Não sei dizer de cor quantos nos sentávamos na enorme mesa corrida que havia na adega da casa da Rua da Mouraria de Cima, quando toda a família se juntava para as Festas das Flores em Campo Maior. Mas lembro-me que não seriam menos de trinta (que era cerca de metade dos que estavam em casa). Nessa mesa – da qual existe uma réplica na sala de jantar da Herdade de Castro e que minha bisavó teve que comprar novamente aos revolucionários que durante as ocupações entenderam por bem ficar com ela – nessa mesa, dizia eu, sentávamo-nos em dois enormes bancos de igual tamanho que só se moviam quando todos os ocupantes (estes legítimos) se levantavam para o afastar e deixar entrar mais um comensal.Nesta mesa ainda havia sociedade patriarcal e uma hierarquia escrupulosamente respeitada, sendo os primeiros a ser servidos os mais velhos, e começando pelas senhoras, e o rapar dos tachos era deixado aos miúdos quando houvesse lugares vagos. Mas acabado o almoço também nos deixavam participar, ou melhor, assistir mudos – de gesso, como dizia o meu avô – aos momentos de expansão, às conversas, anedotas e historietas de quem já viveu muito e tem mais paciência para contar do que para ouvir. E que regalo eram essas tardes de contos sobre episódios da guerra, primos bastardos, uxoricídios, visitas régias e tesouros escondidos que nos deixavam boquiabertos, mas apenas de espanto, já que opinar nos estava vedado.Essa mesa é o bastião de uma realidade infelizmente já muito pouco vivida: famílias numerosas, convívio entre gerações, o gosto de estar à mesa, a arte de contar histórias e, evidentemente, uma casa grande o suficiente para acolher móveis desta dimensão.Quando pelos padrões demográficos modernos uma família é considerada numerosa com três filhos, percebe-se bem que os mínimos históricos de natalidade foram atingidos em Portugal. E com tão poucas pessoas a casarem, e cada vez mais tarde, e tendo presente que o relógio biológico é como o dos comboios, que não espera pelos passageiros atrasados, não será de admirar que qualquer dia “numerosa” queira significar uma família com dois filhos. É natural que também a destruição do próprio conceito de família tenha contribuído para a diminuição dos seus membros futuros e, quanto aos antigos, os nossos avós sofrem calados uma solidão impessoal, ainda que vivamos todos na mesma cidade e pensemos que o telefone é o substituo moderno da visita.As mesas estão caladas e, mesmo que aí coma uma família, não se ouvirão mais que monossílabos grunhidos a contragosto. Como podem existir histórias que contar, se ninguém já as ouve dos antepassados? Como se poderá partilhar conhecimento, se ninguém já o adquire de forma consolidada com a leitura?Um aspecto que ficou bastante prejudicado com a proibição de fumar na maioria dos restaurante, concorde-se ou não, foi o tempo das refeições. Mesmo que as pessoas não tenham o rude hábito de se levantarem entre pratos para fumar na rua, ainda assim só ficam à mesa o tempo bastante para escolherem o prato, engolirem-no em duas garfadas, pedirem a conta e pagarem. Tudo o que tradicionalmente vinha depois – os cafés, digestivos, cigarros e mais digestivos – foram proscritos ou relegados para a esplanada ou mesmo para outro estabelecimento. E é de tal forma assim, que a maioria dos restaurante consegue facilmente organizar dois turnos de refeições ao almoço e ao jantar (facto impensável há uns anos atrás).Dir-me-ão que estas considerações não passam de prosa especulativa, mas eu, partilhando com a maioria das pessoas da necessidade de comer, já pude comprovar que uma conversa tida à mesa, em tom confidencial com um grupo que se senta próximo e que apenas precisa de se inclinar para expressar a sua opinião, quando transferida para um bar, uma sala, um terraço, ou qualquer espaço fora daquela mesa, perde completamente a sua substância. A conversa fica frouxa, perde intimidade, não desenvolve, os silêncios gerais são mais que muitos… Enfim, é barbaramente assassinada no momento em que se afastam as cadeiras.Daí que deveria existir um manifesto “pró-mesa” que defendesse a necessária preservação civilizacional desta instituição, que não é só epicurista ou mundana. Pois a coisa mais importante que Jesus Cristo nos legou foi a Eucaristia, toda ela vivida à volta de uma mesa, na Última Ceia. E a Sua primeira manifestação pública ocorreu num banquete, nas Bodas de Caná, em que converteu milagrosamente a água em vinho para que não faltasse que beber aos convidados. E entre acusações de ébrio, a que não ligava, Nosso Senhor nunca deixou de se reunir com os Seus amigos às refeições, com os apóstolos, com Marta, Maria e Lázaro e com tantos outros discípulos.Lamentavelmente hoje as mesas são na sua maioria de quatro lugares e nem esses ficam todos ocupados. Mas mesmo que por necessidade, ou porque o IKEA assim as vende, estas mesas sejam assim tão pequenas, pelo menos que quatro pessoas se sentem sempre nelas. E se as famílias não são (ainda) grandes o suficiente para preencherem todos os lugares, que se convidem para jantar os amigos ou familiares que vivem mais sozinhos e se aproveite para fazer uma refeição esmerada e bem regada.Haverá algo mais triste que nos levantarmos da mesa com a garrafa de vinho ainda a meio, porque mais ninguém estava presente para a beber connosco?

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