O luto é um estado privado. Pessoal. Tem tantas formas e feitios de se pronunciar consoante o carácter de cada um, e o impacto em si. A perda imprevisível talvez seja a mais violenta, e por isso, capaz de nos arrancar uma disparidade de reações.  

A morte inesperada, além de causar a dor lancinante de uma lâmina afiada a cortar as veias, mas com um jorro hemorrágico irreversível,  além de nos retirar abruptamente alguém, ainda nos dá a noção da aceleração da vida, da nossa própria finitude e da impreparação para lidar com isso. E não se trata  do medo de morrer, trata-se de falta de sustentabilidade na gestão do tempo.
Somos maus gestores da vida. Estamos encalhados em angústias, compromissos e tarefas que nos sugam e desviam do mais importante: de nós próprios e dos nossos, sendo que este vocábulo é elástico, expansível. “Nossos” são todos e tudo o que está ao nosso alcance e nos pode melhorar e ajudar a deixar uma boa marca nesta passagem pela vida.

E se há algo que nos enriquece profundamente, que nos alivia as dores e nos apazigua os medos, as falhas e as frustrações, é a amizade. A amizade é talvez a expressão mais serena do amor.
Os nossos amigos são os nossos amores, sem a perversidade do amor romântico. Querem-nos e estão para nós de forma desobrigada, perpetuamente disponíveis, ainda que física e temporalmente distantes.
São o recurso, a comunicação clara isenta de acidez interpretativa, a opinião honesta sem crítica maligna, o 112 que chega sempre a tempo das nossas urgências, a gargalhada solta, o abraço, o amparo, o kleenex que absorve as lágrimas, o orgulho em nós e o nosso orgulho neles. Um pilar imprescindível.

Não admira por isso que a morte de um amigo nos esfole, nos arranque um pedaço, que se eleva e volatiliza com ele. Não é verdade que quando morremos não levamos nada. Levamos sim. Vamos com  fragmentos de amor, com partes dos que cá deixamos e que ficam a sangrar, em ferida. É daqui que emerge a eterna saudade que com o tempo cicatriza, mas deixa marca.

Sei do que falo, porque perdi um amigo. Não foi hoje, nem ontem. Foi há semanas. A notícia amarga da morte do José Silva sacudiu-me, encheu-me de lembranças, avivou-me episódios, fez-me chorar e rir, levou-me a um lugar recôndito e fez-me sentir saudades dele e de mim. Também me fez questionar se fui suficiente como amiga.

O José Silva converteu-se numa figura incontornável de Elvas, pela ligação à Comunicação Social, ao longo de décadas, e também pelo expressivo talento como fotografo. De objetiva constantemente apontada à sua amada cidade, a beleza de Elvas ganhou amplitude nos milhares de fotos que o Zé fez, e que foi partilhando nas suas páginas nas redes sociais, e em vários grupos. A sua morte prematura, a 23 de Dezembro, foi por isso notada e sentida em Elvas.

Embora extremamente reservado  e discreto, o meu querido amigo, ganhou notoriedade. Não que o quisesse, mas por consequência natural. O poder da imagem bem conseguida, assim o determinou. “Mas há um lado privado que poucos conheceram e que não cabe na memória pública. É desse lugar, mais íntimo e silencioso, que me sinto hoje chamada a falar, pelo privilégio e gratidão de constar na lista das suas amizades seletivas.

Há um dedo orientador do José Silva no que sou profissionalmente. Foi ele  que me selecionou, acreditando nas minhas capacidades postas à prova numa tarde onde dei corda à minha irreverência, quando casualmente fui desafiada a ir fazer testes à antiga RDP Rádio Elvas.

Com a leveza própria de quem tinha acabado de chegar da adolescência, sem medos nem tremores, li umas notícias fluidamente e sem me engasgar, ganhando a simpatia do júri e o convite de voltar no dia seguinte para começar a aprender.

Durante anos, ouvi o Zé reproduzir-me a frase que pronunciou depois de me ouvir: “já agarrámos uma”. E de tal forma foi, que no dia a seguir lá estava eu, com grande  efusividade e uma vontade descontrolada  de me fazer a um lugar que 24 horas antes desconhecia existir, e que me iria amarrar.

O Zé, como técnico de som pertencente aos quadros da RDP, era o responsável pela sonoplastia. Tinha poder de decisão. E exigência. Também era criterioso na forma como se relacionava com os colegas, principalmente com os jovens que por ali desfilavam à procura de uma oportunidade. Eu consegui. Um lugar e cativá-lo. Lembro-me de lhe ter arrancado uma gargalhada quando me pôs a ouvir a minha voz gravada, o que me causou grande estranheza e me fez dizer-lhe  que “tinha voz de acne”.  

Foram preciosos e em catadupa os ensinamentos que me transmitiu. Com ele aprendi o  que era um RM, uma gravação que ilustra uma notícia. Ensinou-me a manobrar o estúdio auto-operado onde fazíamos autonomamente as emissões, sem necessidade de  um técnico de som. A cada dia tornei-me a “aluna dileta”, beneficiando de ajuda permanente. Foi com ele a dar-me dicas que fiz as primeiras reportagens no exterior. Era a primeira a estrear os discos que chegavam das editoras. Construímos “playlists” que ele gravava em cassetes, e mais tarde em pen drive, e que depois ouvíamos juntos.  Num ápice passei de “aluna” a amiga. Sem que isso o impedisse de me corrigir, orientar e por fim incentivar a galgar para o nacional, para a Antena 1. Conquistei esse lugar, onde permaneci durante  mais de dois anos, já como jornalista. Acabei por sair, sem me voltar a cruzar com Zé, quando também ele seguiu para Lisboa na altura em que a RDP encerrou as delegações locais. Mas foi através dele que me mantive em contacto com a rádio pública e com antigos colegas e amigos que lá fiz. Primeiro nas Amoreiras e mais tarde na Marechal Gomes da Costa, ia ter com ele e por sua mão, encontrava-me com antigos companheiros de trabalho. Também assistia à admiração que todos tinha pelo trabalho do Zé. Era um dotado! Um profissional ímpar, desenvolto, à frente da tecnologia que sabemos que não para de evoluir. Estimado pelos colegas da técnica, chefias, locutores, jornalistas, artistas de renome. Numa casa onde quase sempre os seniores ou chegam a chefes, ou são chamados a negociar a saída, o José Silva permanecia no mesmo lugar, desejado em todos os turnos, com a liberdade de gerir o tempo em seu benefício, dilatando horários, fazendo trocas, para poder voltar a correr para Elvas. A sua amada Elvas!

Não é verdade que o Zé não tinha amigos em Lisboa. Tinha! Era assíduo dos eventos organizados pela Casa do  Pessoal da RTP, alinhava com os colegas, era solicitado para almoços, jantares, e comparecia. Quando a saúde lhe falhou, gerou preocupação, quando partiu, deixou todos em choque, emocionados e empobrecidos. Como eu!  

Nesta já longa crónica, onde não cabem todas as lembranças que me deixou o meu querido amigo, assumo que há uma autoscopia. Revejo-me a mim mesma, o que sou, a minha evolução, o crescimento, o amadurecimento. Aumento o foco nos momentos que passámos juntos, onde sobressaem as viagens para Lisboa com disponibilidades acertadas para nos fazermos companhia um ao outro. As saídas à noite, os jantares, os amigos que me trouxe generosamente, numa partilha fraterna, as conversas, as ideias de realizar projetos a dois, juntando a arte da  fotografia, com a aptidão para a escrita. A entrevista que me concedeu para o Linhas de Elvas aquando da sua primeira exposição de fotografia, deixando-me fotografá-lo, ensinando-me a fazê-lo… É claro que nada disto foi linear. Houve alturas de maior constância, outras de maior afastamento físico. Não por esquecimento, ou por negligência. Apenas porque a amizade é assim: desobrigada, solta e leve, garantida e imune à erosão do tempo.

Depois de dito o essencial, recuo para o pensamento privado. Para as imagens do José Silva que se sucedem na minha cabeça e que trazem  de volta os tempos bonitos que passámos, sem riscos nem marcas das marcas dos outros. Procurando até afastar a ideia de que a dado momento é possível que as nossas pessoas nos venham a ser subtraídas.

Só há mais um pensamento que partilho: que destino terão os milhares de fotos que o José Silva tinha  da sua tão amada Elvas? Estarão acessíveis à família que amorosamente o acompanhava? Se sim, poderá a cidade  prestar-lhe o devido tributo e mostra-se honrada em oferecer um lugar digno e visível para conservar e mostrar tão admirável talento? Gostava que assim fosse.

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