Sete da tarde. Já vou sentindo que o relógio anda agora para trás e que o retrocesso das horas me traz más notícias do meu país. Vou sentindo que há uma humidade mais pesada no ar e que a humanidade que enchia as casas é agora substituída por esperas, angústias e desencontros. Vou à janela mais vezes por dia e mesmo o frio não me espanta para dentro.
Dou mais importância ao que bebo e, de copo cheio, fico a olhar pela janela pais a descobrirem filhos em casa. Vejo o senhor do prédio azul que já voltou do supermercado e que se apruma a estacionar o carro, para que esteja assim tão direitinho durante os muitos dias em que ficará parado. O pintor regressa do trabalho de bicicleta e só com uma mão no guiador… ela já sabe o caminho para casa e ele entrega-se ao cansaço. A rapariguinha mais nova foi correr de calções e nem quando a respiração a parece ultrapassar consegue parar para se recompor… disse-lhe a mãe quando saiu que antes do sol se pôr a queria em casa porque o mal do mundo acontece mais à noite.
De uma janela sai Caetano bem alto e eu agradeço ao vizinho num sorriso tímido, sem me apresentar. Vir à janela já é conhecermo-nos e querermo-nos bem. É mostrar a quem queira ver que sobrevivemos às garras da temporada que teima em não passar e que um espaço confinado não nos limita a nós.
Volto-me para encher o copo novamente. Da rádio sumida, os números saem mais uma vez depois das tantas vezes e já ninguém fala em pessoas. Somos resumidos a casos ou a dados estatísticos e os jornais repetem títulos. As notícias não o são e as vozes não dão alento. Parece que está tudo baralhado e tremido: as horas, os números e as vozes.
Volto à janela. Chamo a minha irmã.
– Chamaste-me?
– Chamei. Achas que o nosso vizinho que ouve Caetano gosta mais de verão ou de inverno?
– Acho que de outono, porque é um homem de vinho tinto.
– Porque dizes isso?
– Vi a mulher dele chegar a casa outro dia. Muito bonita. Ruiva. Trazia alguns legumes no saco e duas garrafas de tinto na mão.
– Sorria?
– Nem por isso.
– Mas achas que são felizes?
– Acho. Muito. Afinal, são eles que ouvem a música que te faz cantarolar, conformada, no fim de tarde à janela.
É urgente dar nomes às coisas e vida às pessoas. A esperança só é autêntica quando partilhada com a realidade e essa…bom… é o que é. Do que vemos, do que ouvimos, do que sentimos. Imaginar uma vida para os outros não é mais do que lhes dar esse dom. Numa altura em que até as horas já perderam o nome, não deixemos as vontades perderem as amarras.
Catarina Cambóias
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