
Esta sexta-feira Elvas recebe a primeira conferência sobre o papel das empresas na cultura. A iniciativa partiu do Coletivo Artístico 7350 com pronto acolhimento da Associação Empresarial de Elvas. As duas entidades pretendem caminhar juntas na construção de uma estratégia de benefício biunívoco, onde todos podem ganhar. E todos não são só os agentes culturais nem os empresários. É a comunidade, é o património e é a identidade, através de projetos e ideias concretizadas de forma inteligente e consistente.
Antes do primeiro debate publico sobre a vitalidade cultural no concelho convertida num ativo rentável, falámos com Luís Eduardo Graça, diretor do Coletivo Artístico 7350 para saber como se consuma e torna profícuo este enlace entre o tecido empresarial e o sector cultural.
“As empresas envolvidas na cultura” é o título da conferência que terá lugar na próxima sexta-feira, na Biblioteca Municipal de Elvas, e que propõe uma abordagem contemporânea da cultura, enquanto motor de identidade, inovação e coesão social. Tendo em conta a organização conjunta entre o Coletivo Artístico 7350 e a Associação Empresarial de Elvas, de quem partiu a iniciativa de levar este tema a debate?
Defendemos muito o trabalho em equipa, a colaboração e a partilha de ideias e tudo feito em relação como se fosse uma teia. É o trabalho que a 7350 tem vindo a fazer, conectamo-nos com vários parceiros. Mas tendo em conta isto, foi a 7350 que tomou iniciativa de ir falar com a AEE para fazermos algo e criarmos uma relação. A partir daí, foram propostas diversas ideias e a conferência é a primeira delas a ser executada. Nessa conferência, vamos oficializar esta relação com um protocolo com diversas ideias para impulsionar a relação do comércio com a cultura.
Então é o começo de uma parceria que pretende cimentar uma aliança entre a cultura e o mundo empresarial?
Exato, é um começo ainda pequeno para coisas grandes que queremos fazer em conjunto que finalizarão, esperemos nós, numa melhor valorização do mundo empresarial local e da cultura com coerência, rigor e identidade.
Pretendem consolidar a ideia de que a cultura também deve ser encarada como um ativo económico com potencial para Elvas?
Exatamente, a cultura em si, não é uma indústria, acredito eu. Mas a arte que provém e que se inspira dessa cultura, já pode ser vista como um ativo económico, até para sermos autossustentáveis e não depender sempre de apoios públicos. Precisamos é, inicialmente, de uma ajuda, para começarmos a desenvolver iniciativas que a população realmente quer e que também transmita o nosso sentido artístico.
Sentem que bateram à porta certa?
Sendo que a primeira porta que batemos foi a CME, sim. Em Elvas, “tudo” é da CME. Por isso, inevitavelmente teríamos de ir lá. A CME é a única entidade que apoia significativamente projetos “pilotos” com estrutura e com coerência. Nestas regiões! Agora, em relação a empresas, no âmbito local, é complicado e mesmo empresas maiores como a Delta ou Crédito Agrícola ou Indústria… Da nossa experiência (até com a CME) temos de bater à porta do nosso “amigo” e não de uma pessoa qualquer. E nas empresas ainda mais se acentua.
Referiu a necessidade de obterem ajuda, “que nos deem e apoiem em estruturas”. Refere-se a apoios financeiros, espaços…?
Acho que a tudo, seja patrocínios, bens materiais, apoio financeiros, cedências de espaço, cedência de uma noite num hotel, de um carro, de uma refeição. Tudo isto se resume a dinheiro e que é importante para pequenas estruturas, sobretudo, nestas regiões.
Estes passos que estão a dar estão na raiz da ambição e aposta numa cultura com amplitude?
Sim. Cultura e, sobretudo, numa valorização do setor artístico local e da nossa identidade, com condições de trabalho dignas, com programações coerentes e lógicas de trabalho profissionais.
Em Elvas surgiram recentemente várias associações ligadas à cultura. Isso significa que há um forte potencial nesta área, ou pode ser perverso?
Ambos. Primeiro tem de se perceber o que é realmente cultura e o que essas associações fazem mesmo em termos culturais.
Pode ser perverso no sentido, se se fizer cultura só porque sim, só para entreter os miúdos, só para prestar atividades à programação cultural do concelho e contas, só para se ser “conhecido”.
Neste caso, a 7350 trabalha, especialmente, com arte. (Faço este parêntesis porque a nossa associação é mais artística do que cultura, do que a maioria que existe em Elvas). A arte para nós, inspira-se pela cultura e responde a imensas porquês: porque é que é feito assim? Porquê ali? Porquê está cor? Porquê este filme? Porquê está tradição? Porquê o cante ao menino? Porquê o carnaval? É perverso se ninguém pensar nestes porquês.
A arte, hoje em dia, já tem imensos propósitos, começou por ser apenas um gosto ou não gosto. Mas começou a ganhar outras dimensões. Já não é só o cheirar, comer e tocar (que é o que nos permite gostar ou não). É também, mais do que tudo, atualmente, ouvir e ver (que nos permite refletir, pensar e agir). E penso que a cultura pode-se utilizar desta mesma dinâmica. Se formos fazer cultura só para comer, cheira e tocar, daqui a uns anos vem um novo hambúrguer e deixamos de comer o anterior, como já aconteceu com muitas tradições que acabam ou estão a fins. Mas se fizermos cultura com todos os sentidos do nosso corpo, a cultura poderá ser mutável, “atualizada”, reconhecida e renovada.
Será que toda a gente em Elvas sabe porque é que se toca a ronca? Ou donde a ronca surgiu? Será que todos na cidade sabem a origem do carnaval de Elvas? Ou simplesmente do bacalhau dourado, das ameixas, da sericaia… Contudo, isto é um problema geral, não é só em Elvas que isto acontece. Há imensa cultura que fica esquecida e arte que é desvalorizada, sobretudo nas nossas regiões. Não sei se me fiz entender bem. Mas neste sentido, tanto pode ser bom como pode ser mau, depende é da visão que estas associações tenham para a cultura e para a arte. Desde sempre Elvas, por causa dos militares, teve imensos grupos de teatro, música, cinemas, pinturas… E pode ser algo que poderá ressurgir, tem é de ser algo com pés e cabeça e bem planeado.
Agora, é de certeza um potencial, porque a cultura e a arte são estados de espírito e de beleza que muitas vezes não conseguem ser explicados e que nos transmitem imensas coisas. E se houver imensas associações a oferecer às pessoas isto, é uma super vantagem.
Tem é de haver, como para tudo, uma forte visão, estratégia e uma indispensável vontade política que muitas vezes está disfarçada como estando, mas não está.
Mais do que uma rutura ou uma revolução de pensamento, está a defender a necessidade de criar uma visão partilhada para a cultura em Elvas, assente no diálogo, na articulação entre associações, empresas e Município, e na valorização do património existente através de novas abordagens?
Acho que não é necessário uma revolução de pensamento, porque acredito que o pensamento esteja lá. É preciso, se calhar, parar, sentar-se, reunir com pessoas , perguntar porquês e como passamos esse saber, atualmente. O que é preciso, no meu entender, e até nas nossas Tertúlias falamos nisto, é juntarmo-nos, discutir formas e processos. É preciso cruzar abordagens e “cruzarmo-nos” uns aos outros, associações e CME para criar essa visão. Ainda no outro dia vi duas notícias que são exemplos perfeitos disso. Uma em Marvão, onde o Município se reuniu com o vizinho espanhol para estabelecerem planos de atividades e culturais. Outra em Borba, onde o Município reuniu com todas as associações para determinarem ações em conjunto. Em Elvas, nunca se fez isso. A 7350 junta-se com as restantes associações culturais, mas o que é que nós sozinhos podemos fazer aqui se o Município tem a estrutura toda. Não é que as associações culturais não estejam a fazer um bom trabalho, estão. É mais: deveriam trabalhar todos juntos, já que não temos estruturas gigantes, partilhar recursos quer materiais, logística ou humanos e ouvir ideias e processos para a cultura e a arte ser digna, coerente e profissional. Se há feiras de tudo e mais alguma coisa, se há imensas comemorações, se há imensos espaços culturais, porquê não fazer delegações de programação ou pensar essas programações com as associações. Isso no meu entender, renova a cultura, promove o concelho a nível nacional ou até mais, cria postos de trabalho, atrai turistas, fomenta o pensamento crítico. Tudo se trata de nos juntarmos e formarmos uma grande estrutura “informal” e de construirmos juntos tudo. Os resultados são sempre indiretos e, por isso é que a arte é sempre “o parente mais pobre de tudo”. Os únicos resultados diretos para um espetáculo ou algo assim é a felicidade, ou não, da pessoa no momento, e a bilheteira, mas a bilheteira quase nunca paga um espetáculo de forma digna. E a felicidade passado umas horas passa. Contudo, de forma indireta, e isso ninguém vê, vêm as inspirações, os temas de conversa, o turismo, as outras formas de arte, a mudança de pensamento…
Por exemplo, com a AEE, não foi preciso grandes conversas nem uma grande revolução de pensamento com a direção. Falámos, vimos o que era melhor para Elvas, falámos nos porquês e como. Precisamos é de mais momentos assim.
Relativamente à AEE, a conferência da próxima sexta-feira representa o primeiro resultado desta colaboração. Quem gostaria de ver na plateia a acompanhar o que vai ser apresentado e discutido?
Sei que o horário é difícil, mas os agentes culturais de Elvas deveriam fazer um esforço para estar presentes. O mecenato é uma ferramenta super importante para financiamento privado e é um bom momento para nos apresentarmos a quem tem poder para nos ajudar. Por outro lado, espero ver sócios da AEE e pessoas que representem o setor empresarial da região, para nos ouvirem, para saberem que ferramenta é esta ou então (e mais importante) apenas para verem que há cultura viva nesta cidade. Por fim, e um pouco polémico, mas agora sei que é impossível pelo estado de saúde, gostaria de ver o presidente da Câmara que nunca apareceu em nenhum momento cultural nosso em quase dois anos que estamos cá (para não falar dos nossos colegas agentes culturais a quem acontece o mesmo). Mas esperamos em breve, reunirmo-nos todos no Conselho Municipal de Cultura e Turismo que eles lá criaram.
Esta não é uma conferência só da 7350, é um momento de todas as pessoas que fazem cultura e precisam de ajuda para alavancar as estruturas e as iniciativas.

