As pinturas murais existentes em Lisboa da autoria de Almada Negreiros, “uma das figuras-chave da vanguarda e modernismo” em Portugal, estão a ser estudadas por investigadores liderados pelo Laboratório HERCULES da Universidade de Évora (UÉ).
O estudo científico, recentemente financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e com a duração de três anos, quer desvendar a arte da “vasta obra mural” do artista e as técnicas pictóricas e materiais que utilizou, revelou hoje a UÉ.
“Em que aspetos este artista multidisciplinar português foi inovador” e “quais as fontes e tendências no desenvolvimento da sua prática como pintor muralista” são questões às quais, “pela primeira vez, os investigadores esperam dar resposta”, adiantou a academia alentejana, em comunicado enviado à agência Lusa.
A obra mural de Almada Negreiros (1893-1970) inclui “cinco núcleos de pintura” em Lisboa, realizados entre 1938 e 1956.
Os painéis “mais conhecidos” são os da antiga sede do Diário de Notícias, os da sala de espera da Gare Marítima de Alcântara e os da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, segundo a UÉ.
A equipa científica é liderada por Milene Gil, investigadora do Laboratório HERCULES da UÉ, que indicou que os murais do modernista português têm sido “objeto de discussão preferencial no que respeita aos seus atributos plásticos, iconográficos e simbólicos”.
Mas, considerou, “são poucos ainda os estudos que abordam, e muito menos os que aprofundam, as particularidades das produções, referências e repercussões dos murais pintados entre artistas conterrâneos e gerações sucessivas”.
“Todas as suas pinturas murais estão catalogadas como frescos, mas esta poderá não ter sido a única técnica pictórica realizada” sugeriu, baseada em relatos de conservadores restauradores do Instituto José de Figueiredo, que estudaram a obra entre os anos 1970 e 2000.
Os materiais e o ‘modus operandi’ de Almada Negreiros “são praticamente desconhecidos”, frisou a investigadora, lembrando que o artista “era conhecedor da técnica do fresco, mas também era um experimentalista”.
Considerado “uma das figuras-chave da vanguarda e modernismo em Portugal”, José Sobral de Almada Negreiros, “marcou o panorama artístico e cultural”, com “uma carreira multifacetada de quase 60 anos em Portugal e em Espanha”, evocou a academia.
Viveu em Paris (França) e em Madrid (Espanha) e, já regressado a Portugal, “assistiu à emergência do Estado Novo (1933-1974), no contexto no qual trabalhou em várias encomendas, públicas e privadas”.
O estudo científico, de natureza multidisciplinar, integra investigação da história de arte e das técnicas de produção artísticas, exames de superfície das pinturas, com recurso a técnicas convencionais e avançadas de imagem, e caracterização material, através de técnicas de análise ‘in loco’ não invasivas, de microanálise e analíticas laboratoriais.
No final, a equipa espera “identificar e caracterizar” quais “as técnicas pictóricas e os materiais constituintes do suporte e das camadas cromáticas, até hoje desconhecidos”, e “apurar as suas implicações nos fenómenos de deterioração registados” para contribuir para “a sua futura salvaguarda e manutenção”.
O projeto resulta de uma parceria entre o HERCULES, o Laboratório José de Figueiredo da Direção-Geral do Património Cultural, o Instituto de História de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e a Administração do Porto de Lisboa.
O Laboratório HERCULES da UÉ, já em 2017, liderou uma campanha analítica que visou caracterizar a técnica pictórica e os materiais empregues por Almada Negreiros nos murais pintados na antiga sede do Diário de Notícias.
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