Os baloiços das crianças estavam vedados com fita branca e vermelha, traçada na diagonal. O vento fazia-os andar para a frente e para trás, como se a ressaca de não ter putos por perto, cantasse uma lengalenga dos bons velhos tempos. O sol abria devagarinho e debotava a parte mais acima do escorrega amarelo. Ainda que sem uso, o tempo faz prática do tempo e encarrega-se, por si, de o levar para a frente.
Vê-se pouca gente para o que é habitual a esta hora. Já nem o vento do mar bravo promete acalmar os corações inquietos que madrugam. As pedras estão polidas e húmidas e a areia dourada pura e virgem. Digo bom dia quatro vezes, respondem-me duas. Cada um na sua ponta do paredão e sem abrandar o passo. Existe terror na maneira como olham para mim, quando o ousam fazer. Temos medo uns dos outros porque sabemos afinal o peso de cada um nesta história, que ainda está longe de ter final (feliz).
Um pescador grita e detém-me:
– Estás mal agasalhada.
-Não tenho frio.
-Não é essa a questão. Se te constipas, ficas mais frágil, e se ficas mais frágil…
-Eu estou bem, mas obrigada.
Acende um cigarro com um isqueiro que teimava em não obedecer, e que só o fez, depois de 2 ou 3 reclamações do dono.
– Estudas?
– Estudo.
– Foste a única que encontrei hoje com coragem de me olhar e tirar os olhos da merda de maquinetas que vos dão para vos entreter do que realmente se passa… Por isso, diz-me: que achas de tudo isto?
– Eu não sei, Sr…
– Ora essa! Tens de saber! – gritou.
– Não sei em que acreditar, percebe? Tenho medo, isso eu sei. Principalmente por quem amo. Mas não sei onde pode acabar toda esta loucura.
– Pode acabar onde começou, minha filha. Na merda que fazemos. Também foste tu culpada disto. E agora pagamos a conta, porque há sempre contas para pagar e alguém para recolher. Cagámos numa sala e fechámo-nos lá dentro.
Nunca tive medo de pessoas estranhas e muito menos daquelas que usam as próprias mãos para seu sustento. Há qualquer coisa de romântico quando se pensa que um homem apanha cinco peixes que alimentarão duas famílias. É a conta da soma e divisão… muito diferente dos cálculos em que agora me falava.
-Que quer dizer com isso, Sr….?
– ‘Tás a ver aquele mar?
– Estou.
– Se ele viesse por aqui adentro, morríamos todos. Morriam pessoas, mas mais importante, morriam investimentos e promessas de venda. E por causa disso estão a matar os nossos pais.
– Acha que é uma conspiração?
– Olha, eu nunca estudei, com muita pena minha. Mas já vi muita coisa e privei-me de ver muita mais. Não é uma conspiração… é um plano. Um ataque à raça, para equilibrar o mundo redondo. Mas a raça é feita de pessoas e eles vão acabar com as pessoas.
– Não diga isso. Vamos acreditar que o mundo não pensa assim.
– Diz-me: que achas tu de tudo isto? Eu já disse. É a tua vez.
– Eu não sei, de verdade. Sei que é tipo um daqueles filmes que a gente vê que queremos muito muito que chegue ao fim para tudo ficar bem, sabe?
-Vocês estudam, mas vocês não sabem nada. Ainda vais assistir a uma guerra mundial.
– Deixa-me triste quando diz essas coisas.
– Olha à tua volta e se vires com atenção nada é como daqueles filmes de que tu falas. Está a acontecer. É real. Estás aqui.
– Espero que fique bem.
– Também espero que fiques bem. E vai lá. Está frio e estás mal agasalhada.
Ele estava do lado direito do paredão e eu do esquerdo, na direção de como quem vai para o mercado do peixe, fechado há uns dias. Não lhe sentia sequer o cheiro do cigarro e a nódoa no casaco não se percebia de que era a esta distância. Ralhou-me e eu consenti… Não podia deixar de achar que merecia. A culpa se calhar era mesmo nossa. Minha, dele e do todo o resto. No entanto, custa-me muito acreditar que alguém que apanha vida e a põe no prato das outras pessoas, consiga ter alguma culpa num cenário tão ruim.
Catarina Cambóias
Para partilhas, desabafos e tantas outras histórias, deixo-lhe o meu contacto: [email protected]
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