O arcebispo de Évora, D. Francisco José Senra Coelho, presidiu à eucaristia e Te Deum de Acção de Graças por ocasião das comemorações dos 363 anos da Batalha das Linhas de Elvas, a 14 de Janeiro.

Após reflexão feita a partir da Palavra de Deus proclamada na celebração, D. Francisco José Senra Coelho contextualizou a celebração eucarística e o canto do Te Deum nos grandes valores da paz propostos pelo Santo Padre, o Papa Francisco, no passado 55º Dia Mundial da Paz 2022, sob o tema “Diálogo entre gerações, educação e trabalho: instrumentos para construir uma paz duradoira”, vivido no primeiro dia do novo ano. Na referida mensagem, o Papa Francisco propôs três caminhos para a construção de uma paz duradoira: “Primeiro, o diálogo entre as gerações, como base para a realização de projectos compartilhados. Depois, a educação, como factor de liberdade, responsabilidade e desenvolvimento. E, por fim, o trabalho, para uma plena realização da dignidade humana. São três elementos imprescindíveis para tornar ‘possível a criação de um pacto social’, sem o qual se revela inconsistente todo o projecto de paz”.

O prelado lembrou também o comunicado do Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa (11 de Janeiro de 2022), recordando que, “tendo em conta o processo eleitoral em curso, o Conselho apela à participação democrática dos cidadãos no próximo acto eleitoral e pede aos partidos políticos que apresentem com clareza as suas propostas quanto aos problemas da sociedade, sobretudo no que diz respeito à vida humana e sua salvaguarda integral, às situações de pobreza e coesão económica, às questões da justiça, à desertificação do interior do país, à situação dos emigrantes e aos problemas ambientais”.

Assim, o arcebispo de Évora solicitou uma “atenção cuidada e urgente face ao grave problema da escassez de técnicos de saúde, nomeadamente médicos e enfermeiros, que afecta sobretudo o interior do País, concretamente o Alentejo”, e lamentou “a incompetente coordenação dos recursos humanos, que dirigiram para a emigração muitos técnicos de saúde que não conseguiram colocação em Portugal, pondo a render as suas qualidades profissionais em vários países europeus e extraeuropeus, permanecendo agora as nossas populações à míngua deste imprescindível serviço para a qualidade da saúde e da vida”, solidarizando-se com “situações difíceis e conhecidas no Hospital de Santa Luzia de Elvas e do Espírito Santo de Évora, bem como em outros centros de saúde”. Lamentou que “o povo português tenha feito um louvável esforço de contribuir para a formação de excelentes técnicos e que agora se veja privado dos seus bons serviços”.

D. Francisco Senra Coelho apelou ainda para um compromisso concreto e assumido no apoio à fixação das novas gerações no vasto território do interior alentejano. “Só uma política positivamente discriminatória pode reduzir os pesados custos da interioridade”, referiu, concluindo com um forte apelo a que “as entidades competentes olhem com objectividade, compromisso e concretização para a realidade das IPSS que, no terreno, cuidam dos idosos e apoiam as poucas famílias jovens no cuidado dos seus filhos, através de berçários, creches e jardins-de-infância”. Lembrou igualmente “a dificuldade de recrutamento de técnicos especializados e de colaboradores no âmbito dos serviços gerais para estas instituições, que se debatem com graves carências financeiras e de recrutamento de funcionários”, e apelou para “esta urgente situação”, lembrando várias instituições em “aflitivas situações de ruptura”.

Lembrou o arcebispo que “todos estes temas têm passado à margem dos debates partidários, que permanecem no opaco de questões genéricas sem percorrer os caminhos do país real”. “Para quando o incremento de mais centros de Cuidados Continuados para idosos? Para quando a implementação de centros de cuidados paliativos que dêem continuidade à vida, sem nos pretenderem encurralar na fatídica proposta da eutanásia? Para quando uma atenção efectiva aos serviços de cuidados de saúde para aqueles que esperam quase sem limite no tempo por uma consulta ou por uma cirurgia, quer no contexto da pandemia ou pós-pandemia? Para quando a admissão do número de psicólogos e psiquiatras no apoio aos serviços de saúde, atendendo à crescente procura no âmbito da saúde mental? Para quando uma rede de creches privadas e públicas com carácter gratuito que incentivem a natalidade, neste interior em desertificação crescente? Para quando consequências efectivas da legislação a favor dos imigrantes, que graças ao regadio das águas do Alqueva vêm trabalhar para as vastas explorações agrícolas e hortícolas do Alentejo e que, em muitos casos, sobrevivem em autênticas colmeias de uma nova escravatura, situação esta já várias vezes denunciada pelos Bispos de Beja e Évora e pela Comissão Justiça e Paz de Évora? Eis um conjunto de interrogações sobre a qualidade da nossa liberdade e da integridade do território nacional, afinal, a grande questão da vitória das Linhas de Elvas: a nossa liberdade como povo e como nação”, disse.

O prelado concluiu que “celebrar a vitória da batalha das Linhas de Elvas é apostar na paz, sempre fruto da justiça e do desenvolvimento integral e global”.

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