A candidatura das Festas do Povo de Campo Maior a Património Cultural Imaterial pela UNESCO envolveu um trabalho “muito complexo” e “demorado”, focado em demonstrar as características “únicas” deste evento, revelou hoje um dos coordenadores.
“Foi um processo demorado”, iniciado em 2014, e “muito complexo”, que “implicou uma equipa multidisciplinar”, com “sociólogos, historiadores, antropólogos, muita gente”, disse à agência Lusa João Custódio, um dos coordenadores do dossiê.
Promovida pela Câmara e Associação das Festas do Povo de Campo Maior (AFPCM) e a Entidade Regional de Turismo (ERT) do Alentejo e Ribatejo, a candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade vai ser, agora, apreciada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
A 16.ª reunião do Comité do Património Mundial deste organismo internacional vai decorrer entre esta segunda-feira e sábado, em Paris (França), tendo em ‘carteira’ a análise de 55 candidaturas, uma delas a de Campo Maior, segundo a UNESCO.
O coordenador da candidatura alentejana explicou que a elaboração do dossiê se focou “numa serie de aspetos” para “dar a conhecer” as festas da vila, que só se realizam quando o povo quer, e a forma como se tornaram “únicas” face a outros eventos onde existem também flores de papel.
“A flor de papel não é algo exclusivo das Festas de Campo Maior, existem vários eventos que usam este tipo de decoração. Evidentemente, a qualidade do trabalho destas festas é um elemento muito importante, porque é, de facto, diferenciador”, argumentou.
Mas há também “outras características da festa que as tornam únicas e o dossiê focou-se muito nesses aspetos”, acrescentou.
O “elevado” número de voluntários que fazem flores, o facto de as festas só se realizarem quando o povo quer ou a figura do ‘cabeça de rua’, uma espécie de ‘capitão de equipa’, foram alguns dos aspetos mencionados na candidatura.
“A questão do voluntariado é uma situação que não digo única, mas muito peculiar” e, de facto, “as festas só se fazem se o povo quiser”, já que “estamos a falar de uma força de trabalho de cinco mil pessoas, mais ou menos, por edição”, e, “sem eles não era possível fazer a festa”, vincou Joao Custódio.

No dossiê enviado à UNESCO, são também abordados outros temas que tornam estas festas “diferentes”, como “a arquitetura efémera” e a forma como a vila, “da noite para o dia, se transforma por completo” com as flores de papel.
A via pública passa “a ser quase privada, porque passa a ser a minha rua”, enquanto, em sentido contrário, “a propriedade privada passa a ser pública, porque a minha casa está praticamente aberta para os visitantes”, disse
O trabalho entregue na UNESCO, além de abordar a arte de transformar o papel em flores, foi mesmo “procurar” esse tipo de situações mais diferenciadoras, sublinhou.
Durante o processo de investigação feito pela equipa multidisciplinar que preparou a candidatura, foi possível apurar que as festas têm uma ligação ao culto de São João Batista, que é o padroeiro da vila de Campo Maior, relatou o coordenador.
“E é daí que as Festas do Povo nascem e evoluem até chegarem ao que são hoje”, destacou, indicando que a 1.ª edição do evento deve ter ocorrido no final do século XIX.
Tradição secular e realizadas pela última vez em 2015, estas festas tradicionais são conhecidas por apresentarem dezenas de ruas, sobretudo no centro histórico, decoradas com milhares de flores de papel, feitas voluntariamente pela população.
Promovidos pela AFCM, os festejos na vila alentejana são reconhecidos internacionalmente pela sua originalidade e cariz popular, com os habitantes a prepararem a ornamentação das ruas durante meses a fio.
Esta tradição, identitária de Campo Maior, tem vindo a ser transmitida de geração em geração, oralmente e de forma informal, com os mais velhos a ensinarem aos mais novos os ‘segredos’ da elaboração das flores que ornamentam os espaços públicos da vila.

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