Temos escrito algumas notas que apontam a dimensão social e económica da comunidade elvense e da região do Alto Alentejo ao longo dos séculos. Ainda não nos tínhamos dedicado, porém, a tentar compreender a dimensão artística no mundo rural. E confirma-se a pujança.

O conceito de “belas-artes” é usado no século XVIII e pelo pintor e arquitecto que vamos citar no seu sentido clássico que abrange a pintura, escultura, arquitectura, gravura e música e não é contrário ao método científico. Aliás logo em 1548 foi fundado na Universidade de Coimbra o Colégio das Artes com o intuito de melhorar e renovar o ensino humanista em Portugal, numa perspectiva mais laica, preparando os alunos para a academia. Como clarifica Helena Costa Toipa “Eram as Humanidades e as Artes que se estudavam essencialmente no Colégio das Artes, tanto sob a orientação dos jesuítas, como a dos professores que os tinham precedido nas suas funções, «bordaleses» ou «parisienses».” (cf A ratio studiorum do Colégio das Artes, nos primeiros anos em que esteve sob orientação da Companhia de Jesus (1555-1561), Didaskalia, XXXIII (2003), pág. 653).

Torna-se mais ou menos evidente ao caminhar pela cidade e município de Elvas que a monumentalidade das construções e a marca paisagística do património são fortes e, em certa medida, influenciadoras dos hábitos sociais. A Pintura e a Escultura nas Igrejas são sumptuosas. Então, como se desenvolveram ao longo do tempo? Houve artistas na cidade? Quando viveram? Como o nosso autor refere, em toda a parte houve pessoas com estima pelas “boas pinturas, e d’outros objectos da Arte”.

Socorremo-nos, para introduzir uma abordagem ensaística da questão, de fonte privilegiada – obra dividida em três partes ao estilo de livro historiográfico e de memórias – do invulgar artista e estudioso esquecido por muitos investigadores de cátedra, o pintor e arquitecto Cyrillo Machado (1748-1823).

Sabe-se que foi educado em Roma e, como deixa escrito, “Meu Pai aprendeo, e professou a Arte da Cirurgia, e os seus parentes nada mais erão que honrados lavradores do termo de Setubal”, foi responsável pela pintura de alguns tectos do Palácio da Ajuda em Lisboa. Trata-se do interessante livro «Colecção de Memorias, Relativas às vidas do Pintores, e Escultores, Architetos, e Gravadores Portuguezes, e dos Estrangeiros, que estiverão em Portugal, recolhidas, e ordenadas por Cyrillo Volkmar Machado, Pintor ao serviço de S. Magestade. O Senhor D. João VI», impresso em Lisboa em 1823 na Imp. de Victorino Rodrigues da Silva.

Para além dos artistas que conheceu, oriundos de várias regiões do país e do mundo, o autor refere o seu próprio percurso profissional, o que nos dá oportunidade de conhecer o meio artístico da segunda metade do século XVIII e das primeiras décadas do século XIX. Quem melhor do que um artista dedicado e de escrita agradável nos poderia ajudar a compreender a ligação e presença das Artes ao mundo rural português?

Poder-se-ia pensar que um pintor que serviu o Rei D. João VI se referiria às capitais europeias, que também conheceu, nesta obra. Contudo vamos ouvir falar de vilas e cidades que hoje nos parecem afastadas da produção cultural e artística de vanguarda.

Escreve Cyrillo Machado que passou a colorir e, mais tarde, teria “Chegado a esta Capital no Outubro de 1777 fui convidado pelo Bispo de Coimbra, Reitor da Universidade, para me empregar nas Obras de que elle podia dispor, tanto de pintura, como de architectura, promettendo-me tambem solicitar a meu favor a Cadeira destas Artes, que estava vaga. Eu não acceitei, mas annuí a outro convite que me erão fiz os meus amigos de Alemtejo, e occupeime em Evora, e Elvas até o S. João de [17]79.” (cf Collecção de Memorias, pág. 306).

O célebre Cyrillo passou assim dois anos da sua vida entre Évora e Elvas, por escolha própria, cultivando as suas obras, como faz questão de referir nas memórias. O que nos permite antever os trabalhos de Belas-Artes (entendidos lato sensu) que estariam a decorrer nestas cidades alentejanas e que levaram a que tenham sido mais apelativas para um artista de primeira linha do que a ideia de ocupar uma Cadeira na Universidade de Coimbra.

Poder-se-á dizer, caros leitores e leitoras, que seriam obras circunscritas a capelas, igrejas e talvez alguns palácios e casas nobres. Certamente. Não deixa todavia de nos abalar, no bom sentido, que existindo naquele fim de Antigo Regime necessidade, gosto, oportunidade do contributo de gravadores, pintores, arquitectos, escultures e tantos outros artistas e intelectuais, e que não haja hoje o mesmo gosto nem intenção em cultivar as Artes e as Letras. Que foram e continuam a ser, assim nos parece, pedra de toque fundamental para o florescimento das sociedades europeias.

Sem esta publicação do pintor Cyrillo Machado boa parte dos artistas ali mencionados seriam desconhecidos e talvez fossemos levados a pensar que a Arte estava confinada às grandes cidades, à Corte ou às capitais da Europa (tendência com as suas excepções), e principalmente que os artistas nasciam no seio das classes altas ou urbanas, o que geralmente não acontecia.

Neste século o que cultivamos? Há escultores, pintores, letrados, dramaturgos – tal como a agricultura que ou é cultivada ou inexiste – a produzirem nas vilas e cidades do interior? No fundo, a Cultura, esse bem alardeado mas porventura pouco desejada. Ou somos levados a pensar que hoje em dia em que há apoios da UE para a promoção e ensino artístico, em que há escolas politécnicas, poderá não haver desejos de animar o saber e a criação?

Será hoje a Arte apanágio do mundo urbano?

Bastam-nos as políticas do alcatrão legítimo. Ao que não iremos é à visão utilitária e imediatista que não foi a que trouxe progressos (evidentemente não se cria oposição aos saberes ou disciplinas mais recentes). Nem é a responsável por influenciar o incremento com vista ao bem-estar e fruição das pessoas, desafiadora da criatividade, tranquilidade e reflexão.

Já das Artes, das Letras e da Música, a que se juntaram novas e outras dimensões, estamos cientes que são essenciais.

Tiago Matias licenciado em Estudos Europeus (Faculdade de Letras de Lisboa)

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