e nos fazer suspirar e dizer que estamos em casa!

O tempo é de olhar pra dentro de nossos corações e arrancar os sentimentos egoístas, analisar o que já fizemos de mal, não fechando a alma pra tudo de bom que somos e temos, valorizar o outro, estender a mão, esquecer o individualismo. Todavia o homem ao longo da história tem mostrado muitas vezes seu lado mais sombrio. Veremos se os esqueletos guardados sofrerão a metamorfose que pode mudar tudo pra melhor.

sanderli mello


Carregar mais artigos relacionados
Carregar mais artigos por Redacção
Carregar mais artigos em Opinião

Veja também

Presidente da República inaugura 37ª Ovibeja, que decorre em versão digital

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, vai presidir, no dia 22 de Abril, pela…