Ficar em casa tem-me deixado mais inquieta que os antigos dias corridos sem o bicho. Há uma ideologia criada no desenrolar da quarentena em que precisamos de ser mais atentos ao que comemos e mais ativos fisicamente, ainda que tenhamos um frigorífico 24 horas disponível para nos abraçar nos momentos mais aborrecidos. Temos de nos vestir e pôr perfume para fazer rasteiras ao corpo, levando-o a crer que estamos noutro sítio, onde vamos apenas para trabalhar. Temos de ler os livros atrasados das férias de verão e ver a lista infinita do conjunto das cinco séries que nos são aconselhadas por dia. No entanto, o que ninguém nos tinha dito, é que a expectativa daqueles com quem moramos (agora cinco cá em casa) muda também e o nível de exigência a que se chega a viver é brutal.
Já não é qualquer canção que serve no duche. Existe agora um cancioneiro estabelecido por todos os membros da família, definido principalmente por décadas, que vai mudando de acordo com quem está a ouvir. Se minha mãe estiver na divisão ao lado, opto talvez por uma Cher, para animar o serão. Se, entretanto, vier a mais nova, vou ter de me render ao hip hop tuga. É isto ou o silêncio. E se julgava que o chuveiro era exigente, agora eu já não sei bem.
Nos espaços passa-se o mesmo. Pequenos animais num ecossistema e cada um no seu habitat. Todos sabemos muito bem de quem é o extremo esquerdo do sofá grande ao lado da lâmpada. Eu não me posso lá sentar, nem ouso. Cada um de nós criou mecanismos de lugarejos pela casa que funcionam como pequenos abrigos e quem invadir território estará, pois, a roubar segurança e conforto ao outro.
As refeições não são mais tentativas de nutrir um corpo físico, mas de alimentar o vazio das horas. Já ninguém tem fome, mas todos sentamos à mesa para comer. Não existe mais cá em casa o conceito de refeição: existem sim ações contínuas extensivas de pura exploração gastronómica. A conversa vai muito para além do café. Ficam vários vinhos a respirar, só no caso. E a cada três dias, o queijo acabou.
A lavagem da loiça veio a revelar-se um problema comum e ficamos presos à velocidade da internet como uma criança segura com a mão já transpirada o fiozinho do balão de hélio. Em poucos metros quadrados tentamos fazer uma vida à nossa medida, mas também que sirva na dimensão dos outros. Há tantos concertos online que há dias em que estamos a ver o nosso e a ouvir o de alguém, manuseando inteligentemente com uma respiração profunda a falta de limites, num confim estabelecido.
Estamos muito cansados uns dos outros, mas também temos a certeza que não conseguiríamos passar por uma chatice tão grande de outra maneira. Vai viver sempre algo muito especial nas gargalhadas que se soltam quando nos apercebemos de tiques que nunca tínhamos visto ou quando discutimos por dias por não encontrar o carregador branco “que eu tenho a certeza que deixei aqui”. É nessa matéria especial, produto das canções que são cantadas com a água a bater nas costas e num abraço depois de uma zanga, que vive o poder da união. E esse poder, venha que bicho for, não se deixa apanhar por aí assim.
Catarina Cambóias
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