A pandemia parou competições, suspendeu-as, revolucionou-as, e afetou, mais do que qualquer outra, a vertente da formação, que, na sua maioria, perdeu praticantes e teve de reinventar-se perante os desafios impostos pela covid-19.
O alerta foi dado em dezembro de 2020 pelo presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), que, numa entrevista à agência Lusa, revelou “uma quebra muito significativa” nos indicadores de prática desportiva “num país que já os tinha baixos”, particularmente nos escalões de formação e nas modalidades de pavilhão.
“Nós estimamo-la em cerca de 52% […]. Se esses atletas vão ou não ser recuperados ou se vão migrar para outras modalidades, precisamos ainda de algum tempo para ter o quadro mais estabilizado e poder daí extrair alguma conclusão. Mas o risco é enorme. O risco de se perderem atletas, naturalmente, que precisa de ser rapidamente combatido, sob pena de termos aqui um problema gravíssimo a longo prazo”, estimou José Manuel Constantino.
A preocupação manifestada pelo presidente do COP expressa-se agora em algarismos: o número de jovens desportistas federados caiu para menos de metade, praticamente um ano depois da suspensão das competições de formação, devido à pandemia provocada pelo novo coronavírus, com o futebol a ser particularmente afetado.
A Federação Portuguesa de Futebol (FPF), responsável pelas competições nacionais de futebol e futsal, foi a que sofreu a maior quebra, contando na presente temporada com um total de 39.471 federados, 33.922 no futebol e 5.549 no futsal, uma queda superior a 75% do número de inscritos em 2019/20.
Na época passada, que foi interrompida em março de 2020, de acordo com os dados facultados à Lusa, em janeiro, a FPF somava 159.318 jovens atletas federados, na sua maioria praticantes de futebol (132.835), enquanto 26.483 jogavam futsal.
Mas a FPF não foi a única entidade federativa a sofrer um forte revés na formação, decorrente da pandemia de covid-19: a Federação de Andebol de Portugal registou uma diminuição de 54% do número de jovens inscritos (6.240 atletas em 2020/21, comparando com os 13.553 pré-pandemia), enquanto a de basquetebol ‘perdeu’ aproximadamente 10 mil jovens praticantes (42%), com 14.050 inscritos em 2020/21, comparativamente com os 24.089 da época passada.
A proporção é semelhante nos jovens praticantes de voleibol (46%), cuja federação nacional tem registados 27.156 inscritos, face aos 49.980 da época passada, e de hóquei em patins (50%), atualmente com 2.875, comparativamente com os 5.764 de 2019/20.
No total, dos quase 252.704 inscritos nestas cinco federações, que contavam com os praticantes de futebol e das cinco principais modalidades de pavilhão, restam 89.792 jovens atletas.
O ‘rombo’ é ainda mais percetível ao nível dos clubes: quatro em cada cinco jovens judocas deixaram a Académica, enquanto os principais clubes de râguebi do Alentejo – CR Évora e RC Montemor – perderam quase metade dos jovens dos escalões de formação devido à pandemia de covid-19.
Mas há mais: o ABC/UMinho, histórico do andebol português, tinha cerca de 400 atletas no ano passado e, em 2021, não chega a um quarto desse número, o “Os Pelezinhos”, emblema de referência no futebol de formação em Setúbal, teve uma razia no número de praticantes, perdendo quase 100 futebolistas da formação, e o Clube Náutico de Ponte de Lima viu ‘fugir’ alguns canoístas.
Num cenário desanimador, agravado pelo segundo confinamento atualmente em vigor, há, contudo, sinais de esperança para o futuro do desporto nacional: são eles, por exemplo, o Clube Fluvial Portuense (CFP), que cresceu em número de praticantes em 2020, a Felner Academy, cujo número de tenistas aumentou durante a pandemia, ou a Fonte do Bastardo, que começa a recuperar voleibolistas ‘perdidos’ devido aos receios inerentes à covid-19.
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