Tenho estado a refletir sobre se valerá a pena comentar, além do que já tem sido amplamente comentado, aquilo a que todo o povo tem assistido, impotente, através dos meios de comunicação. Estou a falar das comissões de inquérito, ainda sobre o processo BES. A vergonha e escândalo inqualificável que foi audição a Bernardo Moniz da Maia e agora há poucos dias a Luís Filipe Vieirasem deixar de recordar num passado recente o rocambolesco inquérito a Joe Berardo. Três dos maiores devedores do BES e que certamente, apesar de o negareme terem falhas graves de memória, contribuíram para o afundar e com isso levaram os impostos de milhões de portugueses. Como foi possível acontecer uma situação destas? depois do BPN, BPP, BANIF. Eu diria que a melhor forma de roubar um banco é administra-lo e foi o que aconteceu!Maia, Vieira, Joe, administradores de diversas empresas algumas delas com objetivos pouco claros e a pretexto de grandes projetos, embalados por ambições desmedidas, compadrios com administradores do BES, especialmente “o dono disto tudo” viram propostas de crédito de montantes exorbitantes lhes serem aprovadas de ânimo leve, sem garantias ou com garantias sobreavaliadas. Qual é a moral destas pessoas?

Um aspeto comum a estes ditos administradores é que por sinal não têm bens pessoais. No mínimo estranho! Será em Portugal, porque nos refúgios fiscais terão umas migalhas para irem vivendo e pagando aos advogados para metem pedras da engrenagem da justiça.Então, mas o banco não teve a preocupação de confirmar? Ah! Já percebi. O rigor era só para alguns. Se fosse um empresário de uma MPME, a referida política de crédito era impensável, teria que demonstrar possuir bens pessoais e além disso, dependendo do tipo e montante de empréstimo teria que prestar garantias reais (hipotecar um bem imóvel) em que o seu valor teria de suplantar o empréstimo a conceder (grosso modo seria sensivelmente assim). Quero com isto dizer que teria que demonstrar que tem bens e capacidade para pagar se quisesses conseguir um empréstimo, teria de fazer tudo como deve ser – o seu risco como cliente teria de ser avaliado na concessão de crédito. No caso dos referidos administradores e outros da mesma laia a coisa, por sinal, não é bem assim. Confiavam todos muito uns nos outros, eram todos amigalhaços, não era preciso garantias, o estatuto por si só dizia tudo – A avaliação do risco do cliente ou era secundarizada ou falseada. Afinal vamos a ver e incrédulos assistimos a mais uma desgraça com consequências devastadoras para o povo, para a confiança na justiça e na governação. Apesar de tudo os ditos administradores continuam, certamente com limitações (pois, também era melhor…) a fazer a sua vidinha com recursos fraquinhos (pensamos nós) e sem nada – coitadinhos.

Este tema teria panos para mangas, reconheço que me causa náuseas.

Devo recordar os lesados do BES que confiaram as suas economias e num piscar de olhos estas desapareceram. As economias de uma vida.Acredito que muitos deles terão sido enganados a investirem em gato por lebre. Recordo também os pequenos investidores, alguns deles empregados do próprio banco a quem lhes era proposto crédito para financiar a compra de açõescom promessa de garantia de resultados pois no banco pairava uma bolha de confiança e ninguém questionava. O pretexto dos “objetivos” legitimava a política do “vale tudo”. Com a hecatombe as ações passaram a valer zero e ficaram as dividas para serem pagas. Ao passo que os grandes investidores, certamente com informação privilegiada controlaram as suas perdas e outros até nem as conheceram. Ah! Ainda a propósito, por muito que me custe, devo recordar como muitos se recordarão do voto de confiança no BES, na altura, protagonizados meses antes pelo Sr. Primeiro ministro de então e Sr. Presidente da República. Caricato não? Para mim foi para evitar a debandada dos pequenos investidores, iludir o povo e amortecer ou evitar o prejuízo dos grandes. Os anos que se seguiram acabaram por confirmar essa triste realidade na minha opinião.

Já estão enterrados no BES 8.000.000.000,00€ (dos portugueses) e este montante não pára de aumentar. Até quando. Se era para termos este resultado o melhor teria sido nacionalizar (projeto apresentado desde o início pelo PCP) o banco e coloca-lo ao serviço das empresas e dos portugueses(as) em vez de andar a “ajeitá-lo” para ser vendido sabe-se lá a que preço e com que perdas. Ah! A propósito recordo também a audição recente ao antigo governador do BP Carlos Costa – outra vergonha – que dividiu o banco em dois (BES, o maue NB, o bom) e ao fim destes anos diz que afinal eram os dois maus.

Imaginemos o referido montante utilizado para apoiar, por exemplo nesta fase da pandemia as MPME’s e trabalhadores que viram as suas atividades e trabalho respetivamente, em causa. Tantas dificuldades que teriam sido mitigadas!

A situação a que chegamos com o BES reflete os desvarios e armadilhas das economias neoliberais assentes num sistema capitalista em que a economiamanda mais que o estado e está acimas dos governosem que o exercício da influência, manipulação e corrupção é exercido, abelo prazerpor uma certa corja de malfeitores e indignos que se sentem e julgam intocáveis, acima de tudo e todos.

A justiça tem de ser célere, imparcial, independente e autónoma com leis claras, precisas e incontornáveis.

Nomenclaturas:

MPME’s : micro, pequenas e médias empresas

PCP: Partido Comunista Português

BES: toda a gente sabe.

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