A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen veio anunciar a libertação de 37 mil milhões de euros para apoiar as economias da zona euro devido ao estado de cataclismo em que estas se encontram causado pela pandemia do Covid-19. Garantiu também que apesar de neste momento todas as atenções estarem focadas num só problema, o seu executivo não esqueceu os objectivos definidos para a Europa no que toca ao Green Deal e a políticas que visam ao combate das Alterações Climáticas. Contudo muitos são os que têm vindo a mostrar o lado positivo desta pandemia como sendo a redução drástica das emissões de CO2. Desde artigos até caricaturas de um planeta doente a deliberadamente extinguir o verdadeiro vírus (Nós, Humanos). Pessoalmente, não podia discordar mais desta visão!
Para começar, esta quarentena que o mundo vive é, ao que tudo indica, temporária. As fábricas vão voltar a produzir, as grandes empresas de extração e produção de combustíveis fósseis vão voltar a funcionar, os nossos carros e autocarros vão voltar às estradas e os aviões aos céus. Tudo isto será uma nota de rodapé do ponto de vista do desafio climático. Não é uma solução a longo prazo, não muda mentalidades e não muda a forma como nos deslocamos e como produzimos bens e serviços. Não muda nada, só interrompe.
Quando falamos em descarbonizar a economia falamos em produzir as mesmas coisas (com o mínimo de alterações possível) de uma forma mais sustentável; sermos capazes de transportar estes bens desde o seu local de produção até aos mercados sem utilizar combustíveis fósseis (gasolina e gasóleo por exemplo); falamos em continuar a deslocar-mo-nos para o nosso local de trabalho sem emitirmos as gigantescas quantidades de carbono que emitimos; falamos em continuar a proporcionar às pessoas condições de vida cada vez mais dignas (aquecimento, eletricidade, água potável, comida, etc.) sem condenarmos as gerações futuras e sem destruirmos o planeta. Quando falamos em repensar a nossa economia e indústria falamos em ter as mesmas condições, idealmente até melhorá-las, sem destruir o planeta e não em cessar completamente a economia e a indústria levando a despedimentos em massa e fazendo regredir a civilização até à idade média.
O combate às alterações climáticas tem de ser travado. Sou adepto de que por muito que os gestos individuais e campanhas contribuam não seremos capazes de inverter este caminho na direção do abismo climático sem políticas públicas. Políticas que penalizem através de impostos os maiores emissores de gases com efeito de estufa e beneficiem os menores emissores. Políticas que avaliem os impactos ambientais das actividades humanas e as tenham em conta na hora de licenciar. Políticas que incentivem a investigação científica e a inovação tecnológica como forma de solucionar alguns destes problemas.
Não podemos chegar à porta de fábricas, da banca, de serviços administrativos estatais, de escolas, de universidades, de cafés, restaurantes, bares, museus e tudo o que não sejam serviços de saúde e dizer aos seus funcionários: fechem tudo e mandem milhões de pessoas para o desemprego, em nome do planeta, nem com ironia afirmar que essa é a solução!
Enfrentar as alterações climáticas não pode ser sinónimo de despedimentos, de fecho de fábricas, de quebras nas cadeias de produção, da diminuição da qualidade de vida. No dia que assim for, nós, os que tentamos alertar para o facto de as calotes de gelo estarem a desaparecer, que alertamos para as cada vez maiores concentrações de CO2 na atmosfera, que alertamos para o desperdício e contaminação de água potável, teremos perdido esta batalha pelo planeta.
Não sou capaz de concordar com uma filosofia que coloca em cima da mesa como solução válida para os vários problemas ambientais que enfrentamos a completa paralisação de indústrias, economias e da vida das pessoas. Uma filosofia que acha aceitável retroceder em todo o progresso que já foi por Nós feito.
Investigador em biologia evolutiva na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
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