Nas últimas semanas, as salas de cinemas têm-se enchido com todos aqueles que ficaram aprisionados no reino de Oz e expectantes, durante 1 ano, com a conclusão da saga Wicked. Friso, desde já, que este artigo não terá como objetivo apresentar uma crítica ao filme, mas creio que é importante, numa primeira instância, dar ao leitor um contexto da narrativa.

O auge do universo de Wicked, na verdade, tem dois momentos: o primeiro, e original, vem com o livro, um romance de 1995, com o título de Wicked: The Life and Times of the Wicked Witch of the West, escrito por Gregory Maguire; posteriormente, em 2003, o musical da Broadway Wicked: The Untold Story of the Witches of Oz confere- lhe uma visibilidade ainda maior. No fundo, o objetivo é sempre o mesmo, traçar a biografia da Bruxa Má do Oeste, que aqui tem o nome de Elphaba Thropp, mostrar que esta conotação é um produto da sociedade e que o bem e o mal não são dois polos totalmente opostos e estáticos.
Há sensivelmente um ano que penso em escrever este artigo, contudo decidi aguardar para ver o desfecho na grande sala do Auditório São Mateus (onde vi a primeira parte) e foi a melhor decisão que tomei, pois tanto numa parte como noutro vimos o confronto entre o dever e o ser das duas personagens principais.

Na primeira parte de Wicked, acompanhamos a chegada de Elphaba à Universidade de Shiz, um local onde esta acredita que pode ser compreendida e desenvolver o seu potencial enquanto feiticeira. Ao longo de toda a sua vida, esta foi constantemente ostracizada pelo seu tom de pele, tendo sido igualmente ignorada e privada de amor por parte do seu pai. Neste lugar, Elphaba vê a sua vida ganhar vários propósitos, no entanto, acaba por definir como principal a chegada à Cidade Esmeralda, onde conhecerá o Feiticeiro de Oz e assim conseguir a sua ajuda para terminar com a perseguição aos animais falantes. Qual não é o espanto de Thropp ao perceber que o Maravilhoso Feiticeiro de Oz é na verdade um charlatão, que não tem quaisquer poderes mágicos e que foi este quem levou a cabo a captura dos animais falantes, pois eram aqueles que colocavam em causa a sua farsa, dada a sua ancestralidade e
intelectualidade. A partir daqui conseguimos tirar diferentes conclusões e foram essas que fizeram
com que ficasse fascinado pelo filme: o retrato social e político dos tempos que correm.

Todos os ozianos vivem maravilhados com o seu líder, sem questionar a sua legitimidade enquanto tal. Esta questão é altamente alimentada e potenciada pela propaganda que é feita pela Secretária de Imprensa, Madame Morrible, também ela professora e diretora da Universidade de Shiz; é esta que assume o papel de manipuladora nesta narrativa, tentando aproveitar os poderes de Elphaba para conseguir decifrar o Grimmerie, um poderoso livro de feitiços que tanto Morrible como o Feiticeiro são incapazes de ler, e, ao ver que se recusa a colaborar com eles e os enfrenta, a professora constrói toda uma campanha de difamação e perseguição à jovem feiticeira, rotulando-a assim como “Bruxa Má do Oeste”.

Logo, constatamos que o “mal” pode ser uma questão circunstancial e, simultaneamente, de manipulação. Elphaba e os animais falantes foram vítimas de um sistema opressor, que os queria silenciar, pois eram os únicos que punham a sua manutenção e longevidade em causa, no fundo, aqueles que foram capazes de detetar as suas falhas e denunciá-las. Dessa forma, Morrible aproveitou-se da alienação do povo de Oz e da sua devoção ao Feiticeiro para iniciar uma campanha de demonização, já que
tanto Elphaba como os animais não estavam dispostos a subjugar-se ao sistema. Se no primeiro filme podemos, de alguma maneira, falar de uma tentativa de contextualização e definição do mal, em Wicked: For Good (a segunda parte) trabalha- se, de certa forma, a definição de bem. A meu ver, neste desfecho vimos com maior clareza o que se pretende mostrar ao espetador em termos políticos, uma vez que há
uma intensificação da propaganda contra Elphaba, uma maior exploração e controlo dos animais falantes e uma “marionetização” de Glinda, enquanto retrato de bondade, esperança e ânimo de Oz.
“Por muito que eu dissesse a verdade, as pessoas não iriam acreditar, porque elas não querem acreditar.”. Di-lo, quiçá não exatamente desta maneira, o Feiticeiro de Oz, quando confrontado por Elphaba, que exige que este conte toda a verdade aos cidadãos.

Ora, creio que este é um dos pontos chave do filme e um claro espelho da nossa posição enquanto seres sociais e políticos: a necessidade de crer em algo ou alguém. Uma das coisas que nos ensinam quando estamos a adquirir competências pedagógicas é justamente a nunca falar de política ou religião numa aula, por se tratar de temas subjetivos, delicados, mas também fraturantes, e cujo debate não tem fim à vista, já que o pingue-pongue de argumentos pode ser infinito. Os habitantes de Oz, tal como os
seres humanos do mundo real, necessitam de acreditar em algo para dar sentido à sua existência; e é isto que se pretende criticar, a forma como alguns charlatões políticos conseguem aproveitar as nossas fragilidades e a extrema necessidade que temos de progresso e estabilidade para nos levar a acreditar que eles são os nossos salvadores. “Não podemos deixar que o bem seja só uma palavra. Tem de significar alguma coisa.”. Creio que esta fala, proferida por Elphaba, não só traduz a mensagem principal
deste filme, como serve também de alerta para o nosso quotidiano. Há uns dias, enquanto refletia sobre esta questão, veio-me o seguinte pensamento à cabeça: “Hannah Arendt falava sobre a banalização do mal no início da segunda metade do século XX, poderemos nós, nos dias que correm, falar de uma instrumentalização do bem?”. Enfim, não sei se alguém já falou sobre isto, entretanto, peço desculpa, desde já, porém, se algum filósofo estiver a ler este artigo, creio que é um bom ponto de partida para algo, modéstia à parte. Terminadas as minhas habituais divagações, queria dizer que cada vez mais assistimos a uma utilização do conceito de bem para traçar uma clara distinção entre nós e os outros, porque na vida parece só haver bons e maus, não há meios termos, não há misturas, apenas aqueles que estão com os bons e aqueles que estão contra eles e que, por isso, devem ser excluídos ou eliminados, precisamente por seres maus. E finalmente, Elphaba e Glinda acabam por representar os golpes a este estado fascista e ditatorial, por serem as únicas capazes de reconhecer a orquestração levada a
cabo pelo Feiticeiro e por Morrible. No entanto, não deixa de ser curioso como ambas se confrontam com o dilema ser e dever-ser. Elphaba, por um lado, queria descobrir-se e ser compreendida, e acreditou que isso poderia acontecer com o Feiticeiro, ao mesmo tempo que queria salvar os animais falantes, uma vez que também eles estavam a ser perseguidos por serem diferentes e minoritários. Ao consciencializar-se da mentira que era o Todo-Poderoso, Elphaba tem a opção de se aliar a ele e assim encontrar um espaço onde é aceite e adorada, e, concomitantemente, respeitar o status quo de Oz; contudo, Elphaba não se rende ao esperado e acaba por se manter fiel aos seus valores e princípios, mesmo que isso implique a sua exclusão da sociedade. Por outro lado, Glinda acaba por se render, ainda que não de forma total, ao sistema, mas por acreditar que está tudo bem assim, que o Feiticeiro apenas quer o melhor para todos e porque este acaba por lhe garantir o lugar ao sol que ela sempre quis. A Bruxa Boa do Norte é, sem sombra de dúvida, a personagem mais interesse desta trama (não menosprezando a Elphaba, contudo é a típica heroína clichê), uma vez que começa por representar (e até ridicularizar) aquilo que consideramos supérfluo e patético, mas é a amizade com a feiticeira Thropp que faz com que ela entenda o verdadeiro significado do bem, olhe para além de si própria e priorize o bem-comum.
Maguire, em primeira instância, e posteriormente Holzman e Chu constroem nada mais que uma realidade distópica, onde reina uma ditadura, na qual a propaganda é o principal meio para cativar e ludibriar a população e onde um nicho minoritário é perseguido e silenciado, porque desafia o sistema, colocando em causa a sua permanência. Wicked não é um filme incrível, é um facto, tem as suas falhas;
infelizmente, a produção cinematográfica das massas privilegia outros aspetos que não a qualidade da própria produção. Ainda assim, pormenores estéticos à parte, esta saga manifesta uma elevada relevância na nossa sociedade pelo retrato que faz da mesma. Os extremos estão a voltar a ganhar terreno, tal como ocorreu no século passado, e, à semelhança do ocorrido, a propaganda continua a ser a arma de manipulação mais utilizada, com promessas falsas, com salvamentos garantidos e, acima de tudo, com
afirmações de que vale a pena acreditar neles, porque eles (e nós) são os bons e os outros são os malvados, porque neste jogo ou estás com eles ou contra eles, seja porque não acredites ou porque fazes parte da minoria que questiona. Dica de amigo: questiona sempre! E quiçá consigas mudar para melhor e ter uma chance para voar.

Carregar mais artigos relacionados
Carregar mais artigos por Redacção
Carregar mais artigos em Destaque Principal

Veja também

Os Bandidos do Boicote

No passado sábado, dia 07 de março, teve lugar na Rádio e Televisão de Portugal (RTP) a fi…