Numa época em que as famílias numerosas eram parte da paisagem social portuguesa, Maria Adelaide Lopes construiu uma história de vida marcada pela entrega, resiliência e um profundo sentido de família. Aos 95 anos, mãe de 10 filhos, oito mulheres e dois homens, olha para trás com memória viva de um tempo exigente, mas repleto de significado.
Entre os 25 e os 38 anos, foi mãe dez vezes. Treze anos intensos que moldaram o seu percurso enquanto mulher e mãe. “Naquele tempo não era nada de anormal”, recorda, referindo-se à realidade dos anos 60, onde muitas famílias tinham vários filhos. Ainda assim, o quotidiano estava longe de ser simples.
“Criar 10 filhos nos anos 60 é muito diferente do que seria agora”, afirma. A sua rotina começava cedo e parecia não ter fim: “Tinha que fazer 11 camas todos os dias, tratar de uma quantidade enorme de roupa, preparar as refei ções… era eu que tratava deles.” Apesar de contar com alguma ajuda, especialmente em tarefas mais pesadas como lavar fraldas de pano, a responsabilidade principal recaía sempre sobre si.
Mas, para Maria Adelaide Lopes, o esforço nunca apagou a alegria. Pelo contrário. “Era uma casa cheia, havia sempre bebés… e os bebés são uns encantos.” A imagem que guarda é a de um lar vivo, cheio de movimento, vozes e afetos. Sem distrações tecnológicas, as crianças cresciam de forma diferente. “Não havia telemóveis nem computadores. Eles brincavam uns com os outros.”
A maternidade, mais do que um papel, foi o seu verdadeiro ofício. “O meu trabalho, ao contrário do que se passa hoje em dia com a maioria das mulheres, foi educar os meus filhos”, explica. Um trabalho constante, muitas vezes invisível, mas que exigia presença permanente. “Eu estava sempre lá quando eles precisavam. Acompanhei todas as fases do crescimento.”
Com oito filhas, admite que a dinâmica familiar tinha os seus desafios. “As mulheres são mais complicadas”, diz com um sorriso implícito nas palavras. “Muita mulher dá sempre alarido.” Ainda assim, nunca planeou ter uma família tão grande. “Nunca programei. Foi acontecendo, naturalmente.”
Ao longo da conversa, destaca também as diferenças entre gerações. Para Maria Adelaide Lopes, os pais de hoje enfrentam desafios distintos, mas há princípios que considera fundamentais. “Os pais têm que estar de acordo. Quando o pai diz que não, a mãe tem que dizer que não. E quando um diz que sim, o outro também tem que dizer que sim.” Na sua perspetiva, a falta de coerência pode trazer dificuldades na educação das crianças. “Se um faz a vontade e o outro não, é uma desgraça.”
Outro ponto que sublinha é a relação das crianças com a tecnologia.
“Hoje os miúdos estão muito ligados às novas tecnologias e, por vezes, não escutam os pais.” Considera que há também uma certa falta de paciência nas gerações atuais, algo que, na sua experiência, era essencial para educar.
Fez os 95 anos a 28 de abril, uma data muito próxima do Dia da Mãe, o que torna esta altura ainda mais especial. “É uma alegria ter a família reunida”.
Hoje, os papéis inverteram-se. Depois de uma vida dedicada aos filhos, é agora cuidada por eles. “Eu criei-os e agora ajudam-me bastante”, afirma com gratidão. É o reflexo dos valores que sempre procurou transmitir: respeito, educação e união familiar. “Tentei que fossem boas pessoas e bem-educadas.”
A família cresceu e multiplicou-se ao longo das décadas. Atualmente, conta com 22 netos e seis bisnetos, um legado vivo que se estende por várias gerações.
É nos mais pequenos que encontra ecos do passado. “Quando os vejo, lembro-me de quando tinha os meus 10 filhos pequenos em casa.”
No Dia da Mãe, o seu percurso relembra que, independentemente das épocas, há valores que permanecem intemporais: o cuidado, a dedicação e a importância da família.

