“Filhos de Espanha: A Acção do Tenente Seixas na Guerra Civil Espanhola”. Este é o título de uma exposição patente, até 13 de Fevereiro, no átrio do Centro de Artes de Sines, com a qual se pretende recordar a dimensão humana de António Augusto de Seixas Araújo, cuja acção salvou, da prisão e da morte, centenas de espanhóis no decorrer da Guerra Civil de Espanha (1936-39).
Referência na defesa dos direitos humanos, o tenente Seixas, oficial da Guarda Fiscal portuguesa, “Schindler de la raia” para os espanhóis, está intimamente ligado a Sines, onde se estabeleceu como empresário, depois dos anos passados em Barrancos, em que, contrariando Salazar, deu refúgio a quem fugia das tropas de Franco.
No dia 27 de Janeiro (em memória das vítimas do Holocausto), o programa organizado pela CM Sines inclui duas actividades – às 14h30, a investigadora Dulce Simões, em conversa com os alunos das escolas de Sines, recorda a acção do Tenente Seixas e a Guerra Civil de Espanha; às 21h00, é projectado o documentário “Os Refugiados de Barrancos” (de Producciones Mórrimer).
Apesar de esquecido em Portugal, António Augusto de Seixas Araújo foi diversas vezes homenageado em Espanha. Nasceu em 1891, em Montalegre, e faleceu em 1958. Fez carreira na Guarda Fiscal, em vários locais do País, do Minho ao Alentejo. A sua acção na raia alentejana está representada num monumento, inaugurado em 2010, em Oliva de la Frontera. Num selo, emitido em Espanha, o «teniente» é apresentado como «el Schindler de la raya».
Foi no período da sangrenta guerra civil, quando a as tropas de Franco progrediam de sul para norte, junto à fronteira portuguesa, e centenas de espanhóis procuraram refúgio em Portugal, que o homem que comandava a Guarda Fiscal na zona de Barrancos foi decisivo. Manteve num campo de refugiados centenas de pessoas, recusou obedecer às ordens do governo de Salazar e acabou por ver interrompida a sua carreira militar.
Aos 1020 refugiados de Barrancos juntaram-se mais de 400 refugiados detidos em Elvas, Lisboa e Porto. Foram repatriados, a partir de Lisboa, via marítima, para Tarragona, zona ainda controlada pelas forças republicanas.
«Na raia de Barrancos, a concentração de refugiados republicanos iniciou-se em meados de Agosto, aumentando gradualmente em função do avanço e ocupação das povoações espanholas pelas forças nacionalistas. Quando Oliva de la Frontera foi ocupada pelos nacionalistas, na manhã de 21 de Setembro, aumentou a concentração de refugiados junto ao rio Ardila (do lado espanhol), frente às herdades da Coitadinha e das Russianas. A fronteira portuguesa marcava agora a linha divisória entre a vida e a morte, e o fluxo de refugiados atingia proporções incontroláveis» – Dulce Simões, investigadora, no Colóquio Internacional Fronteiras e Mobilidades na Península Ibérica no Século XX (2012)
António Augusto de Seixas seria chamado a responder perante um inquérito militar, mandado instaurar por António de Oliveira Salazar. Mais tarde, apesar de ilibado, tornou-se industrial em Sines e viria a ser administrador deste concelho.
A Guerra Civil de Espanha iniciou-se em Julho de 1936. Quase três anos depois, em 1 de Abril de 1939, estava instaurada a ditadura do general Francisco Franco. Com a ajuda da Alemanha nazi, que forneceu aviões, os golpistas chegaram e dominaram importantes cidades da Andaluzia e da Extremadura, rumando a norte junto à fronteira portuguesa. A internacionalização do conflito, que incluiu brigadas internacionais (com portugueses nos dois lados das barricadas), foi seguida de perto pela imprensa de todo o mundo. Ernest Hemingway, John dos Passos e Robert Capa, contam-se entre os muitos ilustres correspondentes de guerra que passaram por Espanha. De arma em punho, andaram por Espanha, entre outros, Georges Orwell, André Malraux e Simone Weil.
A acção do tenente Seixas não caiu no esquecimento. Filhos e netos do homem que incomodou dois ditadores, Franco e Salazar, assumiram a tarefa de honrar a sua memória. Filho de António Augusto de Seixas, Gentil de Valadares (1916-2006), nas suas «Memórias da Guerra Civil de Espanha», relatou as suas aventuras por terras da raia, tendo cumprindo, em conjunto com o irmão, Amável, a função de colaborador próximo do pai no apoio aos refugiados.
«A caminho de Safara, uma vez mais o meu pai desabafou (…) O que eles queriam – dizia ele convicto – era uma sangueira; era que os entregasse ao lobo de bandeja, que aproveitaria a noite para dar cabo deles… Tornava-se prático… Era só depois abrir uma vala e enterrá-los, na linha de fronteira… um escarro de sangue, ali, era o que eles queriam… Grandes pulhas: E andam na igreja a badalar com a mão contra o peito… Hipócritas!…» – relato das memórias de Gentil Valadares, incluído na obra ‘Barrancos na Encruzilhada da Guerra Civil de Espanha’, de Dulce Simões
Nas suas memórias, Gentil de Valadares fez referência às «listas negras» que os militares de Franco entregavam às autoridades portuguesas, incluindo Guarda Fiscal, com os nomes dos condenados à morte. Gentil, homem de convicções, foi também incómodo para o regime de Salazar, tendo sido detido pela PIDE, por encabeçar uma homenagem nacional ao escritor Ferreira de Castro.