Hoje assinala-se a luta histórica das mulheres pela igualdade de direitos, por melhores condições de trabalho e pela cidadania. É essencialmente no mundo ocidental em que vivemos que essas conquistas ganharam força. Foi aqui que a sociedade evoluiu e se tornou permeável a uma mudança natural, na qual, legalmente, o género deixou de ser um elemento de discriminação.
Todo o caminho percorrido para lá chegar deve ser lembrado, honrado e agradecido. Foram as várias gerações de mulheres que nos antecederam as responsáveis por derrubar preconceitos, enfrentar a crítica social e encher-se de coragem para conquistar paridade e autonomia de decisão. Nós, como herdeiras e beneficiárias, devemos-lhes respeito, tributo e envolvimento na defesa e continuidade dessas conquistas, que estão longe de ser universais.
Apesar dos avanços alcançados, a igualdade de género ainda está longe de ser uma realidade. A nível mundial, as mulheres possuem apenas cerca de 64% dos direitos legais dos homens e nenhum país atingiu ainda a igualdade plena. Persistem falhas nos sistemas de justiça, desigualdades no trabalho e na liderança e níveis elevados de violência contra as mulheres. Portugal encontra-se abaixo da média da União Europeia em matéria de igualdade de género. Mantendo-se o ritmo atual de progresso, poderá levar mais de um século até que a igualdade global seja alcançada.
Atingir essa meta é uma tarefa individual para a qual estamos todas convocadas. O feminismo dos tempos atuais é a continuação de um caminho que alguém começou a desbravar e que, em 2026, apresenta um nível de exigência e desafios diferentes das lutas das mulheres trabalhadoras do final do século XIX e início do século XX, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos.
As mulheres de 2026 estão frequentemente na liderança de famílias monoparentais, a gerir uma carreira, a orientar a educação dos filhos, a cuidar do corpo e da imagem e a investir em formação. Esticam as 24 horas do dia e, com isso, dão um contributo inestimável para uma sociedade em aceleração.
O exemplo de cada uma de nós, que estamos neste patamar, poderá ser catalisador para todas as outras que ainda não têm a oportunidade ou as condições para estar onde ambicionam.

Nas vésperas do Dia da Mulher, o universo enviou-me em bandeja de prata matéria de orgulho para celebrar esta efeméride com um exemplo inspirador: a materialização do esforço de uma mulher de grande valor que, com determinação, coragem e perseverança, decidiu que nunca é tarde para reescrever o próprio caminho.
A foto da minha amiga, a integrar o corpo clínico do Grupo CUF, publicada na página web daquele que é um dos maiores grupos privados de saúde em Portugal, fez-me explodir de orgulho e despertou em mim a vontade de a apresentar como exemplo de energia telúrica, tenacidade e resiliência.
A Marilinda Gravito, natural de Elvas, é podologista, licenciada pela Escola Superior da Cruz Vermelha Portuguesa, aos 49 anos, com média final de 17 valores. O bacharelato em Assessoria de Administração que obteve previamente não lhe trouxe a realização profissional que ambicionava: trabalhar na área da saúde, num domínio que a fascina e onde ainda há muito terreno para desbravar. Serviu-lhe sobretudo para trabalhar num escritório de contabilidade em Lisboa, garantindo o sustento e financiando o curso que passou a ocupar um lugar central na sua vida.
Mãe muito jovem, a Mari foi adiando o sonho depois de uma primeira separação, colocando os filhos e as responsabilidades da maternidade à frente de si própria. Depois da filha formada, regressou à faculdade ao mesmo tempo que o filho. Trabalhou com afinco, roubou horas ao sono e conseguiu estar entre os melhores alunos do curso.
Já profissionalizada, não colocou travão à vontade de ir mais longe. Seguiu-se o mestrado em Investigação Clínica, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e especialização em Pé Diabético, na Universidade Complutense de Madrid. Depois veio a colocação na Unidade Local de Saúde do Oeste e a entrada para o Grupo CUF, onde dá consultas em várias unidades hospitalares. Em simultâneo, avança na investigação, com presença assídua em congressos e jornadas internacionais de reumatologia, onde tem apresentado comunicações (posters) que dão conta do trabalho que está a desenvolver, nomeadamente um projeto de sapatos terapêuticos.
Em fase de conclusão está a tese de mestrado, centrada num estudo pioneiro sobre doenças neurológicas.
Na vida privada, a Mari, do sorriso radiante que lhe desenha umas preguinhas graciosas no nariz, continua a ser o pilar da família: mãe orgulhosa, avó apaixonada, dona de um humanismo e de uma boa disposição verdadeiramente cativantes.
Uma mulher modelo. O exemplo que me orgulho de dar neste Dia Internacional da Mulher.
