Com a pandemia do novo coronavírus, criou-se num curtíssimo espaço de tempo, em Portugal, um ambiente social estranho, imprevisto, tenso, fenómeno para o qual poderá ter contribuído, e mesmo tendo em conta a seriedade do momento, alguma mediatização apocalíptica da crise.
Os portugueses passaram rápida e sucessivamente da preocupação para a curiosidade mórbida, para o medo e para o pânico autêntico – dado que muitas instituições e modos de vida que temos há muito como garantidos cederam com a pressão geral.
Ora, o pânico produz o seu próprio contágio emocional e até espiritual, que pode ser ainda mais aterrador do que o próprio vírus. E este efeito é ampliado pela desertificação dos espaços públicos, sentida por muitos como um esvaziamento do seu interior, do seu íntimo.
Acresce que a pandemia veio acordar em cada de um nós, de forma violenta, a consciência da nossa fragilidade – da precariedade humana Fragilidade que esquecemos em épocas de prosperidade, iludidos que andamos então por seguranças falsas.
De repente, milhares de pessoas tremem, sofrem, desesperam e morrem, frequentemente sozinhas, perante a incapacidade da política, da economia, da tecnologia e da medicina, do progresso e da ciência.
Uma impotência que será momentânea, todos o esperamos, mas impotência mesmo assim. Isto é, a Covid-19 tornou visível, palpável, um medo imenso da morte, um medo a que ninguém é alheio.
A urgência e o zelo com que tantos e tantos fugiram das ruas e dos seus locais de trabalho e prontamente se fecharam em casa, muito mais cedo e mais rigorosamente do que as autoridades na altura recomendavam, e depois a pressa com que que tornaram virais os seus receios e angústias, revelam de forma evidente o nosso pavor quando nos confrontamos com a perspetiva da mortalidade e da finitude.
Não sei se hoje tememos a morte mais do que noutros períodos históricos, mas não há dúvida de que o nosso tempo lida mal com essa perspetiva e não se sente preparado para ela.
Porém, talvez o aparecimento deste vírus terrível possa ajudar-nos a recentrar as nossas vidas em função do que é mais importante e tem maior significado. Dizer-se que as crises são oportunidades e a adversidade (se a ela sobrevivermos) nos faz mais fortes é um lugar-comum. Também é uma banalidade acrescentar que os momentos de perigo são momentos de verdade e que depois de algo assim nada será como dantes. Dito isto, a situação que vivemos agora pode mesmo servir como um abalo necessário.
Por exemplo e para notar o óbvio, de um dia para o outro, a ordem de prioridades de cada um alterou-se completamente, e preocupações pesadíssimas, compromissos inadiáveis e tarefas da máxima urgência apagaram-se da nossa agenda ou foram canceladas. Isto talvez seja indicação de que há valores que, uma vez regressada a normalidade, podemos reordenar na nossa vida para que ela seja mais rica e útil.
Talvez houvesse na nossa vida coisas a mais e coisas a menos. Talvez seja mais saudável reforçarmos o nosso investimento individual e coletivo em bens mais valiosos como a família, a amizade, o serviço aos outros, o trabalho, a sabedoria, a liberdade, a alegria, a espiritualidade e a gratidão pelos dons que recebemos, como pessoas e como sociedade humana.
É certo e sabido que a algumas dessas dádivas só damos verdadeiro valor quando, como acontece agora, somos privados delas. Mas, a partir de agora, e quando o coronavírus passar, a muitas delas vamos saboreá-las com um prazer diferente. E deseja-se que nessa altura estejamos também mais disponíveis para a compaixão e a solicitude perante aqueles que, por pobreza, doença, solidão ou idade mais avançada, para estarem excluídos da fruição desses bens preciosos não foi preciso que viesse o novo coronavírus.
Hugo Oliveira Ribeiro é Diretor Geral do HBR Group

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