Tínhamos voltado a Elvas. Lá fora ouviam-se os insectos que sempre aparecem para cantar à noite e a lua iluminava as paredes brancas da cidade lá ao fundo. Numa casa de cinco, agora duas. O conforto do regresso ao ninho brigava com o espaço vazio que vínhamos encontrar, deixando-nos baralhadas e, por momentos, imóveis. Meus pais tinham partido para a frente de batalha no hospital da cidade e escolheram proteger-nos das possíveis mazelas dos combates, deixando-nos a cargo a casa da família.
Ficou um escrito de minha mãe à entrada a assinalar o nosso regresso, mas sem nenhuma voz emotiva ou abraço confortável que nos valesse. As mantas estavam dobradas e arrumadas, como se não fosse mais tempo para ficar a saborear a canção baixinha dos dias. O frigorífico com comida a mais para tão pouca gente, com tão pouca fome. Um gato preto cruza o portão e estranha a nossa presença. Espera e depois passa.
A porta da sala dos livros de meu pai está fechada e raramente assim foi. O ferro de engomar está gelado e a garrafa de vinho a meio. Existe um silêncio sobre as nossas cabeças impossível de suportar e apenas se ouvem os barulhos da casa. O espaço outrora curto tinha sido duplicado. Diz-me minha irmã:
“-Estás contente de estar em casa? Noto-te esquisita.
– Mais ou menos. É estranho. Parece que fica demasiado grande… As escadas fazem eco. Não é mais um ninho se só estamos cá nós.
– Se é um ninho, foram eles que trouxeram as palhinhas. E são as palhinhas que o suportam. Não sejas tão trágica. Eles estão em cada parede e a casa transpira a presença deles.”
Tentei estagnar a minha veia dramática como me pediu (como aliás sempre me pede) e atentei. Todo aquele nada estava realmente cheio deles. Na ponta da saia da camilha ligeiramente torta do lado direito e no pão inteiro fatiado pousado com carinho na bancada de granito. Estavam ali, na caneta desarrumada em cima do caderno e no rádio deixado com a antena para cima numa mesa de apoio.
Pensamos muitas vezes que vivemos num mundo semeado com casas em que habitam corpos dos quais se vão fazendo pessoas. Que somos o produto de cconstruções de camadas de cimento e que os alicerces da obra nos enrijecem os ossos. Mas não é verdade. São as pessoas que, presas nos corpos, habitam as casas e semeiam o mundo.
Numa casa de cinco, agora duas. Poucas pessoas com pouca fome. Mas que persistem com o rádio escolhido por minha mãe e ouvido pelo meu pai, deixado propositadamente. Quando os dias estão parados e ensurdecedores de tanto silêncio num lar onde sempre todos tinham voz, ligo-o ropendo a calma forçada, projetando-a para fora da porta de entrada. De repente, o eco não faz mais eco. Consigo ouvir os pulos joviais de minha mãe a descer os dois conjuntos de sete escadas quando de sorriso em riste vem avisar que falta menos um dia para o (meu) mundo (voltar a) ser completo. Aqui. Sempre aqui. Na casa onde me fiz menina, na rua onde me fiz mulher.
Catarina Cambóias
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