Um terço dos cerca de 180 grupos de cante alentejano pode não voltar a reunir-se devido à pandemia de covid-19, estimou hoje Paulo Lima, um dos responsáveis pela classificação do cante como Património Cultural Imaterial pela UNESCO.
“Se calhar, um terço pode não voltar a reunir-se. Não quero estar a ‘inventar’, mas estou a dar um valor dentro daquilo que são as minhas suposições”, disse o antropólogo, em declarações à agência Lusa.
Na base da estimativa de Paulo Lima, ligado ao novo Museu do Cante que é inaugurado no sábado em Serpa (Beja), está a mortalidade provocada pela pandemia em algumas aldeias do Alentejo, “onde havia dois ou três grupos” corais, mas também onde, devido à covid-19, “morreram umas 40 pessoas”.
“Muitos grupos corais estão envelhecidos, é provável que o ‘rombo’ seja muito grande”, afirmou o antropólogo, que foi uma dos responsáveis por o cante alentejano ter sido classificado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).
E, além das possíveis baixas provocadas pelo coronavírus SRAS-CoV-2 nos grupos corais, há que contar também com outro fator: “As pessoas têm medo” de voltar a juntar-se, frisou.
“O cante é coletivo. Não dá para estar um aqui e o outro a dois metros. Os grupos corais vivem dos convites, dos convívios e o que noto é o medo. As pessoas não se querem juntar”, concluiu Lima.
Promotor da candidatura do cante à UNESCO, o presidente da Câmara de Serpa, Tomé Pires, admitiu que aquele “é indissociável do convívio” e que, se as pessoas não se podem juntar por causa da pandemia, “fica mais difícil” os grupos prosseguirem a sua atividade.
No entanto, Tomé Pires afiançou à Lusa que “a maioria” dos grupos corais de cante alentejano está “com vontade de voltar a ensaiar e a cantar”, o que deverá ser feito “conforme as condições assim o permitam”.
“Poderá haver alguns grupos corais com dificuldades, mas temos tentado acompanhar e vamos continuar a fazer um contacto telefónico, praticamente todos os meses, com todos os grupos corais”, disse.
Segundo o autarca, “alguns grupos estão com receio de que alguns elementos desistam, mas a grande maioria dá nota de que está com vontade de voltar a ensaiar e a cantar”.
Tomé Pires apontou ainda que está em preparação uma avaliação do impacto a curto prazo da pandemia da covid-19 no cante, “quando baixar a poeira”.
Essa avaliação, acrescentou Paulo Lima, poderá começar a ser feita já “em outubro”, quando pretende promover um grande encontro de grupos corais e de bandas filarmónicas, das quais está também a preparar a candidatura a Património da Humanidade, mas “o panorama não é bom, especialmente para o cante”.
Os dois responsáveis estarão presentes, sábado, na inauguração do novo Museu do Cante, em Serpa, que resulta da criação de um centro interpretativo que se junta às valências já existentes na atual Casa do Cante.
O cante alentejano, um canto coletivo, sem recurso a instrumentos e que incorpora música e poesia, foi classificado em 2014 como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
A candidatura foi promovida pela Câmara de Serpa em conjunto com a Casa do Cante, que passa, a partir de sábado, a ser o Museu do Cante, e teve o contributo da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, da Casa do Alentejo, em Lisboa, da Confraria do Cante Alentejano e da Moda – Associação do Cante Alentejano.
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