Estudamos na escola os mais fantásticos heróis de guerra. Outros tantas vezes saem dos nossos ecrãs e convidam os nossos filhos a participar nas aventuras, fazendo de lençóis às costas a capa e de um comando um punhal. Nos livros, a bomba que acabou com os mauzões foi detalhada ao pormenor e quase lhe sentimos o calor e os estilhaços no sofá da nossa sala. Os gritos de um filme e o sangue que se derrama por nações e países são histórias eternas de quem viveu uma vez por outros, fazendo deles a sua bandeira.
Os dias não vão tão simples assim, como nos desenhos animados. Este episódio custa a passar, tem-se derramado mais sangue do que o que fora esperado e os heróis estão agora mais em silêncio. Sem gritos ou grandes tesouros por encontrar, são eles por estes dias que minimizam o caos no olho da tempestade e brigam por mais paz, mais conforto e menos terror a um vilão que se recusa a render.
Os nossos heróis são hoje pais de família e mães de filhos que vão para a frente da batalha por quem ainda nunca conheceram. São médicos que cuidam agora das crianças de quem viram nascer, enfermeiros que aninham os nossos avós internados e auxiliares de saúde que fazem de uma enfermaria uma espécie de casa. Há-os mais sensíveis ou ansiosos, mais críticos ou delicados, uns a quem a bata favorece e outros nem tanto. Uns tão estimados por coração mole e outros tão competentes por mau feitio. São simpáticos, são teimosos, são exigentes. Têm dúvidas e têm esperança. Têm problemas e boas memórias. São humanos. À primeira vista como nós. Feitos de sangue, suor e lágrimas, com a réstia de fé no amanhã.
Mas não só. São eles de outra carne, com músculos trabalhados e sofridos que são lavrados à exaustão por outras famílias, arriscando a sua. São de ossos feitos do que não parte, do que não quebra, do que não cede. São de mãos secas e gretadas, prontas para abraçar o mundo no e ao seu serviço. São de pés peregrinos, que continuam a caminhar para a cura, quando a estrada acabou lá atrás. São de coração que aposta pelo futuro. São de alma que vive pelo presente.
Não levam escudos, não levam espadas. Não levam armaduras que lhes protejam o peito, nem talismãs que lhe chamem a sorte. Vão, por outros. Por todos. Sentem-se incapacitados, mas emanam coragem; cansados, mas abundam vida; derrotados, mas de olhos postos na batalha e mãos preparadas para fazer de um mau mundo um bom dia de trabalho.
São eles quem sustenta o tudo de bom que a vida ainda tem. A bandeira pela qual lutam já não é nossa: é do meu filho que há de nascer, das flores que hão de florir noutras primaveras e de uma história de amor que ainda não foi escrita. E, por isso, a alma do mundo ficará eternamente grata.
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Dos textos mais sentidos e difíceis que escrevi:
a minha curta homenagem a todos os profissionais de saúde.
Com carinho e emoção reforçados para os profissionais do Hospital de Santa Luzia de Elvas, em especial para aqueles que estão na primeira linha de combate: médicos, enfermeiros, técnicos e assistentes operacionais.
O meu coração está convosco. Coragem.
Catarina Cambóias
Para partilhas, desabafos e tantas outras histórias, deixo-lhe o meu contacto: [email protected]
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