No passado sábado, dia 07 de março, teve lugar na Rádio e Televisão de Portugal (RTP) a final do Festival da Canção, do qual saiu vencedor o grupo Bandidos do Cante, com o tema Rosa. Este programa televisivo tem tradicionalmente servido para eleger o representante de Portugal para o Festival Eurovisão da Canção, ainda que o vencedor não tenho de o ser obrigatoriamente. Nos últimos tempos, têm surgido imensas polémicas associadas ao certame e a colaboração de alguns países tem sido incerta, dada a relutância da União Europeia de Radiodifusão (EBU) em adotar algumas medidas consideradas urgentes, seja pela participação de países que não respeitam os valores do programa ou por recorrerem a métodos de promoção injustos e desiguais. A participação de Israel na Eurovisão tem sido questionada há já alguns anos, no entanto, o conflito desencadeado em outubro de 2023 abriu as portas a um debate, sem
fim, sobre a inclusão do país no certame. Após a Grande Final da Eurovisão 2025, Espanha exigiu uma auditoria às votações do televoto, após a massiva quantidade de pontos atribuída à representante de Israel, e, posteriormente, propôs uma avaliação sobre a permanência deste estado no concurso. A votação foi agendada para novembro de 2025, mas não chegou a acontecer. A assembleia-geral da EBU decidiu não levar a participação de Israel a votação, mas sim somente um conjunto de medidas acerca da promoção desproporcional de canções para influenciar votantes pela parte de governos e terceiros – consequência das alegações de publicidade disseminada por Israel. A maioria dos membros da EBU concordou com esta medida, aceitando assim que a Eurovisão prosseguisse conforme planeado e mediante as novas salvaguardas.

Dessa forma, Espanha, Eslovénia, Irlanda e Países Baixos retiraram-se de imediato, mais tarde, a Islândia anunciou também o seu boicote ao certame europeu. A imagem de Portugal, mais especificamente a da RTP, não ficou bem vista perante os fãs do Festival Eurovisão da Canção, já que havia votado a favor das novas medidas, não se tendo pronunciado sobre a participação de Israel. Contudo, nenhuma presença é
garantida, já que é necessário que o próprio representante queira integrar o programa, pelo que a posição de Portugal, assim como a de outros países, ficaria em stand by. Uma vez anunciados os 16 participantes da 60.ª edição do Festival da Canção, quase todos assumiram o boicote ao programa não-desportivo mais visto do continente europeu, à exceção de três, que, todavia, não se haviam pronunciado. Um deles, surpreendam-se: Bandidos do Cante. Não parece coincidência que um dos vencedores seja, justamente, o grupo que não tinha adotado uma postura concreta? E antes de mais
nada, não, não estou a desvalorizar a vitória deste grupo, até porque não me é possível estabelecer uma comparação com os demais participantes, uma vez que não acompanhei o Festival na íntegra, este ano.

Mas bem, não visando, portanto, este artigo fazer qualquer tipo de análise às canções, vamos ao que me interessa trazer aqui. Pessoalmente, considero que Portugal se devia ter retirado do concurso ou, pelo menos, ter tido uma posição mais interventiva sobre a participação de Israel, já que, e isto é importante recordar, Portugal foi penalizado na Grande Final do Festival Eurovisão da Canção 2024, por a intérprete
Iolanda ter levado pintada nas suas unhas cores alusivas ao keffiyeh, uma peça de vestuário tradicional da Palestina. A atuação da artista não foi publicada nas redes sociais imediatamente após ter terminado e o trecho difundido foi o da semifinal. Ou seja, a própria comitiva da EBU tenta eliminar todos os signos palestinianos ou LGBT, pois o festival é e quer-se “apolítico”, no entanto, nada acontece quando claramente Israel está sob favorecimento e a quebrar, de maneira clara, uma série de regras, para não falar dos conflitos armados dos quais é coautor.

Face a isto, espera-se que os artistas utilizem a sua voz para mostrar o que está mal no mundo. E atenção, com isto não digo que têm, obrigatoriamente, de ter uma posição definida sobre todos os temas, mas creio que é altamente difícil ficar-se indiferente perante este cenário e, além do mais, quando estás inserido numa arma de arremesso que está a ser utilizada para branquear um genocídio. Logo, quando os Bandidos do Cante afirmam que “a nossa posição sempre foi musical e não política”, este argumento cai por terra quando aceitas participar num concurso todo ele político.

Esta afirmação relembrou-me o que dizia Melody (representante de Espanha na Eurovisão 2025) a respeito do tema; esta referia que queria falar de arte, pois era artista, então que não deveria nem queria falar de política, porque não era a sua área. As palavras não foram exatamente estas, mas o que é importante ressalvar é a ideia: tu não podes, enquanto figura pública, esperar que estas coisas te passem ao lado, caso contrário estás apenas a cobrir-te com o teu privilégio e a ignorar o contexto em que tu
próprio te inseres. Se tens voz e se tens visibilidade, ou seja, fama, isso não tem de servir apenas para te depositar milhares na conta e para ir lavando o teu ego; com isso vem uma responsabilidade, a responsabilidade de através da tua expressão artística trazeres à tua esfera temas pertinentes e atuais, que também afetam o âmbito cultural.

Porque no fundo, as bolhas não se separam. A cultura e a política não são indissociáveis, pelo contrário, relacionam-se diretamente. Nas declarações publicadas pelo Jornal Expresso, lê-se ainda “Se um dia o
público e o júri entenderem que uma canção nossa deve vencer, representaremos Portugal com responsabilidade, respeito e dignidade”. Vejamos, não há nada no regulamento que obrigue a que o vencedor do Festival da Canção represente o país no certame; é difícil sabermos se o público está a votar apenas para que o artista ganhe o Festival da Canção ou que, de facto, represente o país luso lá fora. Estamos a falar de vencer o Festival da Canção, o que, por si só, institui uma distância até à formalização
de participante na Eurovisão. Quiçá, a RTP apenas quis evitar uma série de problemas e polémicas, sendo mais fácil atribuir a vitória a alguém que não levantaria quaisquer ondas. Mas, não sendo eu de sensacionalismos, vou acreditar na vontade soberana do público, que certamente tem vindo a alterar-se de há uns anos para cá e isso tem-se verificado tanto nas tendências de voto como nas audiências, já que esta foi a final do Festival menos vista desde a vitória de Salvador Sobral em 2017.

Podemos ler ainda: “Levaremos connosco aquilo que nos define, o Cante, as raízes, a amizade e o sonho de levar o Alentejo aos quatro cantos do mundo”. Eu não sei bem até que ponto é que os espetadores do festival estão recetivos a tal, uma vez que o mundo tem atualmente problemas bem maiores. Além disso, acreditam de verdade que esse discurso é compatível com a atual situação em que se encontra a EBU e a Europa?

Válido, existe sempre aquela sensação de levar a missão de união e paz, que pode ser alcançada através da música, mas haverá abertura para isso? Simultaneamente, acabam por referir as raízes do Cante e que as querem levar com eles aos quatro cantos do mundo; suponho que saberão que o próprio Cante tem os seus traços políticos, porque no fundo é isso, qualquer manifestação artística é resultado de um gesto político.

Por fim, há que esclarecer que este artigo não é um ataque direto aos Bandidos do Cante. No fundo, como qualquer outro artista, querem vingar na indústria musical e viram uma porta abrir-se para o mundo diante de si, porém, a que custo? Qual teria sido a melhor atitude a adotar? Que imagem terá o país deste grupo? Mas a culpa não é transportada na totalidade por eles, a RTP leva consigo uma quota-parte também. É curioso como durante a final do Festival da Canção, pouco se falou na Eurovisão, parecia não existir entusiasmo por parte do corpo de apresentadores sobre a representação do vencedor, que ruma em maio em direção à Áustria.

Confesso que tive alguma esperança que acabássemos por recuar, não só por esta apatia, mas também pelo atraso do anúncio por parte dos canais oficiais do Festival Eurovisão da Canção. Entretanto, já é oficial: os Bandidos do Cante representarão Portugal em maio, no certame, e a RTP mantém a sua fiel colaboração.

Escrevo este manifesto enquanto alentejano orgulhoso das suas raízes e do legado sociocultural que lhe foi deixado. Mas também o escrevo enquanto cidadão, cidadão português, ibérico, europeu e do mundo. Se fico orgulhoso que o Cante Alentejano tenha sido classificado Património Cultural Imaterial da Humanidade? Sim. Se fico contente que tenha vencido um programa que tanto me diz e que possa ser escutado para lá de tantas fronteiras? Obviamente. Se posso compactar com um programa que se criou para promover a paz, a união e a tolerância entre povos e que agora está a branquear conflitos? Evidentemente que não. Portanto, isto não é sobre valorizar e orgulhar uma determinada região do país, nem é sobre a promoção de uma das expressões artísticas mais bonitas que possamos ter, mas sim sobre o número de pessoas que poderão nunca mais ouvir uma única canção, seja porque perderam a vida
ou porque o único som que ouvem frequentemente é o que provem dos ataques. Não se pode celebrar a música quando se despreza a vida e quando se ignoram os direitos humanos. Os Bandidos do Cante vão a Viena representar Portugal, mas certamente haverá umas quantas rosas menos a ouvi-los.

Carregar mais artigos relacionados
Carregar mais artigos por Redacção
Carregar mais artigos em Actual

Veja também

“Hoje treinamos”: plantel de “O Elvas” SAD regressa ao trabalho enquanto aguarda novidades

O plantel de futebol de "O Elvas" SAD voltou hoje, quarta-feira, 11 de março, aos treinos,…