Entrevista a José Eurico Malhado, candidato do Chega à Câmara Municipal de Elvas

José Eurico Malhado nasceu em Vila Boim há 61 anos, é casado e tem dois filhos. “Profundamente enraizado na terra natal, apenas o vaivém da profissão que exerce (consultor de vendas no ramo automóvel há mais de três décadas) o afasta transitoriamente do local onde vive, e para onde volta sempre ao final do dia.
A força centrípeta que o suga para o ponto de origem, resulta ainda de um compromisso assumido com a área social. José Eurico Malhado é desde 2013 presidente da Associação de Assistência de Vila Boim, uma IPSS que engloba lar e infantário e que classifica “de grande relevância para a freguesia e para o bem-estar da sua população”. Mas a participação ativa na comunidade onde pertence não se esgota por aqui. Também, durante 12 anos, exerceu atividade política como membro eleito da Assembleia de Freguesia de Vila Boim.
Foi essa experiência, exercida “com o propósito de defender os interesses da terra que me viu nascer”, que semeou nele a vontade de, “com determinação, continuar a trabalhar pelo desenvolvimento da freguesia e do concelho”. O terreno arável para a concretização desse objetivo está para lá das fronteiras de Vila Boim. A Câmara Municipal de Elvas é o próximo patamar que pretende alcançar. José Malhado ambiciona vir a ser eleito presidente do Município no próximo dia 12 de Outubro. Corre a distância que o separa da meta com o dorsal do Chega, partido que representa como independente, mas é com o eleitorado com quem se compromete, anunciando “o firme propósito de representar os cidadãos e de lutar pelo futuro da nossa terra”.
Em discurso introdutório, o estreante candidato do Chega, habituado a outras competições que põem à prova a força e a coragem (foi presidente e membro do Grupo de Forcados de Vila Boim e jogador de rugby), anuncia a intenção de medir forças com os adversários, comprometido com “a verdade, a seriedade e o futuro do concelho”. Depois, José Eurico Malhado demarca-se com veemência de “comentários ou especulações sobre eventuais parcerias com o Movimento Cívico por Elvas”, e repudia “críticas do adversário do PS” sobre a sua capacidade em vir a ocupar o cargo de presidente da Câmara. Destaca que não vem sozinho, porque entende que “liderar uma autarquia é um trabalho de equipa”, e pede para “ser avaliado não pela falta de experiência como presidente”, mas pela sua “dedicação, vontade de trabalhar e de colocar os elvenses em primeiro lugar, porque Elvas merece mais e eu estou pronto para servir”.
José Eurico Malhado apresenta-se a sufrágio no próximo dia 12 de Outubro acompanhado por José Eduardo Gonçalves (Bi Gonçalves), candidato a presidente da Assembleia Municipal. O partido concorre a todas as Juntas de Freguesia do concelho de Elvas. António Abrantes é o mandatário da campanha. “A Mudança Necessária” é o slogan da candidatura do Chega.

Com os resultados das Eleições Legislativas de 18 de Maio de 2025 a fervilhar na memória dos elvenses, surpreendidos pela implacável vitória do Chega, que convenceu 43,51% dos eleitores (4795 votos), seguido, a longa distância, pelo Partido Socialista, escolhido por 22,98% dos votantes (2532 votos) e pela coligação PPD/PSD – CDS-PP que mereceu a confiança de 21,41% dos cidadãos (2359 votos), a força política fundada pelo carismático André Ventura faz-se temer e respeitar nas próximas Eleições Autárquicas. Com muitos a darem como certo que são atos eleitorais diferentes, convictos de que desta vez o Chega não irá vencer, outros há que acreditam que vai continuar a surfar a onda. Sem certezas absolutas, o que o povo também costuma dizer, é que “isto não são favas contadas”, cedendo espaço à prudência das opiniões e à necessidade de cada um dos candidatos se esmerar na sedução do eleitorado.
Posto isto, José Eurico Malhado, o candidato do Chega à Câmara de Elvas, é o homem que todos observam, na expectativa do provável e do improvável. É porventura (e por Ventura validado) o homem mais posto à prova, com todos a querem saber por que motivo se candidata, e o que traz da manga. Em resposta, o candidato do Chega, relembra o seu percurso político e cívico, destacando 12 anos como eleito do PSD na Junta de Freguesia de Vila Boim. Após uma pausa na política, continuou dedicado à vida pública através de uma causa social: a recuperação do lar local, que enfrentava dificuldades financeiras. “O lar de Vila Boim tinha 280 mil euros de dívida e ninguém queria ir para a direção. Mais uma vez, abracei uma causa social.” Sob sua liderança, diz José Malhado, o lar passou de dívidas a excedentes. “Hoje, posso dizer que tem 200 mil euros no banco, comprámos carros, fizemos obras e temos os fornecedores todos em dia.” Considera que esse lastro pode ser colocado ao serviço do concelho. “Elvas é uma cidade adormecida no tempo. Precisa de sangue novo, de pessoas com visão além-fronteiras.” Critica a falta de desenvolvimento industrial, responsabilizando os executivos socialistas: “Durante 30 anos não se criou uma zona industrial para atrair empresas.” Reconhece méritos do atual executivo, mas defende mudança: “Vamos aproveitar o que foi bem feito, limar as arestas do que foi mal feito e eliminar o que está errado.” Em relação ao compromisso com os eleitores, é claro: “Dêem-nos esta oportunidade. As pessoas têm que nos julgar durante os quatro anos. No fim, vão dizer: ‘estes não foram como os outros”.

O alargamento do PDM no topo das prioridades

Questionado sobre a área prioritária, caso venha a assumir a presidência da Câmara Municipal de Elvas, José Eurico Malhado aponta o Plano Diretor Municipal (PDM) como o tema mais urgente: “O PDM é a bíblia da Câmara Municipal de Elvas”.
Critica fortemente “a inércia” do atual executivo, alertando para o risco de perda de financiamento estatal: “Estamos em Agosto de 2025 com o ano a findar, e a atual executiva demora. Fala em “burocracia, ineficácia e falta de ideias políticas adequadas.” E reforça: “A data final é 31 de Dezembro de 2025. Se o PDM não for aprovado até lá, o Estado pode não entregar nada à Câmara.” Assinala ainda o impacto direto do PDM na vida da população: “Estamos a jogar com muito dinheiro, com a saúde das pessoas, com a habitação das pessoas.” A agricultura surge como área especialmente afetada pelo atraso e desatualização do PDM: “A agricultura é o principal setor de atividade do concelho. O PDM tem de ser alterado, é urgente.”
Explica que o atual plano restringe a instalação de culturas permanentes fora do perímetro de rega do Caia, impedindo o desenvolvimento agrícola. Alerta para as consequências graves desta limitação: “Isto é a morte de grande parte dos agricultores.”

Área social: criação de um gabinete de apoio técnico e o fim do trabalho socialmente útil dos bolseiros

Na área social, sector a que é particularmente sensível, o candidato do Chega garante que manterá todos os apoios vigentes e que até podem vir a reforçar alguns”, mas com mais rigor e imparcialidade. “Uns não são filhos e outros enteados. O apoio social tem de ser isento, independentemente da cor política.”
Critica a desigualdade na atribuição de ajudas e a ausência de respostas a situações urgentes. “Fiz uma obra de 150 mil euros no lar de Vila Boim e a Câmara não deu um centavo.” Defende a criação de um gabinete de apoio social técnico, com foco em casos como o autismo: “há quatro psicólogas na Câmara, mas não há um gabinete de apoio às famílias.”
Sobre as bolsas de estudo, aponta problemas de burocracia e exclusão injusta: “Há alunos que perdem a bolsa porque os papéis não entram a horas.” E propõe a simplificação dos processos: “Vamos desburocratizar.”
Considera o valor atual das bolsas insuficiente: “A Câmara atribui 150 euros, devia dar mais.” E rejeita a ideia de obrigar estudantes a trabalhar nas férias: “Isso é a pior coisa que se pode fazer a um estudante.”
Aponta a desmotivação e subaproveitamento dos trabalhadores dos serviços camarários e promete avaliar todos os departamentos. “Não vamos despedir ninguém, mas vamos reorganizar. Há bons profissionais na Câmara que estão desmotivados.”
Defende uma política de progressão justa: “Se quatro trabalham no mesmo gabinete, os quatro têm de ser aumentados. Não por serem primos ou amigos de alguém.”

Saúde: “disponibilização de habitação temporária para médicos e enfermeiros”

Na área da saúde, o candidato do Chega reconhece que os problemas são nacionais, mas agravados no interior do país, como em Elvas. Aponta como exemplo a decisão da ULSAALE de instalar uma máquina de TAC em Portalegre, quando tinha sido acordado que seria colocada no Hospital de Elvas. “O presidente da Câmara devia ter-se oposto. Se o senhor Rui Nabeiro fosse vivo, a máquina nunca sairia de Elvas.”
Admite que há falta de médicos e enfermeiros e acrescenta que já presenciou situações graves no hospital de Elvas, com utentes a esperarem horas sem resposta eficaz.
Embora a saúde não seja competência direta da Câmara, defende que o município deve intervir, por exemplo, “através da disponibilização de habitação temporária para médicos e enfermeiros”. Refere duas vivendas da ULS, atualmente degradadas, que poderiam ser recuperadas com apoio da autarquia. “Não faz sentido um médico vir trabalhar três dias para Elvas e ter de pagar 400 euros de alojamento.”
Aponta também falta de organização e critica alegadas situações de desigualdade no atendimento. “A igualdade tem de ser para todos. Não podemos continuar a permitir que uns passem à frente de outros só por favoritismo.”
Defende que a Câmara deve assumir um papel mais ativo, cooperando com a ULSAALE, pressionando quando necessário e criando condições para fixar profissionais. “Há falhas de gestão mas não é só isso: há falta de vontade política e coragem para defender Elvas.”

Empresas e Emprego: “Não precisamos de ir todas as semanas a Lisboa vender Elvas. Elvas vende-se sozinha”

Para o candidato do Chega, a falta de investimento empresarial em Elvas resulta de uma má estratégia na criação e gestão da zona industrial, que, segundo afirma, “foi pensada para serviços e não para grandes empresas”. Critica a especulação na venda de lotes e a ausência de regras claras: “Houve quem comprasse barato e vendesse caro, e muitos terrenos continuam sem nada construído. A Câmara devia ter imposto prazos para construir, senão perdiam o direito de venda.”
Acusa os anteriores executivos de falta de visão e compara negativamente com o exemplo de Campo Maior, onde, segundo refere, têm sido criadas condições atrativas para o investimento. Cita o caso recente de uma empresa de suplementos nutricionais que procurava 10 mil metros quadrados. “Em Elvas disseram que não havia. Em Campo Maior arranjaram o terreno em pouco tempo, a 5 euros o metro quadrado, e vão investir até 28 milhões de euros.”
Defende que Elvas tem todas as condições para crescer – localização estratégica, potencial humano e histórico – mas falta infraestruturas adequadas. “Não precisamos de ir todas as semanas a Lisboa vender Elvas. Elvas vende-se sozinha, se tiver um parque industrial bem preparado. E é aí que vamos começar.”

Habitação: projeto “Casa Porta de Entrada”

José Eurico Malhado defende uma intervenção urgente na área da habitação, criticando a ineficácia da Câmara em apoiar quem realmente precisa. “Quando uma pessoa vai à Câmara pedir uma casa, isso connosco não vai acontecer.” Anuncia o projeto “Casa Porta de Entrada”, que prevê apoio temporário (com renda, água e outros encargos pagos pela autarquia durante dois anos) para famílias sem recursos, mediante critérios rigorosos. “É uma ajuda transitória, não é uma casa para a vida.”
Identifica várias casas devolutas, como as antigas da Guarda Fiscal na Boa Fé. No Caia propõe fazer uma intervenção de modo a suavizar o “mau impacto visual do abandono das casas. Dá pena ver aquilo cheio de mato, com um cartaz a dizer ‘Elvas – Património da Humanidade’ ao lado.” Garante que, se for eleito, a intervenção será imediata: “Aquilo vai ser limpo e transformado numa zona de lazer. É a entrada de Elvas, tem de ter uma imagem digna.”
Critica ainda a falta de oferta e dinamismo na cidade, sobretudo aos fins de semana. “Está tudo fechado. É reflexo da inércia da Câmara. E é isso que queremos mudar com sangue novo e vontade de fazer.”

Centro histórico: “Não basta fazer festas em Agosto e no Natal. O centro precisa de vida o ano inteiro.”

O candidato do Chega defende uma intervenção firme na reabilitação do centro histórico de Elvas, alertando para o risco de perda do estatuto de Património Mundial. “Há casas devolutas, telhados a cair e até árvores a crescer nos edifícios. É o coração da cidade e está ao abandono.”
Propõe incentivos à reabilitação, fiscalização de imóveis degradados e mais dinamização cultural ao longo do ano. “Não basta fazer festas em Agosto e no Natal. O centro precisa de vida o ano inteiro.”
Critica também a carga fiscal e a burocracia da Câmara: “Deviam isentar o IMI no casco antigo e cobrar só 25% nas licenças, como manda a lei. Mas aqui cobram tudo.” Aponta ainda atrasos nos processos e falta de digitalização. “Pedir um parecer demora semanas. E se for urgente, paga-se mais… e continua a demorar.”
Conclui com uma promessa: “A Câmara tem de ser amiga das pessoas. Com o Chega, vamos simplificar, acelerar e apoiar quem quer recuperar Elvas.”

Educação e escolas: reposição da gestão direta das cantinas

O candidato do Chega mostra-se preocupado com as condições nas escolas do concelho de Elvas, apontando falhas na gestão, na manutenção e na qualidade dos serviços prestados. “As nossas crianças têm de crescer com saúde e alegria, e os nossos idosos devem morrer com dignidade.”
Refere casos concretos, como a situação na escola de Vila Boim: “Os ares condicionados estão avariados, o pátio é de terra, não há baloiços, e o bullying acontece. Mas a direção diz que está tudo bem. Não conhecem a realidade no terreno.”
Critica ainda os contratos de fornecimento de refeições escolares através de empresas externas: “A comida não presta. Os miúdos saem da escola e vão comer hambúrgueres. Se a comida fosse boa, ficavam lá.” Para resolver, propõe que a Câmara assuma a gestão direta das cantinas: “Temos mão de obra, temos estrutura, e assim também damos estabilidade aos trabalhadores.”
Aponta também falhas na política de pessoal: “Estas empresas contratam e ao fim de seis meses despedem, para não fazerem contrato. Assim ninguém trabalha motivado.”

Turismo e segurança: colmatar falhas básicas, reforçar a autoridade das forças de segurança e exigir mais efetivos

O candidato defende que, no setor do turismo, Elvas precisa de mais do que boas intenções – é essencial criar infraestruturas adequadas e garantir formação e remuneração digna para quem trabalha no setor. “Não se pode ter alguém à porta de uma igreja apenas para abrir e fechar, sem saber explicar o que ali está”, afirma, sublinhando que as pessoas devem ser formadas e bem pagas. Aponta também a falta de casas de banho públicas, postos de turismo fechados ao fim de semana e comércio encerrado como sinais de uma cidade impreparada para receber turistas. Propõe, por isso, isenção de IMI para o comércio no centro histórico e aposta em ferramentas como flyers, mapas e QR codes para melhorar a experiência turística.
Sobre a segurança, considera que as forças policiais estão desprovidas de autoridade e agem com receio. Relata “ocasiões em que a polícia demorou a intervir ou não apareceu, mesmo em casos de desacatos. “Há situações em Elvas onde a polícia chega tarde ou nem aparece. Já vi desacatos no hospital e no centro histórico em que nada foi feito. Às vezes, os agentes preferem ficar no carro a multar quem sai de um bar, o que é errado e ajuda a liquidar o pouco comércio noturno que existe. Mas também é certo que os agentes têm medo de atuar porque depois são eles os processados”, diz, defendendo que a Câmara deve pressionar o Governo Central por mais efetivos e mais poder de atuação. Segundo o candidato, há pessoas com medo de sair à rua e a cidade perdeu vitalidade noturna por falta de segurança. “É urgente dar força à polícia”.

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